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Sem chance de mudar

Vítima de três ataques foi morta quando pretendia seguir carreira de pedreiro

Tiago Diogo Gonçalves, 27 anos, o Tiaguinho, foi executado no domingo, na Vila Respeito

04/09/2013 - 05h31min

Atualizada em: 04/09/2013 - 05h31min


Dono de uma longa fila de ocorrências policiais, que inclui suspeita de homicídio e uma condenação por roubo e extorsão, Tiago Diogo Gonçalves, 27 anos, o Tiaguinho, foi executado com um tiro na cabeça quando tentava mudar de vida trabalhando como pedreiro. Proveniente de Bagé, na Campanha, Tiaguinho passou a adolescência pelas ruelas violentas e sujas da Vila Respeito, na zona norte de Porto Alegre.

O crime teria sido apenas mais um episódio de violência na Respeito se não fosse o fato de a vítima ter sofrido, em pouco menos de duas semanas, três tentativas de homicídio. A morte chegou pelas mãos de um amigo, Alex Sandro Bitencourt de Oliveira, 18 anos, o Scooby Doo, que está com prisão preventiva decretada e encontra-se foragido. Ele teria sido contratado por William da Silva Barbosa, 22 anos, que está preso e também é responsabilizado por outras duas tentativas de matar Tiaguinho, sendo uma delas praticada dentro da Emergência do Hospital Cristo Redentor. Barbosa estaria se vingando do irmão de Tiaguinho, Leandro Gonçalves, o Tanga, que cumpre pena por homicídios. Tanga teria matado duas mulheres ligadas à Gangue dos Cabritas, liderada por Barbosa.

- O caso está praticamente resolvido. Já identificamos os culpados e temos boas provas - resume João Paulo de Abreu, delegado adjunto da 3ª Delegacia de Homicídios.

A prisão de Scooby Doo é questão de tempo, acredita o delegado. Pelas ruelas da Respeito ficou a lembrança de Tiaguinho, descrito pelos vizinhos como "esforçado", uma pessoa que tentava escapar do destino reservado à maioria dos adolescentes da vila: uma morte violenta. Nesta terça-feira, Zero Hora conseguiu falar com a companheira dele, Daiane Silva, 23 anos. Grávida de sete meses, ela está vivendo escondida, com medo de ser a próxima vítima. Muito emocionada, chora sempre que lembra a morte do companheiro.

- Aqui (na vila) poucos conseguiram mudar de vida, ele pensou que era possível. E nós estávamos emocionados com a vinda do filho. Mas tudo acabou - comenta.

Daiane estava com o companheiro quando ele foi executado. E se recupera do ferimento no ombro causado por um dos tiros disparados pelo matador de aluguel. Na Vila Respeito, ZH também conversou com amigos da vítima. Um deles, que falou com a condição de que seu nome fosse preservado, disse que Tiaguinho "marcou bobeira" quando acreditou que conseguiria ficar fora da confusão. E acrescentou:

- Todos sabem que a bronca ainda não terminou.

Com estilo do sertão nordestino

A família de Tiaguinho já havia deixado a vila. Um outro morador, que também pediu para que o seu nome fosse omitido, disse que a vítima e os outros guris da vila desde de muito cedo se acostumaram a resolver as diferenças com o cano da arma ou uma faca. Hoje, as brigas se tornaram mais violentas, muito parecidas com estilo do sertão nordestino, onde pistoleiros são contratados para matar as vítimas em público, com objetivo de mostrar quem manda ali.

Acusado de encomendar a morte de Tiaguinho, William Barbosa agiu da maneira dos pistoleiros nordestinos. Espalhou por toda a vila que a sua vingança ainda não terminou. Só irá acabar quando a última pessoa da família da vítima for executada. Na tarde de terça, nas ruelas da Vila Respeito, a vida seguia. Jovens parados nas esquinas observavam os estranhos que andavam por lá.


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