Polícia



Relatório de matador

Confissões do matador dos Bala na Cara

O relato de um soldado da quadrilha, que teve que deixar o Rio Grande do Sul para não ser assassinado

14/09/2013 - 10h48min

Atualizada em: 14/09/2013 - 10h48min


Entrar para a principal facção criminosa do Estado é fácil. Dia a dia, os mais antigos tentam recrutar novos membros - de preferência, menores de idade. O problema é na hora de sair. Se depender dos comandantes dos Bala na Cara, só tem um jeito: em um caixão. A seguir, o Diário Gaúcho mostra o relato de um soldado da quadrilha, que resolveu deixar de lado a vida de crimes e teve de deixar o Rio Grande do Sul para não ser assassinado.


Como uma firma


"Na primeira vez que eu matei, corri para minha casa, me tranquei e fiquei uma semana chorando. Depois, foi tranquilo, só matava bandido mesmo.


O relato é de um jovem de 24 anos. Natural do Bairro Bom Jesus, na Capital, por mais de cinco anos ele foi considerado um "matador de conceito" entre os Bala na Cara. Chegou a ganhar R$ 5 mil por morte. Agora, vive escondido. Na semana passada, vestindo roupas emprestadas por um primo, antes de deixar o Estado, desabafou ao Diário Gaúcho.


Ele diz estar arrependido do histórico de crimes. Tentou sair da quadrilha, mas conhece bem as regras. A facção que mais cresceu nos últimos anos nas cadeias gaúchas e nas regiões dominadas pelo tráfico na Região Metropolitana funciona como uma firma. Tem contratos, consórcios, plano de carreira e regulamento próprio. Mas sem rescisão. Uma vez dentro, não há como sair.


O matador arrependido não confia na polícia e está sentenciado pelos Bala. Lembra bem da lição que ele próprio diz ter dado em 2011, quando um gerente foi "traíra" com o bando. Acabou queimado no Morro Santana.


- Era tudo muito fácil. Quando tinha algum "serviço" para mim, os caras botavam uma arma na minha mão e 2g de cocaína para ficar louco. Tinha moto, carro, dinheiro e mulheres. Eu tinha tevê de plasma, computador, celular, ajudava minha avó. Olha o que sobrou - conta.


De vapozeiro a matador


Ao virar pai, ele teria sido convencido pela família a se afastar do crime. Partia, na última semana, para a sua segunda tentativa de fuga. Pelo seu relato, foram pelo menos cinco homicídios nesse período. Desde a eliminação de resistentes no território original dos Bala na Cara até execuções na Zona Sul da Capital. Quando em "missão", lembra que chegou a receber até R$ 1 mil por semana.


- Comecei guardando droga para os caras, depois fui vapozeiro. Vendia os "bagulho" para eles e via como os caras cresciam na vila. Eu também queria isso para mim e fui batizado. Aí, ganhei respeito - diz.


O "batismo" foi eliminar um desafeto. E, nos Bala, quem mata tem prestígio de especialista: atua por demanda e tem os mandamentos da facção - seguindo o modelo das facções paulistas e cariocas - como dogma. Deixa de trabalhar nas bocas de fumo. Se, por ventura, for preso, entra na cadeia com proteção garantida.


- Preso eu nunca fui. Só fiquei umas três horas na cadeia porque me pegaram com um carro roubado. E não quero isso para mim - afirma.


A caçada aos inimigos:


- A cena de três casas incendiando no Beco Um da Rua 18, no Bairro Bom Jesus, na madrugada de 25 de agosto de 2011, chocou a comunidade. Uma costureira de 67 anos, a filha, netos e bisnetos foram poupados. O terror era um recado a dois filhos da costureira, integrantes dos Banha, que até o começo deste ano ameaçavam o controle do tráfico dominado pelos Bala.


- O matador admite que estava no bando que invadiu e incendiou a casa: "Nós avisamos que ia descer ali. Não levaram fé. Só poupamos a tiazinha, que não tinha nada a ver. Chegamos a trocar tiros com eles mais cedo e depois também."


- Dias depois, um dos alvos teria sido morto no Campo da Tuca, Zona Leste da Capital.


Matador descoberto em Canoas


Em maio, a apreensão de um adolescente de 14 anos, em Canoas, mostrou como funciona o aliciamento de matadores nos Bala. Apesar da pouca idade, o guri já era encarado como um dos pistoleiros de maior confiança no bando.


Ele está no crime desde os oito anos.


- Tenho sangue nos olhos - disse o guri aos policiais.


Ele teria sido levado do Bairro Mario Quintana, onde a facção tem uma de suas bases, para a Região Metropolitana (a polícia não sabe qual cidade). Objetivo: eliminar um desafeto dos Bala.


Em depoimento à Delegacia de Homicídios de Canoas, o adolescente confirmou que, antes do crime ocorrido no dia 6 de maio, já havia matado outras pessoas. Em todos os casos, disse, alguém "abraçou a bronca" para ele.


SOB A PROTEÇÃO DO ESTADO


O método dos Bala na Cara, de eliminar quem tenta abandonar a quadrilha, não é novidade para a polícia. De acordo com o diretor de investigações do Departamento de Homicídios, delegado Cristiano Reschke, o temor é constante entre testemunhas envolvidas no tráfico.


- Eles sabem que, se falarem, viram alvo. Quando pensam em sair, é porque sabem muito sobre a quadrilha. A lógica deles é de que essa pessoa pode dar com a língua nos dentes ou passar informações a rivais - afirma o delegado.


Segundo ele, porém, há uma saída para diminuir a impunidade. Mas exige confiança nas instituições públicas. Neste ano, duas pessoas foram encaminhadas pelo departamento ao Programa de Proteção a Testemunhas (Protege). Ambas fugiam da quadrilha.


O programa é coordenado pela Secretaria Estadual de Justiça e Direitos Humanos. Atualmente, 43 pessoas vivem sob proteção. A maior parte, atemorizada por traficantes. A entrada no Protege é analisada por um conselho específico.


Proteção para o matador:


- Ele nunca foi preso. Até o ano passado, uma família no Bairro Bom Jesus era custeada semanalmente por ele. É o pagamento por um adolescente, internado na Fase, ter "abraçado a bronca" em seu lugar.


- O adolescente não tinha antecedentes nem expressão no tráfico. Assumiu o crime como forma de ganhar status e garantir sustento à família.


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