Teatro
Débora Falabella traz a Porto Alegre peça premiada sobre angústias femininas: "A arte tem essa capacidade de criar um espaço de escuta"
"Prima Facie" terá sessões nesta quinta, sexta e sábado no Salão de Atos da PUCRS


O que acontece quando a ética profissional entra em conflito com os valores pessoais? Esta é uma das discussões levantadas na peça Prima Facie, estrelada por Débora Falabella, que tem sessões hoje, amanhã e sábado no Salão de Atos da PUCRS. Em cena, Débora vive a bem-sucedida advogada Tessa, que tem acusados de violência sexual entre seus clientes. Ela precisa encarar uma crise que a obriga a rever uma série de valores e princípios, além de refletir sobre o sistema judicial, a condição feminina e as relações conturbadas entre diversas esferas de poder.
Em cartaz desde 2024, e com mais de 150 mil espectadores pelo país, o espetáculo é o primeiro monólogo de Débora, e tem direção de Yara de Novaes. Sucesso de público e crítica, Prima Facie vem colecionando prêmios nos últimos anos, incluindo o de Melhor Atriz para Débora Falabella.
Em bate-papo, Débora fala sobre a importância das reflexões levantadas pela peça, fala sobre o desafio de estar sozinha no palco e, é claro, relembra Nina, sua personagem em Avenida Brasil, no ar no Vale a Pena Ver de Novo.

Com montagens em diversos países, Prima Facie traz reflexões fundamentais sobre a situação das mulheres na sociedade atual. Como você considera que o texto vai ao encontro, em especial, da situação do Brasil, que tem uma escalada de feminicídios assustadora?
Acredito que Prima Facie trate de uma ferida aberta e universal: a violência sexual contra a mulher. A peça traz um dado devastador: uma em cada três mulheres no mundo sofrerá algum tipo de violência sexual ao longo da vida. No Brasil, porém, essa realidade assume contornos ainda mais brutais. Os índices de feminicídio crescem de forma alarmante, e muitos desses crimes acontecem dentro de casa, justamente no espaço que deveria representar proteção. Além disso, inúmeras vítimas ainda são meninas muito jovens, atravessadas pela violência antes mesmo de compreenderem plenamente o mundo. Mais do que discutir o chamado “papel feminino”, a peça expõe a estrutura que silencia, desacredita e julga mulheres diariamente. Ela revela como o sistema jurídico, muitas vezes, reproduz os mesmos preconceitos da sociedade que deveria combater. O espetáculo escancara a violência que continua mesmo depois da agressão: o medo de denunciar, os exames invasivos, a culpa imposta à vítima, a revitimização e o peso de ter sua palavra constantemente colocada em dúvida. Mas acho importante dizer que Prima Facie toca as pessoas não apenas pela urgência do tema, e sim porque é um texto extraordinariamente potente. Ele aproxima o público daquela personagem de maneira muito íntima e humana. E, a partir dessa conexão, provoca uma reflexão profunda sobre responsabilidade coletiva, empatia e transformação social.
Acredita que os homens presentes na plateia podem ser chamados à razão após refletirem sobre o espetáculo?
Acredito que sim. Prima Facie tem uma plateia muito diversa, masculina e feminina, e considero fundamental que os homens assistam ao espetáculo e saiam dali atravessados por essas reflexões. A peça provoca uma identificação muito intensa. Mulheres reconhecem dores e experiências que muitas vezes carregaram em silêncio por anos. Já os homens podem se perceber em comportamentos naturalizados, em omissões ou em situações que testemunharam sem compreender plenamente a gravidade. A arte tem essa capacidade de criar um espaço de escuta e consciência que, muitas vezes, outros discursos não conseguem alcançar.
Você recebe algum retorno das mulheres que são impactadas pela peça? Como é essa troca?
Recebo muitos retornos das mulheres depois do espetáculo. Muitas permanecem no teatro para conversar, agradecer, dividir histórias pessoais e dizer que se sentiram vistas de alguma forma. Existe uma identificação muito profunda porque a peça aborda experiências que infelizmente fazem parte da vida de inúmeras mulheres. Também recebo mensagens no Instagram, e-mails e até cartas relatando vivências extremamente dolorosas e contando o quanto o espetáculo as impactou. É impossível sair ilesa ouvindo esses relatos noite após noite. Ao mesmo tempo, existe algo muito poderoso nessa troca. Perceber que a arte pode acolher, provocar reflexão e até ajudar alguém a nomear uma violência que antes parecia impossível de ser dita. Isso acaba se tornando um combustível muito forte para continuar levando essa história ao palco.
Na novela Terra e Paixão, você interpretou Lucinda, uma mulher vítima de violência doméstica. De que forma esse trabalho impactou você e sua vivência fora de cena?
Nos últimos anos, acabei fazendo muitos trabalhos que abordam a violência contra a mulher. Quando fui convidada para Terra e Paixão, eu estava em cartaz com um espetáculo que também tratava de violência sexual, Neste Mundo Louco, Nessa Noite Brilhante, e logo depois comecei Prima Facie. No ano passado, também filmei um longa sobre feminicídio. Então esse tema passou a ocupar um espaço muito forte na minha trajetória artística recente. No caso da novela, isso ganhou uma dimensão ainda maior pelo alcance da televisão. Foi muito importante contar a história de uma mulher presa em uma relação abusiva, mostrando como esse ciclo é complexo e difícil de romper. Existe dependência emocional, medo, culpa, manipulação, uma vida inteira construída ali. E acredito que muitas mulheres puderam se reconhecer nessa trajetória e, talvez, enxergar possibilidades de saída a partir dela.
De que forma você acredita que a arte pode ter reflexos no comportamento humano de forma geral? Qual é o impacto que peças, filmes e novelas podem ter na construção da realidade?
Acho que a arte tem essa capacidade de fazer com que as pessoas se reconheçam através de uma história. No teatro, no cinema ou na televisão, muitas vezes alguém vê uma personagem ou uma situação e acaba refletindo sobre a própria vida. Por isso considero tão importante que determinados temas sejam discutidos através da arte. Existe uma identificação que pode transformar a maneira como uma pessoa pensa ou enxerga uma situação. E gerar reflexão e pensamento. E isso é extremamente político.

O que o palco te dá que a televisão ou o cinema não conseguem suprir?
Acho que a grande diferença do teatro é estar diante do público naquele exato momento. Existe uma relação muito direta entre quem está em cena e quem está assistindo, e cada apresentação acontece de uma forma única por causa dessa presença da plateia. Em Prima Facie, isso fica ainda mais forte porque estou sozinha em cena. Eu realmente preciso daquele público ali comigo para atravessar o espetáculo e contar aquela história.
É um desafio criar filhos hoje em dia, diante da profusão de perigos virtuais e reais. Como você, mãe de uma menina adolescente, a prepara para esse mundo? Qual é o seu maior medo quando pensa no futuro da Nina (filha da atriz, de 17 anos)?
Acho que o grande desafio de criar adolescentes hoje é viver em um mundo tão cheio de informação, de estímulos e de telas, e ainda conseguir ensiná-los a estar presentes. A escutar o outro, olhar para o outro, conviver de verdade, perceber o mundo à volta, e não apenas viver através de uma tela. Claro que existem muitos outros medos que atravessam qualquer família hoje, como a violência e tantas inseguranças do nosso tempo. Mas sinto que um dos maiores desafios é justamente esse: ensinar os filhos a estarem realmente presentes diante do outro e do mundo.
Avenida Brasil está de volta no Vale a Pena Ver de Novo e, em breve, ganhará uma continuação. Qual é a importância desse trabalho na sua vida?
A importância de Avenida Brasil na minha vida passa muito pelo fato de ter participado de uma novela que se tornou um fenômeno. Foi um trabalho que teve um alcance impressionante, de público, de crítica e de reconhecimento. A gente vive em um país que produz uma dramaturgia muito forte, então fazer parte de uma novela que marcou tantas pessoas é motivo de muito orgulho para mim. Acho maravilhoso quando uma história consegue atingir públicos tão diferentes e continuar viva tantos anos depois.
Muito se fala sobre a importância de Avenida Brasil para a “virada de chave” das mocinhas de novela. Acha que com Nina houve uma ruptura?
Acho que sim, mas também acredito que isso já fazia parte da escrita do João Emanuel Carneiro. Ele sempre trabalhou personagens mais complexos, que fogem daquela lógica mais tradicional da mocinha totalmente indefesa e do vilão puramente mau. Porque a vida real não é assim. Cada vez mais o público quer se reconhecer nas histórias e entender que as pessoas são contraditórias. Acho que Avenida Brasil trouxe muito dessa ambiguidade para o centro da narrativa, e isso tornava a novela mais próxima da vida.
