"Baixa Sociedade"
"Fala da vida do brasileiro": Luiz Fernando Guimarães explica a força de comédia que chega ao RS
Assinada por Juca de Oliveira, falecido em março, peça tem sessões em Novo Hamburgo e Porto Alegre


O ator Luiz Fernando Guimarães vem celebrando seus 50 anos de carreira no lugar onde aprendeu lições valiosas: os palcos. Ele interpreta Otávio, o homem desempregado no centro de Baixa Sociedade, comédia de 1979 que agora roda o Brasil com versão atualizada e dirigida por Pedro Neschling.
A peça tem apresentação única em Novo Hamburgo nesta quinta-feira (13). A partir de sexta-feira (14), o espetáculo chega a Porto Alegre, no Teatro do Bourbon Country, com apresentações diárias até domingo (16).
Em Baixa Sociedade, o carioca de 76 anos empresta ao protagonista toda a jovialidade, dinâmica e irreverência que marcam tantos de seus personagens, como o Rui, de Os Normais.
— Eu gosto de espetáculos que têm uma comunicação com o público. Na verdade eu gosto mesmo é de me comunicar. Esse é o pretexto para se fazer teatro — comenta Guimarães.
“Quarteto maravilhoso”
Em resumo, Otávio é um homem falido que busca a mudança de vida. Para isso, ao lado do filho Otavinho (Paulo Mathias Jr.), ele está disposto a criar não só invenções para patentear, como também situações oportunas — como uma tentativa de casamento arranjado do próprio filho com uma ex-namorada rica.
Ao mesmo tempo que o protagonista provoca o público a pensar qual é o limite da gana para ascender socialmente e encontrar seu lugar ao sol, o ator destaca que esse não é o ponto central do enredo. Na verdade, Guimarães vê o seu Otávio como um homem bem intencionado, e, acima de tudo, frágil — mesmo sendo incapaz de admitir isso para si.
— Ele não se sente frágil de jeito nenhum. Mas o público torce por ele. Ele não é um canalha, não é um escroto. E não tem essa malícia. Ele é um cara bom. De bom coração. Como os personagens que eu gosto de fazer: eu transformo qualquer canalha em um cara bom.
Para além da identificação que o personagem provoca, Guimarães acredita que o público consegue assimilar o espetáculo muito rapidamente. Parte disso ocorre por causa da sintonia entre o elenco, que também conta com Debora Ozório e Bruna Trindade.
— Todos nós estamos muito bem. É um quarteto maravilhoso. A gente joga bem, é ótimo. A peça flui do início até o fim. E eu entro em cena e não saio mais. Então, quando vejo, já está no final. É maravilhoso.

Um texto de Juca de Oliveira nos palcos
Guimarães conta que, já na primeira leitura do roteiro — que ocorreu logo depois de Neschling convidá-lo para integrar o elenco — a história chamou sua atenção. O texto foi escrito originalmente pelo dramaturgo paulista Juca de Oliveira, falecido em março deste ano, que também foi o primeiro Otávio, ainda em 1979.
Coube a Guimarães colocar seu ar carioca em uma montagem “com cara de paulista, com humor paulista”, sempre mantendo o respeito ao material original que rendeu ao ator a benção do próprio Juca. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em janeiro, o dramaturgo chegou a dizer que um protagonista como Guimarães é o sonho de qualquer autor.
O carinho era retribuído ao final de cada sessão de Baixa Sociedade até a morte de Juca, que já estava enfermo. Guimarães conta que sempre mencionava o autor e comentava sobre o eco que a peça continuava tendo na atualidade.
— Ele está vivo. A pessoa morre, mas o autor está vivo — define Guimarães.
Troca com o público
Seguir tendo eco na modernidade é um dos pontos fortes tanto do texto de Juca quanto da abordagem de Neschling. Na sua nova concepção, o diretor trouxe à obra alguns desvios que, para Guimarães, são interessantes e respeitam o original na mesma medida. O resultado é uma “dramaturgia muito bem armada”, que agora começa a adquirir novas facetas a partir da turnê nacional, iniciada após duas temporadas fixas, primeiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo.
— O espetáculo fica muito aberto para receber também a informação do público, e com o público a gente vai construindo uma nova história, que virou uma história carioca porque começamos lá. Agora, vai se adaptando a cada lugar. Sabemos a peça que estamos fazendo, mas não somos donos do que vai acontecer naquele dia. É uma coisa maravilhosa porque torna o teatro cada vez mais vivo — descreve Guimarães.
A troca com o público, aliás, comprova que nem a mudança de época nem a de lugar deixam o texto menos afiado:
— O público sai dizendo: “Vocês falam de tanta coisa, falam da vida da gente e a peça é muito leve”. Claro, trata-se de uma comédia: é bem-humorada, mas fala da vida do brasileiro.
Para deixar a plateia na palma de sua mão, o mecanismo de encantamento é o domínio do timing, o tempo que o público leva para entender o que está sendo dito. Segundo Guimarães, esse é o fundamento que ele mais preza.
— É um trabalho matemático, digamos assim. Se você não tiver a matemática, você perde o tempo do raciocínio do público, porque o raciocínio do público é o que vai fazer com que o espetáculo ande bem ou não.

Clima de celebração
A montagem também celebra os 50 anos de carreira de Luiz Fernando Guimarães. Os últimos tempos trouxeram oportunidades de colocar em prática tudo o que aprendeu ao longo das décadas, desde Os Normais, ao lado de Fernanda Torres, até experiências nos palcos com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, que abriu os caminhos para o ator ainda nos anos 1970.
Recentemente, na novela Três Graças, Guimarães também explorou outro lado de sua experiência artística: a emoção.
— Era uma coisa que, há muito tempo atrás, eu tinha uma dificuldade enorme. Eu aprendi muito no teatro a me emocionar na hora. E na televisão também, nos Normais. Eu tinha muitas cenas com a Nanda (Fernanda Torres), principalmente no filme, de pura emoção. E emoção é uma coisa que cada um tem a sua. Cada um busca a sua. Mas é uma coisa de você realmente relaxar a sua musculatura e deixar que a coisa venha.
Irreverente desde sempre
Nos palcos, Guimarães celebra a conquista da irreverência, lapidada delicadamente ao longo da carreira.
— Eu acho que o humor não tem necessariamente que fazer rir. Eu acho que o meu humor é muito mais irreverente do que cômico. É isso que eu aprendi com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, com a televisão, com o cinema.
A chave para isso, de acordo com ele, é uma espécie de neurose: espera que o público perceba que seu trabalho flui naturalmente. Por isso, prefere nunca “estar 100%”. Quando isso acontece, a preocupação central passa a ser o acerto.
— O ator que dá 100% corre o risco do público ficar com pena dele. Quando vou ao teatro, eu vejo que o ator se esforçando muito, fico com pena dele. Eu paro de admirar o espetáculo e fico torcendo para que tudo dê certo com ele. Não quero que isso aconteça comigo — explica ele.
Serviço
Baixa Sociedade, com Luiz Fernando Guimarães
Novo Hamburgo
- Quando: quinta-feira (13), às 20h
- Onde: Teatro Feevale (RS-239, 2755)
- Ingressos via Blueticket, a partir de R$ 67,20; ou na bilheteria, sem taxas, duas horas antes do começo da apresentação
Porto Alegre
- Quando: sexta-feira e sábado (14 e 15), às 21h; domingo (16) às 19h.
- Onde: Teatro Bourbon Country (Avenida Túlio de Rose, 81)
- Ingressos via Uhuu, a partir de R$ 50
*Com orientação e supervisão de Júlia Endress