A humildade do herói
No Guarany de Bagé, Adriano Gabiru avisa: "Não gosto de ser o melhor"
Herói do maior título da história do Inter prefere o interior gaúcho a Marselha, onde defendeu o Olympique


Andréa parece simpática - o que, de certa forma, é um alívio. É ela quem recebe a equipe de ZH na porta do apartamento, o boa-noite brilhando no sorriso largo.
O marido aguarda na sala.
Dizem que o homem detesta entrevistas, não gosta de aparecer. Durante a tarde inteira, ele havia evitado a reportagem enquanto treinava com o Guarany na sede do Clube Caixeiral, em Bagé, onde cinco vacas pastavam atrás do campo. Mas, com os colegas de futebol, ele parecia tão simpático como Andréa. Não se importava que o capitão do time o chamasse de Gabirosca, desde que pudesse retribuir chamando o rapaz de Suelen.
À noite, com o corpo retesado no sofá amarelo, o cumprimento surge em voz baixa - e o olhar também é baixo diante da TV desligada de 29 polegadas. Adriano Gabiru, o meia-direita que marcou o gol mais importante da história do Inter, vive com a mulher desde julho no apartamento de dois quartos alugado com mobília. Na garagem, está o Gol branco emprestado por um patrocinador do Guarany.
Observado por Andréa, Gabiru começa a falar - só dá respostas curtas. Uma coisa fica clara em menos de 10 minutos: não é que ele deteste a imprensa; é que, de alguma forma, a imprensa parece ameaçar algo que ele acredita ter conquistado em Bagé.
- Não gosto de ser o melhor. Gosto de ser igual a todo mundo. Aqui, eu me sinto assim.
Quando enfiam um holofote em sua cara, quando uma reportagem é feita somente sobre ele, e não sobre o time inteiro, Gabiru se aborrece. Nunca conseguiu conviver com a ideia de ser um destaque. Nunca quis ser o melhor. Andréa cita um exemplo.
- Adriano não entendeu a importância daquele gol - ela se refere ao título mundial do Inter, em dezembro de 2006.
Aquele gol mexeu com Gabiru.
No dia seguinte ao retorno do Japão, onde os colorados venceram o Barcelona com um chute dele à meia altura, o casal resolveu sair à rua em Porto Alegre. Partiram de casa rumo ao Shopping Moinhos, cinco quadras a pé, mas era impossível andar na rua, multidões se aglomeravam, todos gritavam o nome de Gabiru, pediam perdão por tê-lo vaiado um dia, queriam autógrafos, queriam fotos, queriam beijá-lo, queriam amá-lo para sempre, enfim, Gabiru era irrefutavelmente... o melhor.
Cinco meses depois, foi dispensado do Inter.
- Tudo aquilo refletiu no futebol dele. Prejudicou o desempenho em outros clubes -analisa Andréa, sua mulher há 13 anos, hoje representando o marido nas negociações.
Gabiru circulou pelo Figueirense, depois pelo Sport, pelo Goiás, Guarani de Campinas, Mixto, Corinthians paranaense e, no início do ano, foi demitido do CSA, de Alagoas. Houve quem o acusasse de gostar demais da noite - por isso, a diretoria do Guarany de Bagé adorou quando a mulher decidiu morar com ele, separando-se pela primeira vez dos três filhos, que ficaram em Curitiba aos cuidados da avó.
- Estou feliz demais, aqui é maravilhoso - diz Gabiru sobre a nova cidade.
Para ele, Bagé fica ainda melhor quando comparada a... Marselha. Embora seja uma referência cultural na França, Marselha foi um tormento para Gabiru, que morou lá em 2000 para jogar no Olympique. Era uma época de carreira ascendente, ele era convocado para a seleção pré-olímpica, tinha 22 anos, finalmente chegara a um clube da Europa. Mas, quando Gabiru se destaca demais, alguma coisa ocorre.
E o contrato de quatro temporadas não durou seis meses.
- Qualquer metrô nos levava rapidinho para a Alemanha, para a Espanha. Mas eu era novo demais, nem atinava - recorda ele, lembrando que passava boa parte do tempo trancafiado com Andréa no apartamento, sem muita opção do que fazer, sem entender a língua dos franceses, sem nenhum ímpeto de explorar uma Europa inteira que se exibia ao seu alcance.
Retornou para o seu clube anterior, o Atlético-PR - deu a volta por cima e foi campeão brasileiro em 2001. A reportagem pergunta quem era o dono do seu passe.
- Sei lá se venderam uma parte ou venderam outra. Esses rolos com empresários, pô, a gente fica perdido.
O negócio de Gabiru é jogar futebol. E só. Foi Andréa quem acertou o contrato de R$ 100 mil para o marido atuar oito meses no Guarany de Bagé. Na prática, é como se ganhasse um salário de R$ 12,5 mil por mês. A diretoria do clube, que disputa a terceira divisão do futebol gaúcho, montou uma rede de patrocinadores - e até a prefeitura ajudou a bancar a transferência do herói colorado.
Em 19 de abril deste ano, Bagé parou. Gabiru chegou desfilando em carro aberto, um pouco acanhado, mas acenando contente do alto de uma caminhonete branca. O número de sócios do Guarany saltou de 50 para 500. A antiga carteirinha de papel agora é um elegante cartão vermelho que propicia descontos em restaurantes, farmácias, fruteiras e armazéns. A venda de camisetas quintuplicou - foram 250 em 90 dias, um fenômeno para um clube do Interior.
A intenção dos dirigentes era a seguinte: com a mídia atraída por Gabiru, outros bons atletas talvez se interessassem por jogar no Guarany. Em algumas semanas, chegaram o centroavante Adão, ex-Grêmio, e o lateral Barão, ex-Inter.
Não há dúvida de que Gabiru é uma celebridade em Bagé. Dá autógrafos diariamente na churrascaria onde almoça e janta, embora o rebuliço que provocava na população já tenha se aplacado. Mas a diretoria fica atenta: sabe que o meia tem dificuldade para suportar pressão - e a responsabilidade de ser o mais famoso do time é um prato cheio para desestabilizá-lo. É por isso que o vice-presidente de futebol, Cléo Coelho, orienta a comissão técnica e até o capitão da equipe, o zagueiro Renato Martins, a monitorar o estado de espírito do astro do time.
- O Gabiru está muito quieto. Vão lá brincar com ele - disse Cléo a Renato, dias atrás.
Em um dos treinos que ZH acompanhou, Gabiru pediu ao técnico Osvaldo Rolim (demitido há duas semanas, após perder o clássico contra o Bagé por 3 a 0 e empatar em casa contra o Três Passos) para cobrar pênaltis nos jogos do Guarany. Osvaldo sugeriu que ele treinasse algumas cobranças, então Gabiru bateu dois pênaltis e os dois acertaram a trave. No dia seguinte, cobrou mais dois, só que o goleiro Goico defendeu ambos.
- Não quero mais bater - murmurou o meia, cabisbaixo.
- Não, senhor! Não vai sair daqui antes de fazer um gol em mim - retrucou Goico.
E Gabiru converteu a cobrança seguinte.
Cinco minutos depois, um diretor do clube invadiu o campo:
- É aniversário do Gabiru! Eu vi na internet, 11 de agosto, ele não avisa ninguém!
E o meia saiu correndo e gritando "não é hoje, não é hoje", mas os colegas já o haviam cercado. Deram-lhe um banho d'água para comemorar os 35 anos, Gabiru foi abraçado e gargalhou como criança.
Sentado no sofá amarelo, no apartamento onde vive com Andréa, ele projeta o futuro e relembra a infância pobre em Maceió, cidade onde nasceu - diz que matou muita aula para jogar bola, viu traficantes esfaquearem amigos.
- Quero continuar no futebol até a perna aguentar. Depois, minha ideia é abrir uma escolinha em Curitiba, ensinar a molecada a jogar.
- Não, amor - Andréa interrompe. - Teu nome é mais forte no Rio Grande do Sul. Em Curitiba, já tem escolinha do Tcheco, do Ricardinho.
- É, né? Mas pode ter em dois lugares - simplifica Gabiru, ainda pouco preocupado com o amanhã.
Por que Gabiru?
Gabiru é como chamam em Alagoas uma espécie de rato preto. Nos tempos de Atlético-PR, o goleiro alagoano Flávio lhe colocou o apelido devido ao corpo magro e à pele escura.