Polícia



Balanço do Diário

A paz pela metade nos Territórios da Paz de Porto Alegre

Índice de homicídios só não diminui no Rubem Berta

22/09/2012 - 09h31min

Atualizada em: 22/09/2012 - 09h31min


Somados os homicídios nos quatro Territórios da Paz de Porto Alegre, os primeiros nove meses deste ano mostram uma queda de 12% nos índices em relação ao mesmo período de 2011. Um índice bem abaixo dos 50% que a Secretaria de Segurança Pública projeta para o segundo ano do RS na Paz. O projeto fez o volume de crimes nos quatro bairros baixar de 35% para 29% na comparação com o todo da cidade.

A Capital está dividida em dois pólos. Na Zona Sul, Restinga e Lomba do Pinheiro registraram queda de mortes, além do empate no Santa Teresa. Já na Zona Norte, o horror aumentou no Rubem Berta.

O que é o projeto

O RS na Paz foi implantado nos bairros Restinga, Lomba do Pinheiro, Santa Teresa e Rubem Berta na Capital. Na primeira etapa foram instalados postos móveis da BM. A Polícia Civil fez operações. Na segunda fase é a vez das ações sociais. O  policiamento ostensivo é trocado pelo comunitário.

Vítimas da lei do tráfico

A maioria dos crimes em Porto Alegre tem relação com o tráfico, em uma rotina difícil de controlar. É o que admite o comandante do 20º BPM, tenentecoronel Jeferson de Barros Jacques:

- Aumentamos o volume de apreensões de drogas e armas. Mas, a cada apreensão, é uma dívida criada no mundo do tráfico. Por  isso,  ainda precisamos aprimorar, em apoio com a Polícia Civil, a investigação sobre os caminhos das drogas e chegar aos que comandam, porque a cobrança é implacável. Especialmente com o crescimento dos Bala na Cara.

Para o diretor de investigações do Denarc, delegado Heliomar Franco, o cenário poderia ser ainda pior:

- As operações e apreensões nessa  região são constantes.E tivemos bons resultados. Se não tivesse essa ação, talvez o número de mortes fosse ainda maior.

Rubem Berta: drama aumentou

O relógio beirava as 20h do dia 18 de julho quando três homens entraram no salão de beleza do Baiano e descarregaram a arma num cliente. É um ponto movimentado do Bairro Rubem Berta, e eles não se sentiram acuados pela polícia. Entre os moradores, a avenida foi rebatizada, como conta o líder comunitário Cleusi Coelho da Rosa, 66 anos:

- A Avenida Adelino Ferreira Jardim virou a "Avenida da Morte". Era para ser área de paz, mas isso não existe. Guris que vimos crescer estão nas drogas e as autoridades ignoram.

A avenida está no centro do Território da Paz que abrange a maior população - 87,3 mil pessoas. A implantação do RS na Paz no bairro tinha o objetivo de travar os índices. Um ano depois, crimes como o do salão são comuns a metros do 20º BPM.

Pelo levantamento do Diário Gaúcho, entre 1º de janeiro e 13 de setembro de 2011, quando o ônibus da BM estacionou na Praça México, o bairro teve 34 assassinatos. No mesmo período desse ano - apesar do reforço de brigadianos vindos do Interior -, foram 45: aumento de 32,3%.

Dos quatro amigos de infância do filho de Cleusi, três já morreram. Ele enumera entre os blocos da Cohab e os estabelecimentos comerciais os lugares onde nove jovens foram mortos recentemente.

- Esse negócio de Território da Paz aqui é de brinquedo, né? Quando precisamos, eles (PMs) não estão - chia uma moradora.

Prima do executado no salão, ela admite viver com medo:

- Sempre pensei que fosse seguro, mas a gente não sabe mais quem é quem.

A migração do crime

Se a metros da base da BM do Rubem Berta a situação ainda é de medo, nas áreas mais afastadas o crime cresceu.

- Aqui tem tiro na esquina direto. O jeito é tapar os ouvidos e correr para casa - conta Juraci da Silva, 41 anos, da Vila Vitória da Conquista.

A Vila Santa Rosa é outro local onde houve crescimento dos homicídios, mesmo a partir da chegada dos PMs do Interior. Na conta da migração dos casos, pode ser incluído o bairro vizinho Mario Quintana. Lá, de acordo com o levantamento do DG,
o número aumentou quase 20% desde a criação do projeto.

Nesses pontos, a comunidade ainda convive com a falta de estrutura. Muitos itens prometidos no lançamento do RS na Paz não chegaram.

- Ficamos três meses sem luz. Exigiram que a gente comprasse o poste, mas não ligaram a energia. A escuridão só ajuda o bandido - lamenta Juraci.

A migração dos crimes é admitida pelo batalhão. Por isso, ocorrerá uma redistribuição de PMs.

Santa Teresa: um alento para os moradores

Descendo a ladeira da Rua Nossa Senhora do Brasil, no Bairro Santa Teresa, uma casa de esquina é símbolo de dias melhores. Com pintura recém feita, a inscrição "Associação dos Moradores da Nossa Senhora do Brasil" está novamente visível. Até a chegada do RS na Paz, o local servia, basicamente, para bailes funk com a anuência de traficantes.

Pois as chaves foram retomadas, e ela abrigará, em breve, o posto fixo do território.

- Para mim, a chegada da Brigada foi uma bênção. Já não dormia com medo dos tiros. Vivo tranquila - agradece Vilma Kollett,
62 anos, que mora ao lado de onde hoje está o micro do 1º BPM.

O índice de homicídios foi estabilizado. Até 13 de setembro deste ano, aconteceram 18 assassinatos, assim como no mesmo
período de 2011.

Até a metade do ano passado, a maior parte dos crimes acontecia no eixo da Rua Dona Malvina. Agora, estão na região da Vila Cruzeiro.

- Só fico mais calmo porque todos me conhecem aqui, mas é impressionante o que essa droga está fazendo. A gurizada está se perdendo. A gente vê a Brigada aqui, mas parece que não adianta - constata Ireno Colones, 58 anos.

Ele assistiu de casa, na semana passada, à execução de mais um jovem. Este, dentro de um ônibus. A morte estaria vinculada a um confronto entre grupos que duelam por pontos de venda de crack.

Lomba do Pinheiro: questão de espaço

Pelo menos moradores e comerciantes que ficam junto ao entroncamento da Estrada São Francisco com a Estrada Afonso Lourenço Mariante, no Bairro Lomba do Pinheiro, estão  satisfeitos. Lá, os tiroteios cessaram, os estabelecimentos não foram mais assaltados nem o tráfico tem ocorrido. O Posto Móvel da Brigada parece ter intimidado quem praticava crimes.

- Eu tinha uma loja na Parada 16 e mudei pra cá há três meses. Lá tinha sido assaltado. Aqui, não - comenta um comerciante de
59 anos.

Outro comerciante, de 48 anos, reclama:

- Para quem está aqui perto do ônibus está ótimo. Mas quem anda 200m para cima ou para baixo da Afonso, continuam os tiroteios.

Pois foi a menos de 1km dali, na Estrada São Francisco, que Jorge Augusto Valim Ribeiro, 15 anos, foi morto a tiros em 21 de junho. O motivo dado pela polícia: briga entre gangues da Vila Mapa e Quinta do Portal.

Na esquina de duas das principais vias do bairro, o posto móvel era uma das ações do Território de Paz, quando a Lomba registrava 20 homicídios em 2011. No mesmo período deste ano, foram 11 assassinatos.

A diminuição dos homicídios não trouxe sensação de segurança aos moradores. A reclamação geral é de que posto móvel só fez com que os tiroteios deixassem de acontecer ali, para ocorrer em outros lugares do bairro. O mesmo ocorre com o tráfico e os assaltos.

- Faz 15 dias assaltaram a filha do vizinho, outra guria, uma senhora e um guri na rua de trás. Tudo na Estrada da Pedreira. É uma dupla de moto que ataca quem está na parada e outros dois que descem do ônibus e assaltam quem está passando - conta um serralheiro aposentado, 61 anos, há 21 morador do bairro.

Restinga: redução pela metade

Primeiro dos quatro territórios instalados na Capital, o Território de Paz da Restinga é o que apresenta melhor resultado. Recordista no primeiro semestre de 2011, o bairro recebeu o posto móvel quando registrava 35 mortes, uma a mais que o Rubem Berta até aquele 6 de setembro.

- As pessoas não saíam mais de casa depois das 17h, com medo de uma bala perdida - lembra o pastor batista Felix Buava Kila, 42 anos, morador da Tinga há 35 anos.

O conflito entre quadrilhas de traficantes perto da Rua Belize, na Restinga Velha, fez com que o ônibus fosse colocado lá. Um ano depois, parece que as ações combinadas entre Polícia Civil e Brigada surtiram efeito. A queda nos assassinatos é de 42,8%.

- Não existem mais os tiroteios que muitas vezes interrompiam até mesmo as ações sociais na comunidade. Mas ainda existem os acertos de contas - conta a coordenadora do Fórum de Justiça e Segurança da Restinga, Leila Azevedo, 53 anos, moradora da Restinga há 36 anos.

Mas o fim dos confrontos e a prisão de alguns traficantes da Restinga Velha geraram um problema à comunidade: o consumo de drogas em vias públicas. Antes, os usuários evitavam circular entre os pontos, justamente pelo medo dos tiroteios. Acabavam consumindo em casa ou em locais fechados.

Criaram-se vários fumódromos pela Restinga Velha, que os moradores estão chamando de bretes.

- Com o fim dos tiroteios, os usuários também passam a circular mais. Aí se formaram essas ilhas de consumo de drogas - conta o pastor batista, que também atua no Programa Socioeducativo Geração de Samuel, da Igreja Batista, atendendo a 150 pessoas de seis a 24 anos.

Comparativos

Rubem Berta
Janeiro a 13 de setembro/2011: 34 homicídios
Janeiro a 13 de setembro/2012: 45 homicídios
Aumento de 32,3%

Restinga
De 35 para 20: redução de 42,8%

Lomba do Pinheiro
De 20 para 11: redução de 45%

Santa Teresa
Mantido em 18 casos

Total
De 107 para 94: redução de 12,1%

Casos diminuíram, diz BM

- O território ainda não deu certo, mas tende a funcionar.

A afirmação é do comandante do 20º BPM, tenente-coronel Jeferson de Barros Jacques, que contesta os dados do Diário. Segundo ele, pelo levantamento da Brigada, houve redução de mais de 30% nos homicídios. A explicação passa por uma alteração: a BM reduziu a área entendida como território. Ou seja: alguns locais que alimentaram a contabilidade em 2011 não entraram na estatística de 2012.

Comandante do 1º BPM, o tenente-coronel Altemir Silva de Lima admite que não houve a redução desejada, mas valoriza a estabilização:

- Se continuasse naquele ritmo, teríamos o dobro de mortes hoje.

Duas das três viaturas que atuam no local estão quebradas.

"Estamos no caminho certo"

Coordenador do RS na Paz, o delegado Carlos Roberto Santana falou suas impressões sobre o projeto.

Diário Gaúcho - Na Restinga e na Lomba houve redução. Por que não no Rubem Berta?
Carlos Santana - Sinceramente, não sei. Ainda estamos em fase de análise de todos os fatores. Cada bairro tem uma dinâmica  criminal. Se outras estruturas do projeto funcionam, é porque não está tudo errado no Rubem Berta. É o mesmo programa na Restinga e lá dá certo. Talvez porque a Restinga já tenha uma tradição de envolvimento comunitário diferente.

Diário - Houve erro de planejamento?
Carlos - Não. Se o bairro é maior, tem que dimensionar o projeto para isso, não há falta de pessoal. Independentemente do número de bases, há um bairro com suas nuances a ser priorizado. A Restinga não é pequena, a diferença talvez se dê porque, lá, a polícia teve mais tempo para investigar.

Diário - A redução do número de homicídios é suficiente?
Carlos - A estabilização dos números já é um bom sinal. Indica que estamos no caminho certo.


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