Luiz Zini Pires
Livro conta história da torcida Coligay
Jornalista Léo Gerchmann recuperou trajetória de torcida pioneira


Na superativa redação de ZH, no corredor, no bar, na frente de um computador e até no estacionamento, Léo Gerchmann fazia tranquilas abordagens aos colegas, com seu jeito discreto de ser. Consultava os jovens e os experimentados, as cabeças boas e as cucas travadas, os homens e as mulheres, os fotógrafos e os motoristas, mas não perguntava quase nada. Ouvia. Dizia.
- Vou escrever um livro sobre a torcida Coligay.
O Léo é casado com a Dione Kuhn. São dois premiados jornalistas e a Dione, boa companheira, entendeu tudo desde a primeira hora.
- Escreve mesmo.
Com gás, com os dois filhos pequenos, Pedro e Paula, na cabeça, com o coração gremista inflado e "com a certeza de que a diversidade é uma vocação divina (ou natural), um dom a nos caracterizar como humanos", Léo foi cavoucar no passado as pegadas de purpurina da clássica torcida tricolor dos anos 1970, composta por homossexuais e que se comportavam como tais nas ruas, nas esquinas, nos estádios e nas boates.
O autor recuperou um tesouro, redescobriu histórias, recolocou na linha do tempo das torcidas gremistas o grupo que não tinha medo de cantar e festejar seu nome entre os então quase sisudos torcedores. Enriqueceu a bibliografia do futebol brasileiro com as 192 páginas de Coligay, Tricolor de Todas as Torcidas. A obra ficaria bem posta em qualquer idioma, seria livro de referência lá fora, será aqui.
Com todos os sentidos do bom jornalistas em pé, Léo convocou testemunhas de 1977, ano da formação da torcida. Encontrou o mapa e descobriu que o corpo de torcida pioneira no país nasceu, cresceu e foi alimentado na década da crise do petróleo, do Vietnã, de Watergate, dos aiatolás, das ditaduras na América Latina (a do Brasil terminaria só em 1985, mas as sequelas persistem), dos terroristas de esquerda e de direita - também tempo de novos e surpreendentes ecos planetários de mulheres, jovens, místicos, alternativos e homossexuais.
Entre eles, tribos jamais vistas, dividindo espaços, em conflitos ou não: punks e metaleiros, naturebas, caretas e desbundados, todos capturados pelos embalos de sábado à noite. Gente que pedia voz, mas não encontrava alto-falante. Ganhou. O barulho transformou todo o novo século, apesar dos surdos.
O escritor tomou o depoimento de jogadores (gol de Iúra aos 14 segundos de um Gre-Nal é pano de fundo), dirigentes e jornalistas. Recuperou a memória da boate gay Coliseu, da qual saiu a trilha sonora do Abba, figurinos amarrotados da novela Dancing Days, a Era Discoteca no auge e berço embalado da Coligay.
Da porta da hoje imaginária Coliseu, desaparecida do número 1.281 da Avenida João Pessoa, Léo reencontrou o ex-proprietário, Volmar Santos, que vive em Passo Fundo, e captou depoimentos comovidos. Um deles:
- Um dia, em uma das partidas, comecei a notar que as torcidas (Eurico Lara e Força Azul) estavam muito desanimadas (...) Reuni vários gays frequentadores do Coliseu e lancei a ideia (...). Então resolvemos que a nova torcida seria Coli, de Coliseu, e gay, do público que a frequentava.
Líder, organizador, testemunha e presidente, Santos costumava ir ao Olímpico, como ainda vai à Arena, misturado aos fãs gremistas. Com a Coligay, ganhou espaço próprio no velho casarão. Primeiro, sentiu palavrões, piadas, homofobia pura e conheceu a força das pedras. Depois, os mais incomodados só trocaram de lugar, observavam de longe os malabarismos dos alegres rapazes, vestidos com roupas saídas do carnaval baiano ou de histórias das mil e uma noites e agitando as bandeiras do pluralismo.
Por fim, turma parecia ter lugar cativo numa das linhas das arquibancadas. Ganhou a simpatia e até ajudou a arrecadar dinheiro e cimento para completar o segundo anel do Olímpico - sem nunca pedir ajuda financeira ou ingressos para as partidas. Ou como escreve Léo, "o gesto, que para muitos podia ser só diversão, era necessariamente transgressor e, sendo transgressor, revestia-se de caráter político, uma atitude política libertária e histórica. Por mais involuntário que fosse".
Entre 1977 e 1983, coincidentemente cinco anos de extraordinária recuperação do Grêmio, do título do Gauchão à volta olímpica mundial em Tóquio, a Coligay, como escreve Léo no livro, "aproveitou brechas do ferrolho conservador e superou a retranca do preconceito".
Seja como for, na piada homofóbica, na brincadeira politicamente incorreta ou nas boas-vindas de um sorriso sem preconceito, a Coligay merece um bom lugar na história do Brasil da Copa do Mundo. Em Recife, uma das 12 sedes do Mundial, um torcedor foi morto com uma privada jogada na sua cabeça.
O futebol mudou. Pobre futebol.
O que você fazia em 1977?
Quem torcia no ainda incompleto Olímpico, falava as novas gírias da Capital, marcava uma "ponte" com amigos, cantava Elis e Chico e guardava os documentos na capanga.
Com quem você cantava
Coração Selvagem, Belchior
Refavela, Gilberto Gil
Disco Club, Tim Maia
Falso Brilhante, Elis Regina
Bicho, Caetano Veloso
Verde Que Te Quero Rosa, Cartola
Meus Caros Amigos, Chico Buarque
O que você vestia
Calças com pregas e bolsos de
todos os tamanhos
Pochete, bolsa presa à cintura
Roupas indianas
Tênis cano alto All Star
Calça e agasalho, conjunto de moletom
Primeiras camisetas com frases em português
Gírias que você falava
Aprontar (sacanear)
Baia (casa)
Deu Pra Ti (tchau)
Numas (de certa forma)
Ponte (encontro)
Tri (muito)
Xarope (chato)
Pesquisador não crê em nova Coligay
No atual contexto de convivência das torcidas organizadas da dupla Gre-Nal, o pesquisador Gustavo Bandeira, mestre em Educação pela UFRGS, crê que a criação de uma nova Coligay não é possível, ao menos em médio prazo. Na opinião de Bandeira, o fato de não existir uma legislação que trate dos atos de homofobia como crime faz com que a intolerância nos estádios ocorra impunemente.
- O futebol é um espaço de construção de masculinidade que se dá através do antagonismo, da rivalidade e do confronto. Hoje, a homofobia nem é considerada como violência. As pessoas ainda não desenvolveram essa consciência - entende.
Como exemplo, Bandeira compara o tratamento dado pela sociedade ao racismo e à homofobia. Em seu entendimento, enquanto um ato de injúria racial recebe ampla repercussão e repúdio, o preconceito em relação aos gays é visto muitas vezes como comportamento comum e não causa o mesmo sentimento de revolta na sociedade.
- Ambos são problemas, não se pode hierarquizar. Só que racismo no Brasil é crime, homofobia ainda não. Quando o Emerson Sheik postou a foto do selinho, a torcida do Corinthians invadiu o CT para ameaçá-lo. Mas quando o Tinga foi alvo de injúria racial, até o presidente do Atlético-MG, um clube rival, se pronunciou em favor dele - comenta.
A intolerância nas arquibancadas se estende ao gramado, conforme Bandeira. Por conta disso, muitos jogadores acabam escondendo sua orientação sexual.
- A homossexualidade na cultura do futebol não possui qualquer atributo positivo.
Jogador tem toda uma questão de imagem e o fato de assumir-se como gay tende a diminuir postos de trabalho por conta da rejeição das torcidas - entende o pesquisador.