Entrevista
'Há um anseio da população', diz Lucas Maróstica, militante do Coletivo Juntos
Estudante esteve na redação de Zero Hora, onde falou sobre a onda de protestos e atos de vandalismo

O rosto mais visível dos protestos em Porto Alegre, com aparições quase diárias em ZH, Rádio Gaúcha, RBS TV e TVCom, é um estudante de Ciências Sociais que assume sem rodeios sua ligação partidária. Lucas Maróstica, 22 anos, é filiado ao PSOL, trabalha para a bancada do partido na Câmara de Porto Alegre e integra o Coletivo Juntos.
Coordenador do Juntos pelo Direito de Amar, que atua contra a homofobia, Lucas nasceu em Serafina Correia, mas cresceu em Guaporé.
Aos 18, veio para Porto Alegre, fez vestibular na PUC e lá descobriu a política estudantil. Depois, passou na UFRGS e concluiu que não quer ser jornalista: sua vocação é ser professor. Foi na luta política que conheceu a vereadora Fernanda Melchionna, com quem trabalha hoje.
Ontem, na Redação de ZH, ele falou por mais de uma hora. Leia a síntese da entrevista.
Zero Hora - Quais são as questões centrais nos protestos?
Lucas Maróstica - O povo quer que o dinheiro público seja investido em questões sociais. Há um desperdício muito grande desse dinheiro. Se o governo tivesse o empenho que está tendo com o dinheiro da Copa para as áreas sociais, muitos dos problemas talvez fossem resolvidos no país. A gente não vê esse esforço. Esse é um anseio geral da população, uma indignação que está batendo.
ZH - Vocês se preocupam com o fato de o excesso de causas acabar deixando os protestos sem foco?
Lucas - Temos muito essa preocupação. Primeiro, é um movimento das massas ocuparem as ruas e, como isso não acontecia há muitos anos, cada um faz a sua pauta. Então, 40, 50, 100, 200, não sabemos quantas são. A tendência é de que, agora que saiu o primeiro levante, as coisas se esclareçam. Nós, do Juntos, vamos trabalhar a nível nacional para construir determinados eixos. Eixo 1, redução da passagem em todo o país. Eixo 2, contra a criminalização dos movimentos sociais. Eixo 3, que os gastos investidos na Copa sejam investidos nas áreas sociais.
ZH - É impossível falar desse eixo dos movimentos sociais sem abordar os atos de vandalismo, com queima de ônibus e lixeiras e depredação de prédios. Como vocês avaliam esses atos?
Lucas - Há vários elementos que fazem com que essas coisas aconteçam. O primeiro, é a ação violenta da polícia. Teve um ato em que estávamos entre 100, 150 pessoas, e era um ato de estudantes do Ensino Médio. A gente chegou na frente da prefeitura e fomos recebidos a cassetada, spray de pimenta.
ZH - A queima de ônibus e de lixeiras, a depredação da revenda de motos, vocês não repudiam esses atos?
Lucas - Em São Paulo, cantaram a seguinte palavra de ordem: "Ah, que coincidência, sem polícia, sem violência".
ZH - Mas não teve polícia em frente à prefeitura e queimaram até uma van.
Lucas - Em São Paulo, é outro caso, tem outras questões envolvidas. Não vou entrar na questão de quem está praticando isso, mas acho o seguinte: a pessoa não tem acesso a serviços básicos, saúde e educação. Essas pessoas ficam tão isoladas, tão desamparadas do poder público, de ações sociais, que cria-se uma revolta grande, que às vezes é canalizada para esse tipo de ação.
ZH - Por que o repúdio à mídia?
Lucas - A capa que a ZH fez quando teve o primeiro ato na prefeitura foi lamentável. Foi uma capa extremamente mentirosa, colocou todos como baderneiros, vândalos.
ZH - Mas os veículos do Grupo RBS têm dado amplo espaço aos protestos.
Lucas - Acho que, a partir da análise de que começaram uma cobertura extremamente equivocada, se abriu mais espaço. A mídia estava deslocada da realidade. Ela sabia que a população estava ao nosso lado. A gente tem uma aceitação muito grande, temos um espaço que é merecido, a partir de trabalhar com veículos de comunicação, mas, tem reportagens, análises que são equivocadas.
ZH - Você não se incomoda de ver um ônibus queimando?
Lucas - O que não é normal é empresa roubar R$ 72 milhões dos cofres públicos, governos roubando da população sem parar, bilhões sendo investidos em iniciativa privada, como o Itaquerão, enquanto educação e saúde são um caos. Isso é que é absurdo, isso que não dá para engolir. Essa é a resposta do movimento em relação aos atos.
ZH - Então, para vocês, a palavra vandalismo não existe nas manifestações?
Lucas - Olha, chamamos de vandalismo as ações que os governos têm promovido contra a população.