Entrevista
“Temos certeza que vai ser uma noite linda”: Gilsons apresentam novo álbum em Porto Alegre
O trio faz uma parada na Capital para apresentar seu segundo álbum aos porto-alegrenses em meio a turnê internacional que inclui América Latina, Europa e Oceania


Formado por José Gil, Francisco Gil e João Gil, o trio carioca Gilsons se apresenta neste sábado, às 22h, no Auditório Araújo Vianna. Um dos destaques da nova geração da MPB, o grupo está em turnê com o álbum Eu Vejo Luz em Maior Proporção do que Eu Vejo a Escuridão, lançado em março. Os ingressos estão à venda no site Sympla, com descontos pelo Clube do Assinante.
Em entrevista, João Gil falou sobre o novo trabalho, família — para quem ainda não sabe, o grupo é composto por um dos filhos e dois dos netos de Gilberto Gil — e o desafio que dá nome ao álbum, de buscar leveza e otimismo mesmo em momentos tristes, como a morte de Preta Gil, mãe de Francisco, em 2025. Veja trechos da conversa.
Quando lançaram os primeiros trabalhos, existia uma curiosidade muito grande em torno do sobrenome de vocês. Hoje, o que mudou na relação com o público?
O tempo acabou sendo bastante generoso com a gente. A gente lançou dois discos, muitas músicas. Em paralelo, gravamos uma série com a família. Por um lado, tem muita gente que conheceu a gente pelo sobrenome, por ter assistido à série ou acompanhado a família.
Isso é muito legal, porque aí a pessoa descobre o som, descobre o que a gente está fazendo e acaba virando fã por esse lado. Mas, ao mesmo tempo, como já temos esse tempo de estrada e essas músicas rodando, também tem muita gente que conhece o nosso trabalho e nem faz essa conexão do nome com o sobrenome, com a família. Então é engraçado, porque existem essas duas histórias.
Existe alguma memória musical da infância que ajuda a explicar por que os Gilsons soam da forma que soam?
Acho que muito do que compõe o som dos Gilsons vem justamente dessas memórias coletivas. Por termos crescido juntos, sermos família e termos idades parecidas, compartilhamos muito desse descobrimento musical. Grande parte da sonoridade dos Gilsons nasce dessa interseção entre as musicalidades dos três.
A própria música da Bahia, a música de Carnaval, os tambores de atabaque, os blocos afros... Tudo isso faz parte da nossa infância e da descoberta da música juntos. Até a forma como enxergamos a música vem daí: dessa mistura, sem uma regra específica, podendo pegar coisas mais clássicas e antigas e misturar com elementos modernos.
Vocês imaginavam que Várias Queixas (primeiro grande sucesso do trio) se tornaria um fenômeno tão grande?
A gente não fazia a menor ideia. Na verdade, Várias Queixas foi uma música que conhecemos justamente nesse contexto de passar os carnavais em Salvador e absorver essa cultura. Se não me engano, o José viu um vídeo da música tocando no Carnaval e ficou com aquilo na cabeça. Quando fomos fazer um show só nosso, o Francisco começou a tocar do jeito dele, no violão, encontrou uma harmonia ali. A gente deixou a música um pouco mais devagar. Ela já estava presente no nosso primeiro show.
Quando surgiu a ideia de gravar e realmente formar um grupo, ter um trabalho, Várias Queixas foi uma das músicas que saltou aos olhos como uma ótima escolha para dar esse start, para se lançar e mostrar a cara. Mas a gente não fazia ideia do que viria. Ficamos muito agradecidos e felizes com toda a repercussão que essa música alcançou. Tudo o que ela já proporcionou para a gente é maravilhoso.
O novo disco de vocês se chama Eu Vejo Luz em Maior Proporção do que Eu Vejo a Escuridão. No momento, muita gente tem a sensação oposta. De onde vem esse olhar mais luminoso?
Esse olhar mais luminoso vem muito da nossa essência e daquilo em que acreditamos. Nesses últimos anos passamos por momentos muito desafiadores, principalmente o Fran (ele é filho da cantora Preta Gil, que faleceu em 2025, aos 50 anos). Então, nesse disco, a gente também não deixa de reconhecer esses lados mais escuros. Tudo isso está presente.
Não é como se estivéssemos renegando essa escuridão; pelo contrário, ela está muito clara para nós. Mas, ao mesmo tempo, também conseguimos enxergar luminosidade nesse cenário. É uma forma de não deixar tudo ficar 100% escuro. Vemos as duas coisas coexistindo, mas a luz ainda consegue ser um pouco mais predominante. Acho que isso vem do nosso jeito, desse otimismo e dessa energia luminosa que carregamos.
Não é como se estivéssemos renegando essa escuridão; pelo contrário, ela está muito clara para nós. Mas, ao mesmo tempo, também conseguimos enxergar luminosidade nesse cenário
JOÃO GIL
Cantor
Vocês sentem que esse trabalho marca uma nova fase dos Gilsons em relação ao álbum de estreia (Pra Gente Acordar, de 2022)? O que mudou na forma de compor e enxergar a música?
A gente vê o Eu Vejo Luz muito como uma evolução natural do que já vinha fazendo. Sempre conversamos bastante sobre não querer nos repetir nesse novo projeto, fazer algo que parecesse apenas uma remodelagem do que já tínhamos feito. Não queríamos isso. Mas também não queríamos criar algo completamente novo que acabasse afastando nossos fãs ou rompendo com aquilo que já havíamos construído, que é algo muito valioso.
Temos muita noção da preciosidade que é conquistar uma identidade e um público. Então pensamos em caminhar entre esses dois lugares. O disco representa um amadurecimento natural, fruto do tempo de estrada, do tempo de grupo e de entendermos cada vez mais as dinâmicas de composição e produção musical. Acho que tudo isso culmina nesse projeto, e estamos muito felizes com o resultado.
Vocês misturam referências muito brasileiras com uma sonoridade contemporânea. Como enxergam a nova geração da MPB hoje?
A gente adora. Somos muito fãs de muita gente da nova geração. Muitos são amigos; outros a gente nem conhece pessoalmente, mas admira o trabalho. A música brasileira tem essa particularidade de ser um grande caldeirão de referências e misturas.
Somos muito privilegiados por viver em um país com tanta variedade cultural, tanta potência vinda de lugares diferentes e tanta riqueza musical. As novas gerações têm trabalhado isso de uma forma brilhante. Acabamos sendo influenciados não apenas pelos artistas que já admirávamos quando éramos adolescentes, mas também por essa turma que caminha ao nosso lado hoje.
Estamos sempre tentando expandir nossa bolha, fazendo ela crescer
JOÃO GIL
Cantor
Nos últimos anos, artistas independentes têm conseguido alcançar públicos internacionais sem necessariamente seguir os caminhos tradicionais da indústria. Como vocês vivem essa experiência?
Hoje esse lugar da indústria é muito diferente. A internet permite que você trace o seu próprio caminho, independentemente do que é considerado mainstream ou totalmente palpável para todo mundo. Quando observamos muitos dos maiores artistas da atualidade, vemos que vários deles construíram comunidades muito específicas. A Taylor Swift, por exemplo, vende shows em estádios no mundo inteiro, mas nem toda pessoa na rua necessariamente acompanha o trabalho dela. Ela conseguiu construir um público próprio em uma escala gigantesca.
Acho que cada artista tem essa responsabilidade de cultivar sua comunidade, sua bolha, alimentando e fazendo ela crescer. Com a internet e as redes sociais, isso pode ser algo muito próprio e autêntico. E isso também se expande para o âmbito internacional. Já fizemos algumas turnês, fomos duas vezes para a Europa, duas vezes para os Estados Unidos, já tocamos na Austrália e vamos voltar para lá este ano. Também passamos por países da América do Sul.
Estamos sempre tentando expandir nossa bolha, fazendo ela crescer aos poucos, como sempre fizemos, e colhendo os frutos desse processo.
Vocês cantam muito sobre afeto, encontros e leveza. Em um mundo tão acelerado, como vocês acham que a música reflete em quem ouve?
A gente acredita que toca em um lugar muito especial, e é justamente aí que as pessoas acabam se conectando com o nosso som, com o que falamos e fazemos. Isso ficou muito claro durante a pandemia. Era um momento extremamente pesado, em que todo mundo estava lidando com níveis altos de estresse e inquietação. A nossa música acabou chegando como um lugar de afeto e acolhimento, onde as pessoas conseguiam se sentir um pouco mais centradas.
É muito bonito ver a força da música nesse sentido, conectando as pessoas a algo que vai além de um entretenimento passageiro. Existe um espaço em que as pessoas têm uma reação emocional verdadeira e são tocadas de alguma forma. Sempre que alguém vem conversar com a gente sobre isso, é muito bonito. Ficamos muito felizes. É a força da música.
A nossa música acabou chegando como um lugar de afeto e acolhimento, onde as pessoas conseguiam se sentir um pouco mais centradas
JOÃO GIL
Cantor
Entre vocês três, quem é o mais perfeccionista em estúdio? E quem é o que resolve tudo no “vai assim mesmo”?
O José acaba assumindo esse papel de produtor musical, entendendo a música por um lado mais organizacional, pensando nos arranjos e no que cada canção precisa. Ele é muito perfeccionista com a entrega final, com a forma como cada elemento vai para o mundo, cada volume, cada detalhe e cada minúcia dentro da música.
Ao mesmo tempo, como também está lidando com muitas responsabilidades, existe nele esse lado do “vamos fazer”, do “está bonito, está maneiro”. Ele entende o que a música precisa e faz acontecer. Então acho que ele acaba sendo essas duas figuras ao mesmo tempo.

Além do Brasil, essa turnê vai passar por América Latina, Europa e Oceania. Qual a sensação de realizar uma turnê global?
A sensação de viajar o mundo com a nossa música é absurda. É um sonho se transformando em realidade. Ver as nossas canções se expandindo e tocando as pessoas é muito especial. E os shows fora do Brasil têm uma característica interessante: por mais que exista uma parte do público estrangeira, geralmente a maioria é formada por brasileiros. Então fica aquela sensação de estar levando um pouco do Brasil para essas pessoas, trazendo um pedaço de casa para quem está há tanto tempo longe, às vezes há anos sem conseguir voltar. É incrível ocupar esse lugar, de proporcionar esse reencontro, enquanto a nossa música também vai alcançando novos espaços.
Essa é a terceira vez dos Gilsons em Porto Alegre. O que o público gaúcho pode esperar do show?
Porto Alegre é uma cidade que a gente adora. Estamos muito empolgados para voltar e fazer mais um show aí. O público pode esperar aquela energia dos Gilsons que a gente sempre leva para o palco, apresentando esse trabalho novo, mas também tocando as músicas que já viraram clássicos para a nossa história. É um show para cantar junto, dançar e celebrar. Acaba sendo essa mistura que representa muito bem quem somos. Temos certeza de que vai ser uma noite linda.
*Com orientação e supervisão do jornalista Alexandre Rodrigues