Polícia



Contra a criminalidade

Projetos sociais são esperança para fugir da violência

Alto índice de criminalidade acende alerta em pais e nas comunidades em que o tráfico está inserido

28/11/2012 - 07h22min

Atualizada em: 28/11/2012 - 07h22min


Projeto social Geração de Samuel oferece auxílio na Restinga

A Região Metropolitana, com 1.024 mortes em 2012, tem índice de violência três vezes maior do que o tolerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). E aumento de 12% em relação a 2011, segundo planilha do Diário Gaúcho.

Na falta de medidas efetivas do governo, o que o cidadão pode fazer para escapar de engordar a lista de homicídios? A reportagem ouviu policiais e um psicólogo, e encontrou uma iniciativa que tenta encaminhar crianças e jovens para longe das drogas - presente em cerca de 70% das mortes.

Pelo caminho da educação

Num triângulo formado por ruas dominadas por três gangues - os Madeireiras, os Miltons e os Evangelistas - está um prédio grafitado onde nasceu um fio de esperança para jovens que moram na Restinga Velha.

- Há seis meses, os tiroteios eram diários. Agora, cessaram. O ponto de tráfico que ficava na esquina se mudou para longe. Acho que ficaram intimidados com as crianças e com pais vindo participar das atividades - conta o pastor Felix Buava Kila, 42 anos, com um largo sorriso no rosto.

Félix coordena o projeto social Geração de Samuel, que funciona na Missão Batista Shekinah, na Avenida Meridional, uma das mais movimentadas da Restinga Velha.

Uma história de superação

Dentro do prédio, cartazes das crianças, frases que ensinam valores e lições de educação e cidadania tomam conta das paredes. No chão, um grupo de 30 crianças de sete a 13 anos tem aulas com uma professora voluntária e com uma oficineira. Nas segunda, quartas e sextas-feiras, o espaço é ocupado pelos adolescentes de 14 a 18 anos, que aprendem noções de cidadania e de informática.

- Um dos meninos trabalhava para o tráfico como aviãozinho (quem leva droga do vendedor ao usuário) para manter o vício em maconha e cigarro. Agora, largou esse trabalho e está procurando um estágio - contou Felix, orgulhoso.

Histórias como essas são frequentes no projeto. Os próprios traficantes, segundo o pastor, batem à porta da ong pedindo vagas para os filhos - não querem para eles o mesmo destino.

Projeto Geração de Samuel

Rua Meridional, 415, na Restinga Velha, Bairro Restinga.
Terças e quintas à tarde acontecem atividades para crianças de sete a 13 anos.
Segundas, quartas e sextas funciona um convênio com a Fasc.
Há ainda aulas de violão e balé. A ong vive de doações e trabalho de voluntários.

Para não brincar de tiro e tráfico

- Cada criança que a gente conquista com livros, educação, música ou dança já é uma vitória.

A frase é da filha do pastor Felix, Maiara Kila, 25 anos.Estudante de Pedagogia, ela trabalha com adolescentes e crianças no projeto, um convênio com a Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc).

- Tem dias em que eles batem aqui e perguntam: "tia, hoje tem aula"? Não temos condições de atender a todos. Tem algumas que ainda brincam de traficar e de tiroteio no meio da rua - diz Maiara.

Até 2010, quando o projeto foi fundado, não havia cursos para os jovens da Restinga Velha. Cruzar a Avenida João Antônio da Silveira e ir à Restinga Nova era arriscado, já que os bandos da Velha não se dão com os da Nova.

- Os mais interessados iam para o Centro fazer cursos. Todos os projetos sociais funcionavam na Nova, e a gurizada da Velha não conseguia ir - conta o Pastor.

Agora, há uma opção. A gurizada quer tanto que nem tem deixado o curso depois da formatura. Preferem as salas do projeto às ruas mal calçadas.

Um tribunal cruel

- A droga vence quando não há adversário.

A frase repetida pelo psicólogo Leandro Lopez da Silva é um lema de especialistas em prevenção ao vício. E abre o leque de motivos para que seja cada vez mais curta a distância entre a primeira "pedra" e a morte.

A maior parte das mortes, de acordo com o delegado Luciano Peringer, tem conflitos entre rivais no tráfico:

- A dívida é constante nesses homicídios. Um usuário endividado pode se submeter às regras da quadrilha e atuar para ela. Ou vira alvo dos criminosos.

É que o tráfico se vale da ausência do Estado para se estabelecer. Um viciado com dívidas facilmente envereda para outros crimes, como furtos.

- Matar o usuário é uma forma de manter o controle por parte do traficante - diz Luciano.

São mortes que têm o silêncio na gênese. Para Leandro, a falta de diálogo em casa é determinante para que o jovem siga o caminho das drogas.

Segundo Leandro, iniciativas da comunidade - mesmo sem o poder público - são fundamentais:

- O jovem precisa de grupos para ser ouvido. E nem é preciso falar de drogas.

De olho nos filhos

Fique atento a mudanças bruscas de comportamento.
Quedas acentuadas nas notas da escola ou aumento das faltas são sinais de que algo está errado.
As mudanças de comportamento são comuns a meninos. Entre meninas, o padrão é crise de depressão.
Mantenha sempre diálogos francos com o seu filho.
Faça questão de conhecer os amigos dos seus filhos e suas famílias.

Jovens matam e morrem cada vez mais

Jovens assassinados não são novidade. Pelo menos a metade dos 1.024 homicídios registrados esse ano na Região Metropolitana, conforme planilha do Diário, diz respeito a pessoas com menos de 30 anos. A novidade preocupante, segundo o delegado Luciano Peringer, está no perfil de quem mata:

- É comum deparar com homicidas de 15 ou 16 anos, tão ou mais violentos que adultos.

Exemplo disso é a Restinga, onde três bandos disputam à bala os pontos de tráfico. Entre o final de 2011 e o começo de 2012, boa parte da gurizada envolvida na guerra foi apreendida. Nos últimos meses, quando voltaram às ruas, encontraram o mesmo cenário favorável ao crime. E os crimes motivados pelo tráfico voltaram a acontecer.

De acordo com o diretor de investigações do Denarc, delegado Heliomar Franco, com a prisão de grandes traficantes, os jovens "herdam" as bocas.

- Quem morre são os aviãozinhos, olheiros e usuários. À medida em que os mais novos vão sendo arregimentados, forçam o confronto. O tráfico não tem SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), então o jeito de resolver é com a morte - compara Heliomar.

Dicas de socorro

Para conseguir auxílio:

No caso do menor de idade, o conselheiro tutelar tem autonomia no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para requerer avaliação médica, ambulatorial ou hospitalar.

Também o Ministério Público (MP) pode dar encaminhamento nesses casos, independentemente da idade.

Se não houver vagas no sistema público (Hospital São Pedro, na Capital), o MP pode requerer que o município pague a internação.

Quando o usuário se nega a fazer tratamento, a saída é a família solicitar para um psiquiatra uma avaliação da pessoa. O laudo com a situação do paciente deve ser encaminhado a um advogado para entrar com uma ação na Justiça.

Onde buscar ajuda e fazer denúncias:

Cruz Vermelha
O atendimento é gratuito, mas é preciso tirar ficha no local, que abre às 8h. Telefone: 3311-5140. Endereço: Av. Independência, 993, Bairro Independência, Porto Alegre

Plantão do Conselho Tutelar
Telefone 3226-5788

Departamento Estadual da Criança e do Adolescente (Deca)
Telefone 0800 541 6400

Associação Porto-Alegrense de Amor Exigente (Apaex)
Há grupos de apoio gratuitos. Para atendimento psicológico, é cobrada uma quantia de acordo com a renda. A Apaex tem grupos em 33 cidades. Telefone: 3225-2768. Endereço: Avenida Borges de Medeiros, 453, Centro da Capital.

Serviço Interconfessional de Aconselhamento (Sica)
Telefone 3224-7877

Delegado dá sua fórmula

Para quem atua na repressão ao tráfico, a compra de um baseado (cigarro de maconha) está longe de ser inocente.

- A maconha é a droga mais consumida, disparado, na Região Metropolitana. Quando o usuário compra um baseado, está colocando dinheiro na mão de traficante, que vai girar o seu sistema com mais crack. E consequentemente mais mortes - aponta o delegado Heliomar.

Segundo ele, o freio no tráfico só acontecerá quando três itens, além do policiamento, forem concretizados: controle da entrada de drogas nas fronteiras, campanhas eficientes para desestimular o uso da droga e ações sociais efetivas na regiões conflagradas pelo tráfico.


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