Balanço do Diário
A paz pela metade nos Territórios da Paz de Porto Alegre
Índice de homicídios só não diminui no Rubem Berta

Somados os homicídios nos quatro Territórios da Paz de Porto Alegre, os primeiros nove meses deste ano mostram uma queda de 12% nos índices em relação ao mesmo período de 2011. Um índice bem abaixo dos 50% que a Secretaria de Segurança Pública projeta para o segundo ano do RS na Paz. O projeto fez o volume de crimes nos quatro bairros baixar de 35% para 29% na comparação com o todo da cidade.
A Capital está dividida em dois pólos. Na Zona Sul, Restinga e Lomba do Pinheiro registraram queda de mortes, além do empate no Santa Teresa. Já na Zona Norte, o horror aumentou no Rubem Berta.
O que é o projeto
O RS na Paz foi implantado nos bairros Restinga, Lomba do Pinheiro, Santa Teresa e Rubem Berta na Capital. Na primeira etapa foram instalados postos móveis da BM. A Polícia Civil fez operações. Na segunda fase é a vez das ações sociais. O policiamento ostensivo é trocado pelo comunitário.
Vítimas da lei do tráfico
A maioria dos crimes em Porto Alegre tem relação com o tráfico, em uma rotina difícil de controlar. É o que admite o comandante do 20º BPM, tenentecoronel Jeferson de Barros Jacques:
- Aumentamos o volume de apreensões de drogas e armas. Mas, a cada apreensão, é uma dívida criada no mundo do tráfico. Por isso, ainda precisamos aprimorar, em apoio com a Polícia Civil, a investigação sobre os caminhos das drogas e chegar aos que comandam, porque a cobrança é implacável. Especialmente com o crescimento dos Bala na Cara.
Para o diretor de investigações do Denarc, delegado Heliomar Franco, o cenário poderia ser ainda pior:
- As operações e apreensões nessa região são constantes.E tivemos bons resultados. Se não tivesse essa ação, talvez o número de mortes fosse ainda maior.
Rubem Berta: drama aumentou
O relógio beirava as 20h do dia 18 de julho quando três homens entraram no salão de beleza do Baiano e descarregaram a arma num cliente. É um ponto movimentado do Bairro Rubem Berta, e eles não se sentiram acuados pela polícia. Entre os moradores, a avenida foi rebatizada, como conta o líder comunitário Cleusi Coelho da Rosa, 66 anos:
- A Avenida Adelino Ferreira Jardim virou a "Avenida da Morte". Era para ser área de paz, mas isso não existe. Guris que vimos crescer estão nas drogas e as autoridades ignoram.
A avenida está no centro do Território da Paz que abrange a maior população - 87,3 mil pessoas. A implantação do RS na Paz no bairro tinha o objetivo de travar os índices. Um ano depois, crimes como o do salão são comuns a metros do 20º BPM.
Pelo levantamento do Diário Gaúcho, entre 1º de janeiro e 13 de setembro de 2011, quando o ônibus da BM estacionou na Praça México, o bairro teve 34 assassinatos. No mesmo período desse ano - apesar do reforço de brigadianos vindos do Interior -, foram 45: aumento de 32,3%.
Dos quatro amigos de infância do filho de Cleusi, três já morreram. Ele enumera entre os blocos da Cohab e os estabelecimentos comerciais os lugares onde nove jovens foram mortos recentemente.
- Esse negócio de Território da Paz aqui é de brinquedo, né? Quando precisamos, eles (PMs) não estão - chia uma moradora.
Prima do executado no salão, ela admite viver com medo:
- Sempre pensei que fosse seguro, mas a gente não sabe mais quem é quem.
A migração do crime
Se a metros da base da BM do Rubem Berta a situação ainda é de medo, nas áreas mais afastadas o crime cresceu.
- Aqui tem tiro na esquina direto. O jeito é tapar os ouvidos e correr para casa - conta Juraci da Silva, 41 anos, da Vila Vitória da Conquista.
A Vila Santa Rosa é outro local onde houve crescimento dos homicídios, mesmo a partir da chegada dos PMs do Interior. Na conta da migração dos casos, pode ser incluído o bairro vizinho Mario Quintana. Lá, de acordo com o levantamento do DG,
o número aumentou quase 20% desde a criação do projeto.
Nesses pontos, a comunidade ainda convive com a falta de estrutura. Muitos itens prometidos no lançamento do RS na Paz não chegaram.
- Ficamos três meses sem luz. Exigiram que a gente comprasse o poste, mas não ligaram a energia. A escuridão só ajuda o bandido - lamenta Juraci.
A migração dos crimes é admitida pelo batalhão. Por isso, ocorrerá uma redistribuição de PMs.
Santa Teresa: um alento para os moradores
Descendo a ladeira da Rua Nossa Senhora do Brasil, no Bairro Santa Teresa, uma casa de esquina é símbolo de dias melhores. Com pintura recém feita, a inscrição "Associação dos Moradores da Nossa Senhora do Brasil" está novamente visível. Até a chegada do RS na Paz, o local servia, basicamente, para bailes funk com a anuência de traficantes.
Pois as chaves foram retomadas, e ela abrigará, em breve, o posto fixo do território.
- Para mim, a chegada da Brigada foi uma bênção. Já não dormia com medo dos tiros. Vivo tranquila - agradece Vilma Kollett,
62 anos, que mora ao lado de onde hoje está o micro do 1º BPM.
O índice de homicídios foi estabilizado. Até 13 de setembro deste ano, aconteceram 18 assassinatos, assim como no mesmo
período de 2011.
Até a metade do ano passado, a maior parte dos crimes acontecia no eixo da Rua Dona Malvina. Agora, estão na região da Vila Cruzeiro.
- Só fico mais calmo porque todos me conhecem aqui, mas é impressionante o que essa droga está fazendo. A gurizada está se perdendo. A gente vê a Brigada aqui, mas parece que não adianta - constata Ireno Colones, 58 anos.
Ele assistiu de casa, na semana passada, à execução de mais um jovem. Este, dentro de um ônibus. A morte estaria vinculada a um confronto entre grupos que duelam por pontos de venda de crack.
Lomba do Pinheiro: questão de espaço
Pelo menos moradores e comerciantes que ficam junto ao entroncamento da Estrada São Francisco com a Estrada Afonso Lourenço Mariante, no Bairro Lomba do Pinheiro, estão satisfeitos. Lá, os tiroteios cessaram, os estabelecimentos não foram mais assaltados nem o tráfico tem ocorrido. O Posto Móvel da Brigada parece ter intimidado quem praticava crimes.
- Eu tinha uma loja na Parada 16 e mudei pra cá há três meses. Lá tinha sido assaltado. Aqui, não - comenta um comerciante de
59 anos.
Outro comerciante, de 48 anos, reclama:
- Para quem está aqui perto do ônibus está ótimo. Mas quem anda 200m para cima ou para baixo da Afonso, continuam os tiroteios.
Pois foi a menos de 1km dali, na Estrada São Francisco, que Jorge Augusto Valim Ribeiro, 15 anos, foi morto a tiros em 21 de junho. O motivo dado pela polícia: briga entre gangues da Vila Mapa e Quinta do Portal.
Na esquina de duas das principais vias do bairro, o posto móvel era uma das ações do Território de Paz, quando a Lomba registrava 20 homicídios em 2011. No mesmo período deste ano, foram 11 assassinatos.
A diminuição dos homicídios não trouxe sensação de segurança aos moradores. A reclamação geral é de que posto móvel só fez com que os tiroteios deixassem de acontecer ali, para ocorrer em outros lugares do bairro. O mesmo ocorre com o tráfico e os assaltos.
- Faz 15 dias assaltaram a filha do vizinho, outra guria, uma senhora e um guri na rua de trás. Tudo na Estrada da Pedreira. É uma dupla de moto que ataca quem está na parada e outros dois que descem do ônibus e assaltam quem está passando - conta um serralheiro aposentado, 61 anos, há 21 morador do bairro.
Restinga: redução pela metade
Primeiro dos quatro territórios instalados na Capital, o Território de Paz da Restinga é o que apresenta melhor resultado. Recordista no primeiro semestre de 2011, o bairro recebeu o posto móvel quando registrava 35 mortes, uma a mais que o Rubem Berta até aquele 6 de setembro.
- As pessoas não saíam mais de casa depois das 17h, com medo de uma bala perdida - lembra o pastor batista Felix Buava Kila, 42 anos, morador da Tinga há 35 anos.
O conflito entre quadrilhas de traficantes perto da Rua Belize, na Restinga Velha, fez com que o ônibus fosse colocado lá. Um ano depois, parece que as ações combinadas entre Polícia Civil e Brigada surtiram efeito. A queda nos assassinatos é de 42,8%.
- Não existem mais os tiroteios que muitas vezes interrompiam até mesmo as ações sociais na comunidade. Mas ainda existem os acertos de contas - conta a coordenadora do Fórum de Justiça e Segurança da Restinga, Leila Azevedo, 53 anos, moradora da Restinga há 36 anos.
Mas o fim dos confrontos e a prisão de alguns traficantes da Restinga Velha geraram um problema à comunidade: o consumo de drogas em vias públicas. Antes, os usuários evitavam circular entre os pontos, justamente pelo medo dos tiroteios. Acabavam consumindo em casa ou em locais fechados.
Criaram-se vários fumódromos pela Restinga Velha, que os moradores estão chamando de bretes.
- Com o fim dos tiroteios, os usuários também passam a circular mais. Aí se formaram essas ilhas de consumo de drogas - conta o pastor batista, que também atua no Programa Socioeducativo Geração de Samuel, da Igreja Batista, atendendo a 150 pessoas de seis a 24 anos.
Comparativos
Rubem Berta
Janeiro a 13 de setembro/2011: 34 homicídios
Janeiro a 13 de setembro/2012: 45 homicídios
Aumento de 32,3%
Restinga
De 35 para 20: redução de 42,8%
Lomba do Pinheiro
De 20 para 11: redução de 45%
Santa Teresa
Mantido em 18 casos
Total
De 107 para 94: redução de 12,1%
Casos diminuíram, diz BM
- O território ainda não deu certo, mas tende a funcionar.
A afirmação é do comandante do 20º BPM, tenente-coronel Jeferson de Barros Jacques, que contesta os dados do Diário. Segundo ele, pelo levantamento da Brigada, houve redução de mais de 30% nos homicídios. A explicação passa por uma alteração: a BM reduziu a área entendida como território. Ou seja: alguns locais que alimentaram a contabilidade em 2011 não entraram na estatística de 2012.
Comandante do 1º BPM, o tenente-coronel Altemir Silva de Lima admite que não houve a redução desejada, mas valoriza a estabilização:
- Se continuasse naquele ritmo, teríamos o dobro de mortes hoje.
Duas das três viaturas que atuam no local estão quebradas.
"Estamos no caminho certo"
Coordenador do RS na Paz, o delegado Carlos Roberto Santana falou suas impressões sobre o projeto.
Diário Gaúcho - Na Restinga e na Lomba houve redução. Por que não no Rubem Berta?
Carlos Santana - Sinceramente, não sei. Ainda estamos em fase de análise de todos os fatores. Cada bairro tem uma dinâmica criminal. Se outras estruturas do projeto funcionam, é porque não está tudo errado no Rubem Berta. É o mesmo programa na Restinga e lá dá certo. Talvez porque a Restinga já tenha uma tradição de envolvimento comunitário diferente.
Diário - Houve erro de planejamento?
Carlos - Não. Se o bairro é maior, tem que dimensionar o projeto para isso, não há falta de pessoal. Independentemente do número de bases, há um bairro com suas nuances a ser priorizado. A Restinga não é pequena, a diferença talvez se dê porque, lá, a polícia teve mais tempo para investigar.
Diário - A redução do número de homicídios é suficiente?
Carlos - A estabilização dos números já é um bom sinal. Indica que estamos no caminho certo.