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Estrelas da Periferia

Samba como espaço de celebração coletiva 

Widnei Toddy, André Luis de Oliveira Bitencourte, Enryck Madeira e Kauã Ludgero formam o Pagode da Hora, grupo que nasceu de uma amizade construída ao longo de muitos anos. 

16/06/2026 - 05h00min

Atualizada em: 16/06/2026 - 05h00min


Emily Barcellos
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Daniellyn Chagas/Divulgação
Da esquerda para direita: Kauã Ludgero, Widnei Silva, Enryck Madeira e André Bitencourte

Embora tenha sido oficializado apenas em julho de 2025, em Porto Alegre, o Pagode da Hora não representa o início de uma trajetória, mas a convergência de histórias que somam mais de duas décadas de dedicação ao samba e ao pagode.

O grupo surgiu a partir do reencontro de três nomes já conhecidos do cenário regional, Widnei Toddy, André Luis de Oliveira e Enryck Madeira, que, após seguirem caminhos distintos ao longo dos anos, perceberam que era o momento ideal para retomar a parceria e dar vida a um novo projeto.

A proposta ganhou ainda mais força com a chegada de Kauã Ludgero, filho de Widnei, que trouxe uma visão mais jovem e conectada às tendências atuais do gênero. Essa mistura entre experiência e renovação acabou se consolidando como uma das principais marcas do grupo.

Mais do que música, o Pagode da Hora carrega uma proposta cultural. Para seus integrantes, o samba segue sendo um espaço de resistência, pertencimento e encontro, um gênero que preserva memórias e conecta gerações. Em tempos cada vez mais acelerados, eles apostam justamente nessa pausa que o samba proporciona: o encontro e o canto coletivo.

Essa visão se reflete diretamente no repertório, pensado não apenas para animar, mas também para despertar lembranças e criar identificação com o público.

Diferentes estilos

Embora o samba e o pagode sejam a base do trabalho, a versatilidade é um dos pilares do Pagode da Hora. O repertório inclui releituras de MPB, pop, rock e reggae, criando uma ponte entre estilos.

Segundo os integrantes, essa escolha é natural, já que o próprio samba sempre dialogou com diferentes gêneros sem perder sua essência:

- Construímos um repertório que respeita a história do samba e do pagode, sem deixar de dialogar com diferentes públicos por meio de releituras. Tocamos sucessos, mas também buscamos músicas que tenham significado, despertem memórias e façam parte da história das pessoas - conta Widnei, violonista por trás da iniciativa.

Nos shows, canções de artistas como Natiruts e Renato Russo ganham novas leituras, surpreendendo o público. A resposta tem sido positiva, pessoas de diferentes idades se reconhecem nas músicas e passam a cantar juntas, muitas vezes redescobrindo canções em outro ritmo.

Dentro e fora do RS

Com experiências em estados como Paraná e Rio de Janeiro, Widnei oferece uma visão ampla sobre o cenário do samba no país. Para ele, apesar das diferenças regionais, a emoção provocada pelo gênero é universal. No Sudeste, especialmente no eixo Rio-São Paulo, há maior estrutura para o samba, com mais casas de shows e oportunidades. Já no Rio Grande do Sul, o destaque está no engajamento do público:

- O Rio Grande do Sul tem algo que me chama a atenção: aqui, quem gosta de samba abraça o gênero de verdade. O público acompanha, canta junto, bate na palma da mão e valoriza quem mantém essa cultura viva. Não falta público nem talento. Fazer samba no RS mostra que a cultura gaúcha é diversa e que o samba tem seu espaço.

Mesmo enfrentando limitações de visibilidade, o Estado mantém uma cena sólida, com artistas de qualidade e referências importantes, como Bedeu, Senzala, Pagode do Dorinho e a Banda Saldanha. Nesse contexto, o Pagode da Hora se apresenta como continuidade dessa tradição.

Herança musical

Um dos aspectos mais marcantes do grupo é a relação entre pai e filho no palco. Kauã Ludgero cresceu cercado por instrumentos. Mais do que ter chegado ao samba, ele se formou dentro dele - entre rodas, encontros familiares e influências musicais. Ao mesmo tempo, traz consigo referências contemporâneas e a linguagem da nova geração.

Enquanto Widnei carrega influências de nomes como Fundo de Quintal, Beth Carvalho e Arlindo Cruz, Kauã se conecta com artistas mais recentes, como Menos é Mais e Dilsinho.

Hoje, dividir o palco é motivo de emoção para o músico:

- Olhar para o lado e ver meu filho tocando pandeiro, no mesmo palco que eu, é uma cena que me emociona. O samba sempre fez parte da família. Hoje dividimos o mesmo palco, mas cada um traz uma bagagem diferente.

Para o futuro

Atualmente, o Pagode da Hora investe na ampliação da presença digital e na produção de conteúdo audiovisual. O crescimento tem sido impulsionado principalmente pelo boca a boca: apresentações em eventos como casamentos, aniversários e confraternizações geram novos convites.

Cada show é tratado como único. O grupo percebe que muitas músicas pedidas estão ligadas a histórias pessoais, relacionamentos e momentos marcantes, reforçando o papel afetivo da música no cotidiano.

Para o futuro, a meta é clara: alcançar novos públicos e novos palcos, sem abrir mão da proximidade e do respeito que caracterizam suas apresentações. Com experiência, identidade e abertura ao novo, o Pagode da Hora busca consolidar seu espaço e contribuir para a continuidade de um gênero que segue se reinventando sem perder suas raízes.


*Com orientação e supervisão de Alexandre Rodrigues

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