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Reconhecimento

Heloisa Pires Lima é a patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre, primeira mulher negra a ocupar o posto

Evento será de 30 de outubro a 15 de novembro na Praça da Alfândega, com convidados como Afonso Cruz, Aline Bei, Ana Maria Machado e Marcelino Freire

04/08/2026 - 11h10min


William Mansque
William Mansque
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Sammy Leite/Divulgação
Conhecida por livros infantojuvenis, Heloisa Pires Lima é a patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre.

A escritora, antropóloga e educadora Heloisa Pires Lima, 70 anos, foi escolhida patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Seu nome foi anunciado na manhã desta terça-feira (4) pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), entidade que realiza o evento.

A edição deste ano da Feira será de 30 de outubro a 15 de novembro na Praça da Alfândega, no Centro Histórico. Em 2025, o posto de patrona foi da escritora Martha Medeiros.

Heloisa é a primeira mulher negra a ser patrona do evento e, em mais de 70 edições, a 10ª mulher a ocupar a posição. Também é a segunda pessoa negra no postoJeferson Tenório, em 2020, foi o primeiro.

Formação de novos leitores

O anúncio foi realizado em coletiva no Master Express Grande Hotel, no Centro Histórico. No evento, a presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Roseni Siqueira Kohlmann, destacou que a escolha de Heloisa como patrona está ligada à missão da próxima Feira do Livro em promover o acesso à leitura infantojuvenil, especialmente em uma trajetória que deu protagonismo a personagens e narrativas negros.

— Sua obra convida crianças e jovens a conhecerem diferentes culturas, além de refletirem sobre identidade, diversidade e pertencimento. São valores que dialogam profundamente com o nosso objetivo de formar novos leitores — diz Roseni.

Convidados da programação

Em sua 72ª edição, a Feira do Livro terá o conceito "Essência que faz histórias", inspirado na relação construída entre o evento e a capital gaúcha ao longo de mais de sete décadas. A ideia do slogan é refletir que Porto Alegre reúne inúmeras histórias, mas poucas foram vividas de forma tão coletiva e contínua quanto na Feira.

No evento desta terça, também foram anunciados os primeiros nomes da programação deste ano

  • Aline Bei
  • Ana Maria Machado
  • Bianca Santana
  • Cidinha da Silva
  • Eliane Potiguara
  • Jessé Souza
  • Marcelino Freire
  • Milly Lacombe

No âmbito internacional, a Feira trará a artista visual afegã Moshtari Hilal, o escritor e artista português Afonso Cruz e a romancista francesa Neige Sinno.

Outros convidados da 72ª Feira do Livro serão anunciados nas próximas semanas, assim como a programação completa de atividades.

Trajetória dedicada à representatividade

Natural de Porto Alegre, Heloisa Pires Lima mudou-se para São Paulo aos 9 anos, onde reside até hoje. Tem graduação em Ciências Sociais, mestrado em Antropologia e doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (SP).

Ainda jovem, aproximou-se da literatura por meio da biblioteca da Ibeji Casa-Escola, projeto desenvolvido em São Paulo na juventude.

Logo, Heloisa constatou a ausência de personagens negros construtivos, que fossem "preenchidos de afetividade e auxiliassem o leitor a desejar o modelo de humanidade negro", identificando-se com ele positivamente.

Hoje, a escritora coordena projetos editoriais e acadêmicos voltados para a representatividade e a identidade do povo negro. Também atua como consultora nas esferas pública e privada e em ONGs nacionais e internacionais.

Nos anos 1990, ela participou pela Fundação Palmares das consultas prévias para o projeto História da África, então em debate na Câmara. Posteriormente, esse projeto originou a lei federal 10.639, de 2003, que instituiu o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de Ensino Fundamental e Médio do país.

Livros infantojuvenis com personagens negros

Sammy Leite/Divulgação
Heloisa Pires Lima trabalha na interseção entre antropologia, educação e literatura afro-brasileira.

Heloisa contabiliza quase 30 obras publicadas, com notória produção sobre temas étnico-raciais, tratando especificamente da questão africana. 

No livro infantojuvenil O Pescador de Histórias (Melhoramentos), a escritora pontua:

"Eu presto atenção em tudo que tem a ver com esse continente, como se precisasse conhecê-lo cada vez mais (...). Ao escrever livros com tais repertórios, acredito chamar a atenção do leitor para um detalhe do mundo. Sobretudo do africano, que faz parte do brasileiro. E sempre torcendo para que se gostem".

A escrita da autora é caracterizada pela interseção entre antropologia, educação e literatura afro-brasileira. Preza pela oralidade e por uma linguagem acessível, mas com densidade histórica e simbólica.

Livro premiado

Parte considerável de seu trabalho é voltado ao público infantojuvenil, com foco em personagens negros. Seu primeiro livro com maior repercussão foi Histórias de Preta, de 1998. Publicada pela Companhia das Letrinhas, a obra aborda a construção da identidade de uma menina negra. Por meio desse olhar da infância, a autora fala sobre a população negra no Brasil com a experiência de quem já foi alvo de racismo.

Histórias de Preta recebeu os prêmios José Cabassa e Adolfo Aizen, além do selo Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Outro livro de destaque de sua obra é Toques do Griô: Memórias Sobre Contadores de Histórias Africanas (Melhoramentos), de 2011, escrito em parceria com Leila Leite Hernandez. O livro discorre sobre o griô como guardião da memória das comunidades de ascendência africana.

Entre seus trabalhos mais recentes, estão Livro Tem Língua? (Editora Passarinho), escrito em parceria com a cacica Aliã Wamiri Guajajara. A obra promove um encontro poético entre duas meninas, uma da aldeia e outra do quilombo.

No ano passado, ela lançou Penteado, o Meu e o do Lado (PeraBook), em que aborda a ancestralidade e a diversidade cultural por meio dos cabelos na volta às aulas.


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