Mês do Orgulho
Da censura aos primeiros beijos, personagens LGBT+ trilharam um longo caminho na teledramaturgia
Há poucos anos, demonstrações de afeto homoafetivo eram cortadas antes de ir ao ar


A atriz Vida Alves (1928-2017) pode ser considerada duplamente pioneira na teledramaturgia. Em 1950, no primeiro ano da televisão do Brasil, protagonizou o primeiro beijo da telinha, com o galã Walter Foster (1917-1996), na novela Sua Vida me Pertence. Era o tempo da TV ao vivo, portanto, não há gravação do momento histórico. Tampouco temos foto da cena, que foi considerada um escândalo para a época, já que os atores eram casados com outras pessoas. Na década seguinte, mais precisamente em 1964, Vida Alves e Geórgia Gomide (1937-2011) deram o primeiro beijo gay da teledramaturgia, também sem registros, infelizmente.
Escândalo, tabu, polêmica... Estas e outras palavras andaram juntas na história da representatividade LGBT+ na TV brasileira. Ainda que Vida Alves tenha aberto caminhos lá nos anos 1960, passaram-se 50 anos para que personagens LGBT+ pudessem expressar livremente seu amor na TV aberta. Até o final feliz de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) na novela Amor à Vida (2014), com aquele que é considerado o primeiro beijo gay da TV Globo, muitos casais homoafetivos tiveram suas tramas cortadas, invisibilizadas e proibidas. Avançamos, mas sempre é bom lembrar das histórias que não tiveram a chance de ser contadas. Neste Dia Internacional do Orgulho LGBT+, homenageamos os que não tiveram voz e os que puderam amar sem medo na ficção.
Do corte ao casamento
/// Em 2005, na novela América, havia uma grande expectativa em torno do primeiro beijo de Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro). A cena chegou a ser gravada e deveria ser exibida no último capítulo da novela, mas a emissora optou por deixar apenas a troca de olhares entre os dois, cortando o desfecho. Segundo políticas da Globo, sequências não utilizadas são apagadas, ou seja, nem nas reprises foi possível ver a troca de amor entre o casal.

/// Hoje em dia, não há mais dúvidas em torno da exibição ou não de beijos entre pessoas do mesmo sexo. Em Terra e Paixão (2023), por exemplo, Kelvin (Diego Martins) e Ramiro (Amaury Lorenzo) beijaram muuuuito, trocaram apertõezinhos e tiveram um final feliz com direito a casamento – e um “pode beijar o noivo”, é claro.

Representatividade importa
/// O ano era 2001, e Silvio de Abreu inovava a forma de contar histórias com As Filhas da Mãe, trama que tinha no elenco nomes como Fernanda Montenegro, Tony Ramos, Francisco Cuoco e Raul Cortez. Uma das filhas do título era Ramona, uma mulher trans interpretada por Claudia Raia. Na época não houve discussão a respeito, mas atualmente, podemos analisar o absurdo de se colocar uma mulher cisgênero (termo usado para descrever uma pessoa cuja identidade de gênero corresponde ao sexo que lhe foi atribuído no nascimento) no papel de uma transgênero.

/// Um passo a mais foi dado em A Força do Querer (2017), que mostrava o drama de Ivana (Carol Duarte), que olhava no espelho e não se reconhecia como uma menina. Aqui, escalar uma atriz cis fez sentido, já que a trama mostrava todo o processo de transição de Ivana até assumir sua identidade como Ivan, em cenas potentes e impressionantes.

/// Gabriela Loran trouxe para a telinha o orgulho de ser quem é. Na pele de Viviane, em Três Graças (2025), conquistou o coração do público e mostrou que o amor pode, sim, vencer qualquer tipo de preconceito.

Um longo caminho
/// O amor entre mulheres demorou a ser exibido sem censura na telinha. Na primeira versão de Vale Tudo, em 1988, Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheinzelin) viviam juntas, mas eram mostradas como duas amigas, ainda que todos soubessem da relação. O remake de 2025 deu chance para o casal, agora interpretado por Maeve Jinkings e Lorena Lima, se casar em uma bela cerimônia, além de ter adotado uma menina.

/// O público foi impiedoso com Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni), em Torre de Babel (1998). Sem aceitação popular, as duas acabaram morrendo na explosão do shopping. Isso que, na época, não havia qualquer cena de intimidade delas, que mais pareciam boas amigas.

/// As coisas começaram a mudar em Mulheres Apaixonadas (2003), quando o público se encantou com Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli), adolescentes que enfrentaram muitos preconceitos para viverem seu amor. Houve até um selinho, ainda que disfarçado e sutil, durante a apresentação de uma peça de teatro da escola.

/// Em 2014, a última novela de Manoel Carlos, Em Família, apresentou a construção delicada do amor entre Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller). Ainda que recatados, vários beijos foram exibidos na trama, fazendo de “Clarina” um fenômeno que arrebatou muitos fãs.

/// Quando parecíamos ter avançado, um retrocesso provocou críticas durante a novela Vai na Fé (2023). Vinda de um relacionamento tóxico com Theo (Emilio Dantas), Clara (Regiane Alves) se encantou com Helena (Priscila Sztejnman). O primeiro beijo, no entanto, foi cortado na edição da novela, o que desgostou não só o público, mas as próprias atrizes. Outras cenas de romance seriam exibidas posteriormente, mas o “primeiro beijo”, que deveria ser o marco da relação, nunca foi ao ar.

/// Chegamos, enfim, a Três Graças, novela que apresentou várias formas de amar, sem pudor ou medo de censura. O destaque foi o casal “Loquinha”, formado por Lorena (Alanis Guillen) e Juquinha (Gabriela Medvedovski). Teve beijão – nada de selinho aqui – e até a exibição da primeira noite de amor entre as duas. Mais do que serem aceitas, as personagens foram abraçadas e exaltadas pelo público, ganhando uma legião de fãs e até uma novelinha vertical para contar mais dessa história.
