Futebol
Andarilhos do Gauchão: O homem que correu Rivellino
O uruguaio Sergio Ramirez, 61 anos, comanda o Santa Cruz e traz para o clube sua rodagem, pontuada por boas histórias
Um dos protagonistas de uma das perseguições mais marcantes do futebol se prepara para estrear no Gauchão Chevrolet. O uruguaio Sérgio Ramirez ficou famoso ao sair em disparada atrás de Rivellino em um Brasil x Uruguai. Rivellino desceu apenas o primeiro degrau da escada do túnel. Os demais, venceu quicando, sentado.
Aos 61 anos, Ramirez é hoje um sujeito divertido, de conversa fácil. Virou celebridade em Santa Cruz do Sul muito pelo jeito afável. Mas, naquela noite de 28 de abril de 1976, ele estourou. O episódio com Rivellino foi o desfecho de confusão ocorrida minutos antes. Lateral-direito vigoroso, Ramirez era o penúltimo marcador quando Zico veio a dribles em sua direção. Parou-o sem sutileza, com um pontapé. Houve princípio de confusão. No bolo, Revétria, encoberto por ele, acertou Rivellino. Que revidou com soco na boca de Ramirez.
O jogo foi retomado. Marco Antônio cobrou a falta no poste. Na sequência, a partida acabou. O uruguaio deixava o campo quando percebeu Rivellino saindo, às suas costas. Não titubeou e disparou atrás dele. O resto da história você já leu acima. Hoje, Ramirez acha graça do episódio:
- Era um guri, tinha muita energia, estava empolgado com a seleção. Mas não é meu cartão de visitas, tenho passagens mais importantes, como 36 jogos pela Celeste.
Rivellino e Ramirez viraram amigos. Reataram meses depois, quando o Flamengo o anunciou. Rivellino era o astro do Fluminense, conhecido como a Máquina. Ao contratar Ramirez, o presidente Márcio Braga queria manchetes de jornal ameaçadoras contra o craque rival. Um segundo round lotaria o Maracanã no Fla-Flu. Braga pediu que, na apresentação, o uruguaio prometesse Rivellino. Ele se recusou.
Dias depois, ao sair do vestiário da Gávea, Ramirez topou com Rivellino, que treinava lá pela Seleção. As pazes foram feitas ali.
A perseguição ficou para a história. Nos anos 80, o narrador Luciano do Valle levava sua seleção de craques para amistosos pelo Brasil. Rivellino era o camisa 10. E Ramirez sempre reforçava o adversário, geralmente um combinado da cidade do jogo.
- O Rivellino é um baita cara. Nossa briga servia para atrair torcida nos jogos dos veteranos - diverte-se o uruguaio.
A chance de trabalhar no Gauchão permitirá a Ramírez encontrar outro velho amigo, Vanderlei Luxemburgo. Para ele, é o Vandeca, com o som do "E" fechado. Os dois foram companheiros no Flamengo dos anos 70. Em 1982, estavam juntos no Campo Grande, campeão da Série Prata, a Série B da época. Ramirez na lateral-direita, Luxa estreando como técnico. O preparador físico era Antônio Mello.
- O Vandeca é um grande amigo. Naquela época tinha perfil bem definido, personalidade forte, cobrava muita seriedade no trabalho - conta Ramirez.
Uruguaio de Treinta y Tres, Ramirez se diz meio gaúcho. Lembra de, na infância, vir com a avó até Jaguarão, na Fronteira, para comprar produtos que ela revendia no lado uruguaio. Cresceu ouvindo os jogos da dupla Gre-Nal pelas rádios de Porto Alegre.
Com endereço fixo em Curitiba, o técnico rodou por clubes do Norte e Nordeste e do Interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. No futebol gaúcho, teve o primeiro emprego em 2011, no Brasil-Pe, mas na Série D. Por isso saúda agora o convite do Santa Cruz.
Ramirez está entusiasmado com seu primeiro Gauchão. Observa que os jogos são intensos. Lembram o estilo uruguaio de jogar. Mas avisa: que ninguém espere vê-lo correndo atrás de um camisa 10 pelo campo. Santa Cruz
Colocação em 2012: 13º
Técnico: Sérgio Ramirez
Os contratados: Fernando Vizzotto (G, Ypiranga), Enderson (G, Flamengo/SP), Grafitte (LD, Foz do Iguaçu), Marcelinho (Z, Noroeste/SP), Teda (Z, São Paulo-RG), Wellington Baroni (LE, Lajeadense), Carlão (LE, Tupi/MG), Elton (V, Comercial/SP), Diego Teles (V, Chapecoense), Gabriel Davis (M, Boa Esporte), Fabinho (M, Botafogo/SP), Anderson Gomes (A, Volta Redonda) e Charles (A, Salgueiro)
Time-base: Fernando Vizzotto; João Neto, Márcio Nunes, Marcelinho e Carlão; Diego Teles, Élton, Cleiton e Fabinho; William e Brasão
