Aprendizado ao ar livre
Caracterizado de legionário romano, professor dá aula diferenciada em praça da Capital
Carlos Heitor Rosa da Silva usa figurino e espaços alternativos para enriquecer debates com adolescentes
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Na manhã desta segunda-feira, ao se dirigir para o trabalho, o administrador Paulo Machado teve a atenção atraída por um homem que, vestido de legionário romano, gesticulava, enfático, enquanto falava a um grupo de adolescentes na Praça Piratini, área central da Capital. A cena, que parecia parte de uma apresentação teatral, era na verdade uma das aulas diferenciadas do professor Carlos Heitor Rosa da Silva, que leciona no Colégio Estadual Júlio de Castilhos (Julinho), escola situada em frente à praça.

- É uma imagem impactante para nós, que valorizamos o ensino no país. É bom ver isso acontecendo no setor público, pessoas abnegadas se diferenciando e indo além do comum - diz Machado sobre a aula que testemunhou e a respeito da qual alertou ZH.
Não é a primeira vez que Heitor reúne seus alunos na praça - e nem o primeiro figurino escandaloso que ele usa para ilustrar a aula. O professor, que leciona em cinco escolas, já trabalhou vestido de Senhor Incrível, Shrek, faraó, entre outros personagens, sempre tecendo relações com temas debatidos com as turmas. Fotos das aulas são depois postadas no Facebook, espaço onde o educador também interage com os alunos.
Nesta segunda, a caracterização de legionário serviu para que Heitor inserisse os adolescentes, todos alunos do 1º ano do Ensino Médio, na reflexão sobre as relações de poder na sociedade. A aula era de Seminários Integrados, parte do projeto de reestruturação do nível médio, que funciona como uma ponte entre as diversas disciplinas e o mundo da vida, como explica a diretora do Julinho, Leda Gloeden:
- Os jovens não estavam vendo um significado nas disciplinas. A proposta é que os alunos descubram a relação entre o conhecimento e o seu dia a dia - afirma.
Aprendizado e diversão se misturam na Praça Piratini
Foto: Ronaldo Bernardi

Heitor, que também leciona História e é ator, diz que o trabalho diferenciado está tendo um ótimo retorno da parte dos alunos e garante que isso não se deve apenas aos figurinos e às saídas para a praça.
- Nem sempre eu trabalho vestido de algum personagem, nem sempre eu trabalho ao ar livre, e as aulas normais são boas e lotadas do mesmo jeito - afirma.
Alunos do 1º ano comemoram a postura alternativa do professor de Seminários Integrados. Pedro Menegotto, 17 anos, compara a performance de Heitor a uma apresentação de comédia stand-up. Já Ivan Salgado, 15 anos, brinca dizendo que um dos méritos do professor é que ninguém dorme durante a aula. E Lucas Miozzo dos Santos, 15 anos, diz que os períodos com Heitor são um dos pontos altos da semana na escola.
- A gente fica esperando pela segunda-feira só pra ter aula com ele - afirma o adolescente.
O professor diz que as aulas ao ar livre acabam atraindo até alunos que não são do 1° ano. Ele conta que alguns jovens que já estão nas séries seguintes às vezes param para ver e ouvir. Segundo a diretora Leda, a proposta de trocar a sala de aula por outros espaços mais atrativos é muito válida e também é adotada por outros professores do Julinho, com bons resultados.
Heitor, legionário romano nesta segunda-feira, garante que vai continuar encarnando outros personagens e buscando espaços alternativos para enriquecer a experiência de construção do conhecimento na escola.
- Os alunos cansam muito das quatro paredes. O aprendizado é no mundo - afirma o educador, já antecipando que, na próxima semana, pretende aparecer no Julinho caracterizado como um personagem do grupo Village People, para introduzir o debate sobre a homofobia.