Sucesso de público e crítica
O que fez a novela "Três Graças" cair nas graças do povo
Trama de Aguinaldo Silva soube combinar elementos das grandes novelas, como bons mocinhos e vilões, com representatividade


O que faz de uma novela sucesso de público e crítica? Nos últimos anos, competindo com a ascensão do streaming e com as redes sociais, a teledramaturgia perdeu espaço, é verdade, mas vez ou outra, temos um fenômeno capaz de despertar paixões, movimentar torcidas apaixonadas por casais da ficção e deixar muitos fãs com sentimento de luto ao chegar nos últimos capítulos.
Para celebrar este fenômeno, a RBS TV fará uma sessão aberta ao público em Canoas nesta sexta-feira (15).
Três Graças provocou uma avalanche de emoções, trouxe de volta um dos autores mais consagrados da TV Globo, Aguinaldo Silva, e rompeu barreiras e tabus ao mostrar várias formas de amor ao longo dos capítulos. Aguinaldo — ao lado de Zé Dassilva e Virgilio Silva — fez o Brasil se emocionar, odiar, amar e torcer por seus personagens favoritos.
Novelão que chama, né?
Mocinha marcante

Aguinaldo Silva escreveu Gerluce especialmente para Sophie Charlotte. E, chegando ao final de uma jornada da heroína digna e marcante, todos concordam que tinha que ser ela.
Longe da perfeição, a mocinha de Três Graças era gente como a gente, e por isso mesmo o público a amou desde o primeiro capítulo. Ela se desdobrava no papel de mãe, filha e profissional, chegava atrasada no trabalho, chorava no transporte público e não levava desaforo pra casa. Aos poucos, um passado de dor, abandono e o relacionamento abusivo com Jorginho Ninja (Juliano Cazarré) vieram à tona, descortinando mais e mais camadas de uma personagem que, por si só, já era complexa.
Mas o grande trunfo dos autores com Gerluce foi mostrá-la orquestrando um crime — ainda que com as melhores intenções, mas um crime — , dando início a um dilema ético que fez os telespectadores pensarem se, no lugar dela, não seriam capazes de fazer o mesmo.
Gerluce cresceu sem pai, foi mãe solo e temia que Joélly (Alana Cabral) tivesse o mesmo destino. A descoberta da gravidez precoce da menina, seguindo uma triste sina familiar, provocou questionamentos importantes.
Logo no início da novela, ao levar a filha para uma consulta médica, Gerluce aponta para as outras mulheres à espera de atendimento e pergunta: "tá vendo algum homem com elas?". A provocação mais do que pertinente é um retrato do país que tem mais de 11 milhões de mulheres que criam seus filhos sem a presença de um companheiro.
A mocinha nunca precisou de um homem para ser feliz, sempre sustentou a família sozinha, prezava sua liberdade e estava longe de ser uma heroína à espera do príncipe encantado. Por isso, o romance com Paulinho (Romulo Estrela), longe de ser uma tábua de salvação, veio para somar afeto, multiplicar sonhos e dividir as angústias que se apresentaram no caminho.
Em uma equação perfeita, "Paluce" — como o casal foi "shipado" — não precisou de triângulo amoroso ou artimanhas dos vilões. A própria vida se impôs, a ética do policial ficou balançada com a descoberta da expropriação, mas, no fim de tudo, o amor se mostrou maior do que os conflitos entre o certo e o errado.
Dilema moral

Se a trama anterior apresentava como questionamento: "pra subir na vida vale tudo?", Três Graças foi além e fez o público se colocar no lugar da protagonista, se perguntando até onde iríamos para salvar a vida de alguém que amamos.
Gerluce tentou as vias legais, procurou o delegado — corrupto, como se revelou mais adiante — e levou como resposta uma ameaça. Ao reunir um grupo para levar a cabo o plano da expropriação da estátua As Três Graças, a protagonista foi absolvida pelo público antes mesmo do crime se concretizar.
Como uma versão feminina de Robin Hood, Gerluce tirou um bem valioso dos ricos para salvar a vida dos moradores da Chacrinha. O fato de os lesados pelo assalto serem os dois grandes vilões da novela, Ferette (Murilo Benício) e Arminda (Grazi Massafera) contou ainda mais pontos a favor da "Liga da Justiça".
Vilania de sobra

E, por falar em vilões, a trama entregou todos os tipos de malvados. No primeiro escalão, Ferette e Arminda comandavam o esquema dos remédios falsos, lucrando com a doença e a morte de pessoas pobres.
A escalação de Murilo e Grazi foi um dos grandes acertos da novela. Entrosadíssimos, tiveram sequências despudoradas e de um humor escrachado, isso sem falar na química explosiva entre os personagens. Grazi, em especial, fez miséria em cena, improvisou, dançou, surtou e entrou para a galeria das grandes vilãs da teledramaturgia, páreo a páreo com Nazaré (Renata Sorrah), de Senhora do Destino, e Carminha (Adriana Esteves), de Avenida Brasil.
Há 10 anos longe das novelas, Fernanda Vasconcellos teve um retorno triunfal como Samira. Traficante de bebês, vendeu o filho e a neta, mas ostentava o discurso de que estava fazendo um bem para crianças de origem humilde e para casais que sonhavam em aumentar a família. Sem levantar o tom de voz, com seus belos olhos azuis e uma carinha de anjo, aterrorizava mais do que qualquer vilão histriônico.
Outro destaque da trama foi Daphne Bozaski, deliciosamente odiosa como Lucélia. As nuances da personagem, que foi de prima invejosa e sobrinha dissimulada a dona do tráfico na Chacrinha, capaz de matar os próprios pais e empunhando uma arma sem qualquer pudor, deram à atriz chance de brilhar e provar seu talento.
Representatividade

Foram anos de censura, cenas gravadas e cortadas na edição e até personagens sendo mortas para não desagradar o público. Enfim, depois de tanto apagamento, um casal formado por duas mulheres teve o direito de amar, beijar, casar, e o mais importante, com uma torcida fervorosa pelo final feliz de Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovski).
A construção dessa história de amor foi feita de forma tão delicada que furou a bolha e caiu nas graças (sem trocadilho) até do público mais tradicional. O fenômeno "Loquinha" teve bastante espaço de tela, ultrapassou fronteiras, tendo cortes de cenas legendados em vários idiomas, e até ganhou uma novelinha só sua, com milhões de visualizações.
Não é exagero dizer que o engajamento recorde de Três Graças nas redes sociais se deve muito ao sucesso dessas duas personagens.
Outro casal que venceu preconceitos foi Viviane (Gabriela Loran) e Leonardo (Pedro Novaes). A primeira barreira foi imposta pelo próprio Leo, que em um primeiro momento ficou confuso e até mesmo horrorizado por ter se apaixonado por uma mulher trans.
Depois de um período refletindo, ele resolveu bancar esse amor e enfrentou até mesmo Ferette. O maior obstáculo, no entanto, foram as atitudes do próprio Leonardo, que foi cúmplice do pai no esquema da casa de farinha. Vivi levou algum tempo para perdoar o amado, mas valeu a pena esperar.
O casamento duplo, de Leo & Vivi, Lorena & Juquinha, fez história na teledramaturgia, provando que, como já cantou Milton Nascimento, "qualquer maneira de amor vale a pena".