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Entrevista exclusiva

Marcel Stürmer reitera desabafo: "Sempre venci, no Brasil ou fora dele, na raça"

Patinador conversou com ZH após repercussão de reclamação por falta de apoio nas redes sociais

15/10/2012 - 19h09min

Atualizada em: 15/10/2012 - 19h09min


Antes da conquista na Nova Zelândia, Stürmer faturou outras quatro medalhas de bronze na mesma competição

Vice-campeão do mundial de patinação artística, o gaúcho Marcel Stürmer fez um desabafo após a conquista em seu site pessoal no último sábado. O texto foi reproduzido no perfil do patinador no Facebook e, até o meio da tarde de ontem, tinha 140 compartilhamentos e 829 "curtidas". O lajeadense de 27 anos ficou atrás apenas do italiano Dario Betti na classificação final do torneio realizado em Auckland, na Nova Zelândia. Repetiu a colocação do último mundial, em Brasília, no ano passado.

Após um tricampeonato Pan-Americano e figurar no segundo lugar do ranking mundial da modalidade, Stürmer esbravejou contra a falta de patrocínio e destacou o sofrimento em uma temporada marcada por uma lesão crônica no joelho esquerdo.

- Sofri demais nesta temporada, com problemas de patrocínio, mesmo após ter conquistado meu tri no Pan e o vice-campeonato mundial do ano passado. Ser o segundo melhor patinador do mundo tem um sabor muito especial - resumiu Marcel (leia a íntegra do desabafo abaixo).

Por telefone, em Auckland, Marcel Stürmer conversou com Zero Hora e explicou o texto:

- É um processo silencioso. Quando acontece uma medalha, quando fui assaltado no Pan (patinador teve seu material esportivo roubado horas antes de viajar para Guadalajara, no México) , todo mundo apoia, ama o esporte. Mas, e depois? Tenho certeza que aquilo ali não é só a minha história. Qualquer esporte tudo tem de ser perfeito. A busca pela perfeição é complicada, tem de ter um trabalho psicológico muito bom - disse Stürmer.


Zero Hora - Teu desabafo tem a ver com cabeça quente pela derrota ou foi consciente?
Marcel Stürmer
- Totalmente consciente. Já passaram dois dias da competição e falaria tudo aquilo de novo. O que escrevi é o que acontece para a maioria dos atletas. Não sou apenas eu quem passa por isso. É a realidade de muitos esportistas do Brasil.

ZH - Em teu site, há como patrocinadores o Banrisul e a Rye.
Stürmer
- Assinei o contrato no dia do embarque. Foi pela manhã. Viajei à tarde. Antes disso, a Rye (empresa especializada na fabricação de patins) me ajudava com os custos de dois treinadores, um preparador físico e um fisioterapeuta. Não tenho ajuda familiar, eu ajudo eles, na realidade.

ZH - Quantos torneios você disputa por ano?
Stürmer
- Uns oito. Três deles no Exterior.

ZH - E como você consegue a verba?
Stürmer
- Eu procuro as parcerias. Às vezes, amigos influentes. Neste mundial gastei, no mínimo, cerca de R$ 20 mil. Dinheiro de alimentação, passagens, aluguel de carro. São anos passando por aquela situação que narrei. Eu sou campeão brasileiro desde criança. Vivi uma pressão de sempre manter aquilo desde sempre, sem apoio. Sempre venci, no Brasil ou fora dele, na raça.

Confira na íntegra o texto postado por Marcel no Facebook:

Uma medalha de verdade

São 5h37min da manhã aqui em Auckland onde acabei de ganhar uma medalha de prata no Campeonato Mundial. Muitos de vocês pensam que conhecem minha história, aquela que eu comecei com seis anos no esporte, ganhei vários campeonatos, nasci para isso, tudo é bacana e tudo chega pra mim. Muitos do meio pensam que não fico nervoso para competir, que me acostumei a "ir bem", como se diz na patinação, que não sinto a pressão que fazem em cima de mim e coisas do tipo. Seria ótimo e muito mais produtivo para eu manter isso perante todo mundo, mas eu cansei. Aqui está de presente para você torcedor, amigo ou simpatizante, a realidade.

Dizem que para se ter uma coisa é necessário abrir mão de outra...

Hoje em dia, as pessoas não querem escutar a verdade, elas preferem o final fabricado, feito para agradar, de filme. Eu prefiro a verdade, pois ela liberta, e essa é a minha:

Algumas pessoas merecem um parabéns por essa medalha e eles não precisam de publicidade ou agradecimentos em Facebook. Eles sabem do seu valor.

Fora isso, essa medalha é MINHA! Egoísmo? Talvez uma realidade de alguém calejado por um meio de vaidades, alguém que confiou em muitos e teve essa confiança estraçalhada pelos mesmos muitos, que desejou boa sorte de coração e tropeçou no patins adversário, que teve que aprender a construir uma barreira para não se machucar mais, alguém que aprendeu que todos tinham interesses, alguém que muito cedo percebeu que se não fizesse sozinho não seria feito.

MINHA medalha porque só eu sei a dor de uma lesão crônica, a dor de ter água saindo dos olhos (naturalmente, sem esforço) todos os dias, meses de treino devido a essa lesão, a dor de uma injeção dentro do joelho, a dor de treinos inacabáveis por vezes sozinho, a dor de vários sábados à noite de cama fazendo gelo, a dor de muitas vezes não poder comer, a dor de ser diagnosticado com estresse e ter que continuar treinando, a dor de ter machucados no corpo causados por esse estresse ao ponto de não conseguir vestir uma camiseta e ter que disfarçar isso, a dor de ficar quase sem verba de treino no início do ano e não ter para onde recorrer, a dor de passar por tudo isso e mesmo assim uma semana antes do Mundial ainda não saber se poderá viajar por questões de saúde e de patrocínio. Essas dores, entre muitas outras que não me sinto confortável o suficiente aqui para descrever, e por também achar que vocês não teriam estômago para ler, só eu sei.

Essa medalha é verdadeira porque ela é, simplesmente, real. É feita de 20 anos de amor por um esporte desconhecido no Brasil. Ser o segundo melhor do mundo naquilo que você faz é muito difícil, mas ser o segundo do mundo sem ser político, sem ter um padrinho, sem ter um técnico influente, sem fazer uso de doping, sem desejar o mal a nenhum competidor, sem puxar o saco de ninguém ou ter uma mesa de juízes favorável é muito mais difícil. Então, da próxima vez que você ver um atleta brasileiro vencer alguma medalha independentemente da cor, você, agora, vai saber mensurar um pouco melhor o significado pessoal que essa conquista tem para ele.

DEUS, obrigado pelo presente! Eu sei de todos que fazem parte disso e vocês sabem quem são.


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