Entrevista
Mariana Sena já sentiu na pele o drama de sua personagem em "Quem Ama Cuida": "Não desejo pra ninguém"
Atriz vive Elenice, vítima de um marido abusivo na trama das nove


Novela não é só entretenimento, também pode servir para alertar para os problemas mais urgentes da nossa sociedade. Com a crescente onda de violência contra as mulheres, transpor para a ficção um drama de tantas vítimas da vida real é de extrema importância. Em Quem Ama Cuida, Mariana Sena vive Elenice, presa a um relacionamento abusivo com Tom (Allan Souza Lima). A trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto mostra que há vários tipos de violência existentes em uma relação, e não é preciso chegar a um confronto físico para que se acendam todos os sinais de alerta. Em bate-papo, a atriz de 31 anos fala sobre a repercussão da novela, a estreia no horário nobre e o que espera para o futuro de sua personagem.
Depois de duas personagens de sucesso às 18h (Mar do Sertão e Garota do Momento), você faz sua estreia no horário nobre. Sente que há um peso, uma cobrança maior?
Eu acho que cobrança maior eu sinto de mim mesma. Não pelo horário, mas pela dramaticidade da personagem. Eu sou uma pessoa que me cobro muito em tudo que eu faço, e eu acho que pela Elenice ter essa história mais densa, a cobrança é mais minha mesmo com o meu trabalho. Agora eu senti uma diferença muito grande no sentido de repercussão. O horário das nove é o momento em que a maior parte das pessoas está em casa, então o público, a audiência é maior, a resposta das pessoas acaba sendo em um volume muito diferente do horário das seis. Então as pessoas me procuram mais, me identificam mais fácil na rua, a quantidade de pessoas envolvida com a história é muito maior.
Elenice é sua personagem mais madura e é a primeira vez que vive uma mãe na telinha. O que trouxe de sua própria experiência com a maternidade para a novela (na vida real, ela é mãe de Ayomi, dois anos)?
A maternidade é muito transformadora. Eu sinto que fui uma Mariana antes da maternidade e sou uma Mariana depois, completamente diferente. E o meu olhar diante do mundo, enfim, minhas escolhas, minha maneira de lidar com tudo, até com o meu trabalho, mudou completamente depois de ter me tornado mãe. Então não tem como eu não trazer minha experiência na maternidade para a personagem. Principalmente uma personagem que é mãe e que cria uma uma menina nesse ambiente, nessa casa, onde o relacionamento entre os pais é completamente abusivo e não saudável. Então não tem como eu não pensar como mãe, principalmente nas minhas cenas, na minha relação com as atrizes mirins (Valentina Cavalheiro e Arlyane Carvalho) que interpretam a Dafne. Eu sinto que não saberia não trazer essa minha experiência da maternidade. Inclusive, acho que se eu tivesse interpretado uma mãe antes da maternidade seria completamente diferente de agora. Depois da maternidade, a gente tem uma propriedade maior para falar sobre criar uma pessoa, prepará-la para o mundo, sobre as preocupações e as angústias que uma mãe tem diante da formação do seu filho. Com certeza, a Mariana mãe empresta bastante coisa para a Elenice.
Sua personagem faz um alerta, mostrando que nem sempre a violência física precisa existir para se configurar um relacionamento abusivo. Você já passou por isso na vida real ou conhece alguém que passou?
Eu conheço muitas mulheres que sofreram relacionamentos abusivos e violentos, o que é bem triste, mas é uma realidade. Conversei bastante com muitas delas enquanto eu estava construindo a personagem, e foi crucial para o meu trabalho, além de ter facilitado o processo de identificar os pontos em comum com a personagem. E eu também já sofri um relacionamento abusivo, de muita violência psicológica e manipulação. Eu acho, inclusive, que interpretando a Elenice entendi o que é a palavra gatilho, por exemplo. Já vivi uma situação de estar em cena e me ver a Mariana de antes, naquela relação completamente disfuncional. Me ver ali e confundir um pouco as coisas. É muito estranho, porque o corpo, de nós, atores, é o cérebro. Ele não entende que aquilo que a gente está fazendo é de mentira e acaba vivendo a situação como se fosse de verdade. Teve um dia específico que eu fiz uma cena e que eu notei que meu corpo estava confundindo tanto aquilo ao ponto de eu trazer memórias inconscientemente para cena, foi muito louco. Falei: nossa, isso é gatilho! Que loucura. Sim, já vivi esse tipo de relação e não desejo para ninguém. Acho que, inclusive, isso é o que faz eu entender a grande dificuldade que é você sair desse tipo de relação. Compreender muito a Elenice no sentido de que ela permanece. O amor às vezes cega a gente, principalmente quando ele é tóxico. Quando você está se dedicando e amando uma pessoa, acredita que está construindo uma vida a dois, mas na real, é que a pessoa está manipulando para benefício próprio, o que não quer dizer que a pessoa não ame. Enfim, é muito complexo...
Como as mulheres têm recebido o drama da sua personagem? Recebe muitas mensagens de quem passa por situações parecidas?
Infelizmente, eu tenho recebido sim muitos relatos de pessoas que vivem ainda esse tipo de relação e que se identificaram com a Elenice, e que às vezes relatam que, ao ver uma determinada cena enxergavam o marido ali. É muito triste, e me faz sentir o peso e a grande responsabilidade que é o nosso trabalho quando tratamos desse tipo de assunto, que é muito presente na realidade e no cotidiano de muita gente. E, inclusive, essa responsabilidade me pega às vezes, porque quando você ouve o relato de uma pessoa que está vivendo numa situação limite, a vontade imediata é de ajudar da melhor maneira possível. E, ao mesmo tempo, essa situação é tão complexa que não tem muito o que a gente ajudar. O que eu sempre faço é orientar as pessoas a ligarem 180 (serve para registrar denúncias de violência contra a mulher, além de oferecer acolhimento, orientação jurídica e informações sobre a rede de proteção e direitos) para receber orientações de profissionais e pessoas preparadas. Em contrapartida, eu também recebo relatos muito felizes de pessoas que já viveram isso ou conhecem pessoas que já viveram a situação, e essas pessoas conseguiram sair. E eu sinto que a personagem tem essa missão de trazer esse despertar para as Elenices espalhadas pelo Brasil, despertar esses amigos que identificam uma relação (abusiva) e como eles podem também ajudar e modificar a vida das pessoas que estão à mercê de seus parceiros.

Como você e Allan Souza Lima (intérprete de Tom) se prepararam para levar ao público a dinâmica desse relacionamento tão complexo?
A preparação com o Alan segue em constante evolução. Sinto que a gente ajusta uma coisa ou outra a cada encontro e cena. Trabalhar com o Allan tem sido muito prazeroso porque ele tem uma escuta muito boa e uma disponibilidade para o jogo em cena. Então, desde o começo, a gente sempre debateu sobre a responsabilidade desses dois personagens e como a gente tinha de fazer isso o mais próximo do real possível, para as pessoas se identificarem e enxergarem que o relacionamento abusivo é muito complexo. Conversamos bastante, trocamos referências o tempo todo pra construirmos juntos um casal reconhecível. Esses homens que são abusivos, eles são múltiplos e não são só agressivos. Eles não são grosseiros 100% do tempo, eles são de diferentes maneiras. Então, a nossa construção vem sendo em conjunto. Inclusive, eu costumo falar que é a primeira vez que eu construo um personagem em dupla. Porque a Elenice, por mais que ela seja um indivíduo completamente independente do Tom, ainda assim, a maneira como ela lida com o mundo e todas as outras relações dela ao longo da novela são permeadas pela relação dela com o Tom, e são influenciadas pelo fato de ela estar presa a esse relacionamento. Além disso, o abusador conhece muito bem o território em que ele está inserido.
Elenice ignora os conselhos da melhor amiga e até da própria mãe. Acha que, nesses casos, a mulher precisa se dar conta sozinha da situação que está vivendo?
Eu não acho que a Elenice ignora. Ela acredita tanto nesse marido, no amor, que ela deposita esperança de transformação nessa relação. Ela percebe que não está saudável nem bom pra ela, mas é aquela coisa de não querer acreditar misturada com a crença de que é só uma fase. E isso é muito real. Quando você está num relacionamento abusivo, as pessoas te avisam, você sente que não está bom, mas é muito difícil se desvincular. É muito difícil acreditar que aquela pessoa que você ama não está te amando e respeitando como deveria. As mulheres que vivem esse tipo de relacionamento, que estão presas na situação, não é por falta de amor próprio, de pulso firme, de força. Muito pelo contrário. É uma esperança de acreditar numa transformação. É a falsa crença de achar que é passageiro, mas esses relacionamentos não voltam a ser saudáveis a partir do momento dessa quebra. Infelizmente, é uma situação muito próxima do real, e eu acho que ela vai dar um basta quando acontecer alguma situação que a desperte. Entender que aquilo acabou precisa partir dela, isso é um fato.
Se você fosse amiga ou parente próxima de Elenice, tentaria abrir os olhos dela para essa relação tóxica?
É tão importante que os amigos que se desgastam muitas vezes pra tentar abrir o olho da pessoa que está envolvida naquela situação permaneçam, insistam, para que a mulher acredite que é merecedora de coisa melhor. É fundamental pra pessoa conseguir sair da relação. Porque se não tem ninguém pra avisar, pra mostrar que "daqui de fora a gente já viu e não está legal", se as pessoas desistirem, fica muito mais difícil pra sair dessa relação. Se eu fosse amiga ou parente da Elenice, com certeza eu seria uma dessas pessoas, por saber inclusive o quão difícil é você se desvincular desse tipo de relação, ou quão complexo é você enxergar que a relação não está saudável.
Nas redes sociais, o público torce para que Elenice se livre de Tom e trilhe um novo caminho. O que você espera para o futuro da sua personagem?
Eu sempre torço muito para que todas as personagens que interpreto acabem felizes. Com a Elenice não poderia ser diferente. Eu acho que ela merece ser amada de verdade, ser cuidada da maneira como ela faz com os outros. Eu espero muito que a personagem tenha um final de transformação, e que consiga se desvincular deste relacionamento de uma maneira segura, e que ela encontre a felicidade. No nosso país é muito difícil essa situação, porque na maioria das vezes, o abusador não aceita o "não" como resposta. Então, acho que a Elenice pode ser o exemplo diferente de que existe amor e relacionamento saudável após o término com o abusador. Elenice é merecedora da felicidade.