Entrevista
Nathalia Dill comenta mistérios de sua personagem em "Quem Ama Cuida": "Nada é o que parece"
Atriz interpreta Francesca na trama das nove, que vem sendo apresentada como um fantasma


Com 40 anos completados em março e quase 20 de carreira, Nathalia Dill já viveu muitas vidas na ficção. Depois de tantas vilãs e mocinhas, a atriz encara uma personagem bem diferente de tudo que já fez na telinha. Em Quem Ama Cuida, ela é Francesca, que acaba de se revelar um espírito depois que Otoniel (Tony Ramos) encontrou a lápide da moça no cemitério. Porém, ainda há muito o que ser revelado sobre a fantasminha camarada: quem é, quais são seus objetivos e, principalmente, por que aparece apenas para o avô de Adriana (Leticia Colin)?
Enquanto o público faz suas apostas, Nathalia se diverte com a repercussão.
– Parte da graça dessa personagem está justamente nos mistérios que a cercam. Quando recebi o convite e comecei a conhecer a história, confiei muito no olhar do Walcyr (Carrasco) e da Claudia (Souto), porque são autores que sabem conduzir o público por caminhos surpreendentes. Ao mesmo tempo, fui descobrindo nuances dela aos poucos, o que também tornou o processo mais interessante para mim como atriz. O objetivo desse início é mesmo criar essas dúvidas na cabeça do público.
Em bate-papo, a atriz fala sobre a parceria com Tony Ramos, revisita alguns de seus trabalhos e reflete sobre a chegada dos 40 anos.
O que você pode adiantar sobre as verdadeiras intenções ou segredos que a Francesca esconde?
Posso dizer que nada é exatamente o que parece. Ela entra na vida do Otoniel de uma forma aparentemente delicada, mas sua presença provoca transformações importantes. O público ainda vai entender melhor quem ela é e por que surgiu naquele momento específico da história.
Tony Ramos é reconhecido pelos colegas por sua generosidade em cena. Como tem sido contracenar com esse grande ídolo da dramaturgia?
É um privilégio enorme. O Tony é um daqueles artistas raros que unem talento, experiência e uma humanidade muito bonita. Ele é extremamente generoso, atento ao colega e comprometido com a cena. Além da admiração profissional, existe um carinho muito grande por tudo o que ele representa para a nossa dramaturgia.

Você acompanha a repercussão do seu trabalho pelas redes sociais? Sente vontade de interagir mais com seus fãs virtualmente?
Eu acompanho dentro do possível. Acho muito bonito perceber como as pessoas se envolvem com as histórias e criam teorias, principalmente em uma novela tão cheia de mistérios. Vira e mexe eu entro nos trending topics depois da novela, e claro que isso é um termômetro muito positivo. Mas também procuro preservar alguns espaços da minha vida longe das redes. Tento encontrar um equilíbrio saudável.
Você completou 40 anos recentemente. Sente que, a partir desta idade, as cobranças internas e externas sobre as mulheres tendem a aumentar?
Acho que existe uma pressão social muito grande sobre as mulheres em todas as fases da vida. Aos 40, talvez eu me sinta mais preparada para questionar essas cobranças e escolher quais delas realmente fazem sentido para mim. Hoje me sinto mais confortável com quem sou e menos preocupada em corresponder às expectativas dos outros. É um processo natural do amadurecimento.

Em tempos de perdas de direitos e ameaças contra a vida das mulheres que vemos diariamente, como você se prepara para ensinar sua filha (Eva, cinco anos) a se defender e a demonstrar força diante do machismo e misoginia?
Acredito muito no exemplo. Quero que minha filha cresça entendendo o valor da autonomia e do respeito. Também acho fundamental que ela saiba reconhecer situações de violência e que nunca se sinta culpada por impor limites. Ela ainda é muito nova, mas vejo como um trabalho diário de educação, diálogo e fortalecimento da autoestima. Espero contribuir para que ela cresça consciente dos seus direitos e da sua potência. Acredito que a geração dela será de mulheres muito mais informadas do que a minha ou da minha mãe, por exemplo.
Seu trabalho em Guerreiros do Sol emocionou o público. Qual foi o retorno que você teve, principalmente de mulheres que passaram pelos mesmos dramas de Valiana?
Recebi mensagens muito emocionantes. Muitas mulheres se identificaram com a jornada da Valiana com o câncer. Quando um personagem toca experiências tão reais, a gente percebe a força que a ficção tem para gerar reflexão e acolhimento.
Qual é o maior desafio ao transitar entre vilãs marcantes, como a Fabiana (A Dona do Pedaço), e mocinhas doces?
O desafio é justamente não cair em fórmulas. Toda personagem, seja vilã ou mocinha, precisa ser construída a partir da sua humanidade. Eu gosto de buscar algo em que eu consiga me basear em cada uma delas. As pessoas reais não são totalmente boas nem totalmente más, e é nesse espaço de complexidade que encontro o que mais me interessa como atriz.

Com quase 20 anos de carreira (estreou em 2007, na Malhação) sente que ainda falta algo para realizar? Que tipo de personagem ainda sonha em interpretar?
Acho que a beleza dessa profissão é que ela nunca se esgota. Sempre existe uma história nova para contar, um universo desconhecido para explorar. Sempre que me fazem essa pergunta eu respondo que eu gosto de novidade. A mesmice em toda profissão é muito chata. Eu quero personagens novos, com histórias novas, coisas que eu ainda não fiz e que surpreendam o público e a mim mesma.
O que a Nathalia de 40 anos diria para a Nathalia de 20, que dava os primeiros passos na carreira de atriz?
Eu diria para ela confiar mais no próprio caminho. Aos 20 anos eu tinha muita ansiedade para acertar tudo, para corresponder a todas as expectativas. Eu diria: “Tenha paciência e aproveite a jornada”.