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Estrelas da Periferia

Um músico porto-alegrense pelo mundo 

Da infância musical na capital gaúcha às ruas de Londres e aos bares da Austrália, Pablo Dias construiu uma trajetória marcada pela reinvenção constante

07/04/2026 - 05h30min


Emily Barcellos
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MF. Lente Afetiva/Divulgação
Artista já lançou mais de três álbuns de estúdio e inúmeros singles

Desde cedo, a música nunca foi um elemento distante na vida de Pablo Dias, 35 anos. Criado em um ambiente familiar musical, com mãe violonista e pai baterista, ele teve ainda na infância o primeiro contato com o piano, motivado pelo desejo de entrar na banda dos amigos do condomínio. A escolha acabou determinando um caminho que atravessaria países, estilos e diferentes fases da vida.

Na adolescência, o violão passou a ocupar o centro da criação. Vieram as primeiras composições, as bandas de colégio e, mais tarde, o rock autoral com a Banda Paradoxo, projeto que culminou no lançamento de um disco por volta de 2009. Naquele mesmo período, Pablo tomou uma decisão decisiva: interrompeu temporariamente o curso de engenharia e foi para Londres com um objetivo claro, viver exclusivamente da música, ainda que de forma instável, guiado por um ideal artístico de dedicação total à arte.

Na capital inglesa, encontrou nas ruas a experiência que procurava. O busking — prática comum na cidade — consiste em apresentar música em espaços públicos, como calçadas e praças. Foi ali que Pablo tocou para públicos diversos, circulou por bares, participou de noites de microfone aberto e se apresentou em palcos históricos.

– Tocava na rua, com a capa do violão aberta, e fui conhecendo a cidade, desde lugares que pagavam até os que não pagavam. Palcos onde tocaram Amy Winehouse, U2 e vários outros artistas que admiro. É uma diferença marcante. Não me imagino fazendo isso em Porto Alegre, mas, ao mesmo tempo, a cidade vem abrindo mais esse espaço – relata.

A experiência, no entanto, também evidenciou a precariedade do ofício. A paisagem encantava, mas a realidade impunha seus limites, com uma renda variando, retorno instável e a sobrevivência dependendo da resiliência tanto quanto do talento.

De volta ao Brasil, Pablo lançou um álbum em 2012 — com canções em português e inglês — e passou a circular pelo país. Em 2013, integrou a Goiabanda, abrindo shows e participando de circuitos autorais. Paralelamente, ingressou no curso de Música Popular da UFRGS e integrou o Autoral Social Club, iniciativa que incentivava a música autoral em Porto Alegre e marcou uma geração de artistas locais.

Apesar da intensa produção criativa, a sustentabilidade da carreira tornou-se um impasse. Custos elevados, dificuldade de retorno financeiro e episódios traumáticos, como um assalto em Porto Alegre que resultou na perda de instrumentos e equipamentos, levaram o músico a repensar o futuro. Em 2017, após lançar um álbum, mudou-se para a Austrália para realizar um doutorado em engenharia.

A música, porém, seguiu presente. Na Austrália, Pablo voltou a tocar em bares e iniciou a gravação de um álbum em inglês, com influências de rock e blues, lançado em 2022, após seu retorno ao Brasil. A pandemia, no entanto, redefiniu de vez sua relação com apresentações ao vivo. Palcos fecharam, espaços com música ao vivo desapareceram e o artista decidiu não retomar o circuito tradicional.

Ao falar sobre tocar fora do país, o músico relembra uma noite morna em um bar que se transformou quando arriscou uma canção brasileira.

– O bar não estava muito animado, e então decidimos tocar Mas, Que Nada, do Jorge Ben Jor. Todo mundo se acendeu e começou a vibrar junto. Eles nem conheciam a música, nem era a língua deles – recorda.

Em 2015, abriu o show da banda America, no Auditório Araújo Vianna, em Porto Alegre, uma das experiências mais marcantes de sua carreira.

A partir desse período, surgiu um novo método de criação e lançamento: duas músicas por ano, sem álbuns, em sintonia com o comportamento do público e com suas próprias limitações de tempo e energia.

– A forma como as pessoas interagem com a música mudou. Hoje, poucas pessoas ouvem um disco inteiro. Faz mais sentido lançar canções aos poucos - reflete.

Essa lógica se materializa em Feliz Aniversário, com lançamento previsto para esta sexta-feira nas plataformas digitais. A música nasceu da tentativa de escrever uma mensagem para o filho recém-nascido de um amigo, e acabou atravessando uma década até ganhar forma definitiva, quando o próprio Pablo se tornou pai. Gravada de maneira crua, com o celular, fora de um estúdio, a capela, no hospital, a canção sintetiza a relação do compositor com a arte: íntima, vulnerável e terapêutica.

A arte nua e crua

Pablo não esconde o desconforto da exposição. Medo, vergonha e vulnerabilidade fazem parte do processo. Ainda assim, acredita que silenciar dói mais do que compartilhar.

– Se uma ou duas pessoas forem tocadas por uma música no momento certo, já vale a pena. O que eu quero é isso, que minha música seja um presente para as pessoas - afirma.

Para ele, “a angústia de botar para fora é menor do que a angústia de não botar para fora”. Suas composições, como Feliz Aniversário e a mais recente Meu Irmão, nascem diretamente de experiências pessoais.

Entre fórmulas e melodias, Pablo divide a vida entre a engenharia, hoje também ligada a sua empresa de tecnologia voltada à reciclagem sustentável, e a música. Para ele, os caminhos nunca disputaram o mesmo espaço.

– Fazer engenharia e música sempre teve objetivos distintos. Com a música, nunca almejei um diploma. Era para aprender mesmo, para ter conhecimento.

Entre cidades, idiomas e decisões difíceis, a trajetória de Pablo Dias segue menos linear do que humana, feita de desvios, encontros e canções que carregam o peso e a delicadeza de quem escolheu transformar a própria vida em música.

Aqui, o espaço é todo seu!

/// Para participar da seção, mande um histórico da sua banda, dupla ou do seu trabalho solo, músicas, vídeos e telefone de contato para michele.pradella@diariogaucho.com.br

/// Entre em contato com a artista pelo Instagram: @pablodiasoficial

*Com orientação e supervisão do jornalista Alexandre Rodrigues


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