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Tradição linguística

"Chinelão"," jaguara" e "bocaberta": vídeos com xingamentos gaúchos viralizam e confundem quem é de fora do RS; saiba a origem dos termos

Palavras são usadas há décadas no Rio Grande do Sul e misturam influências do espanhol platino, da vida rural e do jeito gaúcho de descrever pessoas

10/08/2026 - 15h44min


Leonardo Martins
Leonardo Martins
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Reprodução/Instagram
Vídeo do influenciador gaúcho Léo Brizolla mostra como usar cada termo.

Vídeos que explicam xingamentos usados pelos gaúchos chamam atenção de moradores de outras regiões do Brasil. As gravações reúnem termos como "chinelão", "bocaberta", "jaguara" e "imundície", quase sempre com o mesmo desfecho na caixa de comentários: gaúchos se reconhecendo e pessoas de fora pedindo tradução.

Saiba mais:

Um dos vídeos de maior alcance é o do influenciador gaúcho Léo Brizolla, que organizou o vocabulário em uma espécie de aula acelerada sobre ofensas regionais. A série já rendeu segunda parte, e o formato é sempre o mesmo: ele enfileira as palavras, explica o uso e termina desafiando o público a lembrar de mais alguma. Veja o vídeo:

Do outro lado do balcão está a mineira Raphaella Ribeiro, que assina como @raphanosul nas redes sociais. Ela costuma dividir o que foi aprendendo desde que se mudou para o Estado. A lista dela tem quatro termos: "jaguara", "bocaberta", "cabeça de porongo" e a expressão "vou te cagar a pau".

De onde vem esses termos?

Os vídeos colocam no mesmo pacote palavras de duas tradições linguísticas diferentes. O prefácio do Dicionário de Porto-Alegrês, do escritor e professor Luís Augusto Fischer, explica que uma delas é o falar urbano de Porto Alegre e da Região Metropolitana.

A outra é o gauchês, a linguagem da Campanha e das Missões, levada à literatura por Simões Lopes Neto e preservada nos Centro de Tradições Gaúchas (CTGs). Os dois repertórios se cruzam e se misturam no dia a dia, mas têm origens diferentes.

A diferença aparece com clareza quando se compara a lista dos vídeos com a do dicionário de Fischer.

Termos que estão no Dicionário de Porto-Alegrês:

  • chinelão
  • cabeça de porongo
  • cusco
  • guaipeca
  • mijada
  • esgualepado
  • bagaceira
  • murrinha
  • peidorreiro
  • piá

Não aparecem na obra, mas são citados nos vídeos:

  • jaguara
  • percanta
  • xambão
  • pangaré
  • topeira
  • maula
  • coió
  • ratão

Essas últimas são palavras do interior, da fronteira e do campo que chegaram à cidade por outro caminho e hoje voltam a circular pela internet ao lado do vocabulário urbano, sem que quase ninguém perceba que pertencem a tradições diferentes.

Em comum, a maioria desses termos tem o fato de não funcionar como palavrão no sentido clássico. São xingamentos descritivos, usados para apontar desleixo, lerdeza, mau caráter ou má aparência.

Muitos nasceram da vida rural e do convívio com animais. Outros vieram diretamente do espanhol falado na Argentina e no Uruguai.

"Chinelão": da aparência ao caráter

É o campeão absoluto dos vídeos que circulam nas redes. Fischer registra chinelão como um "termo altamente depreciativo, um xingamento forte", surgido por volta dos anos 1970. Chamar alguém assim era dizer que a pessoa era bagaceira, pobre, malvestida, mal-arrumada e mal-educada, tudo ao mesmo tempo.

O que mudou desde então não foi a intensidade, e sim o alvo. A ofensa nasceu apontando a aparência e a origem social. Hoje, mira principalmente o caráter: chinelão é o desonesto, o que dá golpe, o que passa a perna, o que promete e não cumpre.

Sobre a origem da palavra, o Dicionário de Porto-Alegrês levanta duas hipóteses. A mais óbvia liga chinelão ao chinelo, calçado simples por definição. A outra, que Fischer apresenta como especulação, associa o termo a china, palavra do vocabulário gauchesco para mulher, da qual chinelão seria uma forma masculina.

"Cabeça de porongo", "piá" e as ofensas à criançada

Cabeça de porongo é cabeça oca, cabeça vazia. A imagem é doméstica, e todo gaúcho a tem à mão: o porongo é o fruto que, seco e esvaziado, vira a cuia do chimarrão. Dizer que alguém tem a cabeça feita desse material dispensa explicação por aqui.

Piá designa menino, termo que circula também no Paraná e em Santa Catarina. O dicionário de Fischer é direto ao classificá-la como uma das categorias humanas mais desprestigiadas do falar local. Em roda de homens adultos, o piá é o elemento servil, aquele que vai ser mandado buscar cigarro e trazer mais cerveja.

Daí saem as combinações: piá de bosta, piá cagado e piá medonho. O coletivo piazada serve para qualquer turma de crianças, e "gurizada medonha" virou bordão de Porto Alegre depois de ser popularizado por Volnei Viega Salles, um vendedor de bilhetes de loteria que trabalhava na Rua da Praia.

"Bocaberta", "mocorongo" e a longa lista da lerdeza

Bocaberta é o gaúcho que vacila. Descreve o distraído, o avoado, aquele que perde a vez ou não percebe o óbvio. A imagem é literal: a pessoa parada, olhando, sem reagir. Não carrega peso moral, mas humilha pelo ridículo.

— É dado a qualquer pessoa que tenha pouca vontade de pensar — resume Brizolla no vídeo.

A categoria é generosa. Para descrever alguém distraído, lerdo ou sem iniciativa, o Rio Grande do Sul reúne longa lista de palavras:

  • mocorongo: sujeito devagar e sem iniciativa
  • mambira, tanso e tansa: sinônimos de pessoa lerda ou sem habilidade;
  • tabacudo: versão mais recente e mais agressiva
  • bocó: um dos termos mais antigos desse grupo.

Ratão pertence à mesma família, mas tem um sentido próprio. Ratear é vacilar, e ratão é quem vacilou. Onde o resto do país pergunta se a pessoa está vacilando, no Rio Grande do Sul se pergunta o que ela está rateando.

"Levar uma mijada"

Aqui está a expressão que mais rende cara de espanto em quem chega ao Estado. Mijada, no Rio Grande do Sul, é bronca. Levar uma mijada do chefe significa ser repreendido com dureza. Dar uma mijada em alguém é chamar a atenção, esbravejar.

Nem sempre foi assim. O dicionário registra que, durante certo tempo, a palavra foi cuidadosamente evitada na sala de estar da família por soar como palavrão e só depois virou língua corrente, ainda que pouco elegante. 

"Jaguara": o insulto que vem do mundo animal

Jaguara vem do tupi. Primeiramente  nomeava a onça, mas quando passou a designar o cão ordinário virou insulto. Pode se referir a alguém de má índole, sem caráter ou safado, mas, no uso cotidiano, é muito empregado para chamar alguém de burro, lerdo ou sem noção.

Na mesma chave entra animal de teta, expressão que o vídeo de Brizolla classifica como uma das mais fortes do repertório. 

Arigó, no dicionário, é o trabalhador mais desqualificado da construção civil, aquele que carrega cimento e assenta tijolos.

"Esgualepado", a palavra que um governador colocou em circulação

Esgualepado descreve o que está quebrado, arrebentado, mal conservado e vale tanto para uma pessoa que caiu da moto quanto para um sofá com a mola aparecendo. Mas o termo tem data e autor conhecidos na fala urbana.

Segundo Fischer, foi Olívio Dutra quem começou a usar a palavra publicamente, por volta de 1998, durante a campanha ao governo do Estado, para descrever quem estava mal, em dificuldades, passando necessidade.

Dali, a expressão pegou. O dicionário registra que a origem não é clara e levanta como hipótese uma ligação com "gualicho", termo que, entre povos indígenas do Pampa, designava o diabo, o gênio do mal, autor das desgraças. 

Dutra nasceu na região missioneira, onde o substrato linguístico indígena é mais forte.

Imundície, murrinha e as ofensas do incômodo

Imundície (ou, no coloquial, imundícia) não fala de sujeira física, e sim de caráter. É reservada a quem age com baixeza, trai, engana ou pratica alguma crueldade. Na escala gaúcha de ofensas, está entre as mais duras que se pode dizer sem recorrer a um palavrão explícito.

Murrinha tem como grafia padrão morrinha e, no restante do Brasil, designa o cheiro ruim, o fedor. No Rio Grande do Sul, ganhou dois usos próprios: um cara murrinha é um chato, e um tempo murrinha é aquele dia chuvoso, meio frio, de céu cinzento que, por aqui, não é exatamente raro. 

Peidorreiro é literal: quem peida muito. Rendeu um dos ditos do Estado: "a desculpa do peidorreiro é a tosse", expressão usada para apontar quem sempre encontra uma justificativa esfarrapada.

Cagão fecha o grupo com sentido bem delimitado: covarde, medroso, quem recua na hora de encarar. Tem variações mais pesadas, como cu-cagado.

Maula é o traiçoeiro. Borracho é o bêbado, e borracheira é a bebedeira, ambos vindos do espanhol platino, ao lado de mamado e gambá.



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