Temor constante
Medo e violência acompanham taxistas na madrugada de Porto Alegre
Marcada por assaltos e agressões, rotina de tensão dos motoristas é registrada por ZH


Antes de espetar uma faca a meio palmo do umbigo de Jarbas Apolinario de Moura - um jovem taxista de 24 anos, com três filhos e dois meses de profissão -, até que o ladrão parecia gentil.
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- E esse psicopata matando vocês, hein? Vida difícil - refletiu o homem, ainda sem anunciar o assalto.
VÍDEO: ZH acompanha rotina dos motoristas
Jarbas concordou, respondeu que seus colegas estão apavorados, que o perigo é sempre iminente. Enquanto a conversa fluía dentro do carro, em um ponto de táxi da Avenida Assis Brasil, na Zona Norte, Robson Oliveira de Quadros mostrava marcas de dedos nos vidros do Siena que dirige. Haviam tentado arrombá-lo.
Robson, 28 anos e dois filhos, deixara o veículo por 15 minutos sozinho no ponto, porque outro taxista parecia estar em apuros a algumas quadras dali. Para salvar o companheiro, sete motoristas - Robson entre eles - entraram em dois táxis. A informação era de que o colega permanecia estacionado em um beco por mais de meia hora, e seu celular estava desligado.
Com um pedaço de pau mirrado, o grupo de taxistas já havia disparado rumo à viela, as luzes em pisca-alerta, mas um telefonema confirmou que o parceiro apenas jantava na casa de uma tia, sem bateria no celular.
- A gente nem daria bola para isso, o cara só estacionou. Mas estamos assustados demais - disse Robson, que após o alarme falso avistou fugindo a mulher que tentara invadir seu táxi.
Desde a madrugada de sábado, quando três motoristas foram executados em serviço, a noite de Porto Alegre é uma gaiola de medo para os taxistas. Entre os 15 profissionais ouvidos pela reportagem na terça-feira, todos decidiram encurtar a jornada de trabalho - os que paravam de dirigir às 5h agora param à 1h, os que paravam de dirigir às 6h agora param às 2h. Eles interrogam os passageiros antes do embarque, não param na rua para jovens, não aceitam chamados quando o endereço é "em frente ao local tal" ou "na esquina da rua tal".
- Se atendo ao telefone e o cara fala muita gíria, não vou. Agora mesmo, ligou um rapaz pedindo para pegá-lo na Igreja Bola de Neve, aqui na Assis Brasil, mas a essa hora a igreja está fechada. O que o cara faz em frente a uma igreja fechada? - questionava Manoel, 55 anos, pedindo sigilo do sobrenome.
Momentos antes de ZH localizá-lo, Jarbas, taxista de 24 anos com três filhos, sentiu uma faca em sua barriga
Foto: Bruno Alencastro

A essa altura, enquanto Manoel rejeitava a corrida para a igreja, Jarbas já sentia a ponta da faca lhe cutucando o abdômen. O passageiro, que parecia tão cortês, agora dizia "perdeu, negão" e arrancava o GPS do painel, ordenando que Jarbas lhe desse o dinheiro. Na esquina da Avenida Antonio Carvalho com a Rua Eduardo Seco, na Zona Leste, o taxista pediu para descer do carro - ponderou que o dinheiro estava no bolso de trás da calça. Permissão concedida, Jarbas abriu a porta. O bandido saiu pelo outro lado, fez a volta no veículo e levou dois murros na boca. Jarbas havia partido para a briga.
- Ele está me batendo! - anunciou o ladrão aos gritos, e dois homens surgiram correndo para apoiar o assaltante.
- Já tinham combinado tudo. Os caras sabiam que o desgraçado me levaria para lá - relatou o motorista ao registrar ocorrência na polícia às duas da manhã.
Nesse mesmo horário, no ponto de táxi da Assis Brasil, Robson aguardava sua última corrida antes de ir para casa. Bastava o telefone tocar na cabine. De um lado do aparelho, havia um mural de recados com um bilhete escrito a mão: "Tem um gordo careca na Santa Rosa que assaltou um taxista do Big". Do outro lado, um arranjo de margaridas vermelhas homenageava Eduardo Ferreira Haas, 31 anos, um dos mortos na traumática madrugada de sábado.
- Ele era do nosso ponto. Baita gente boa - baixou os olhos Robson, antes de atender ao telefone e enfrentar a última empreitada de terça.