Noveleiros
Michele Vaz Pradella: "Quem Ama Cuida" mostra que o preconceito pode morar dentro de casa
Cenas de Otoniel (Tony Ramos) oprimindo o neto Maurício (João Victor Gonçalves) foram de cortar o coração


A novela das nove traz configurações familiares opostas: de um lado, os Brandão disputam entre si quem vai ficar com a fortuna de Arthur (Antonio Fagundes), são concorrentes que, por acaso, têm o mesmo sangue. Já na família de Adriana (Letícia Colin), o amor é a principal linguagem, e todos se unem para superar as adversidades. Mas, apesar de todo o afeto, há um ponto fora da curva. Otoniel (Tony Ramos) não admite a possibilidade de ter um neto homossexual. E é aqui que mora a complexidade desse núcleo.
No capítulo de sábado passado, o avô turrão fez um escândalo ao encontrar na mochila de Mau Mau (João Victor Gonçalves) um livro com temática LGBT+. Chamou de "pouca-vergonha", confrontou o neto e chegou a comparar a possível homossexualidade do rapaz às tragédias que a família já enfrentou. Adriana, mais sensata e compreensiva, defendeu o irmão, disse que um livro não define a orientação sexual de ninguém e que, mesmo se fosse o caso, a intimidade de Maurício só diz respeito a ele. Depois disso, enquanto o garoto chorava no banho, a irmã foi atrás e reforçou que está ao lado dele para tudo. Cena sensível e tocante, fundamental em tempos de intolerância que vivemos.
O grande trunfo dessa abordagem foi a escalação de Tony Ramos como o avô homofóbico. Reconhecido por sua generosidade e carisma na vida real, o ator empresta sua imagem para ilustrar tantos tipos preconceituosos que existem por aí. É contraditório ver Otoniel, que protege tanto a filha e os netos, proferir atrocidades. O preconceito não tem cara, não tem caráter ou classe social. Pode vir de alguém que nos ama profundamente. Assim, Quem Ama Cuida subverte o próprio título da novela, mostrando que, às vezes, quem ama também julga, humilha e oprime.