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Em Guaíba

"Essa partida tão cruel dói": bombeira civil morta a facadas por companheiro é a primeira vítima de feminicídio no RS em 2026

Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, 31 anos, deixa um filho de 10 anos

06/01/2026 - 10h32min


Isadora Garcia
Isadora Garcia
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Funerária São José/Facebook / Reprodução
Gislaine tinha 31 anos e deixa filho de 10 anos.

A vida de uma bombeira civil e técnica em Segurança do Trabalho foi interrompida no último sábado (3). Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte, 31 anos, foi morta com sete facadas em Guaíba, na Região Metropolitana. O suspeito, um homem paulista de 44 anos, era namorado dela, foi preso em flagrante e, nesta segunda-feira (5), teve prisão preventiva decretada. Zero Hora apurou que se trata de Alex Sousa de Queiroz.

A Polícia Civil confirmou que esse é o primeiro feminicídio registrado no RS em 2026. 

O corpo de Gislaine foi sepultado na manhã desta segunda, em São Gabriel, na Fronteira Oeste, cidade onde ela nasceu. A bombeira deixa um filho de 10 anos

A dinda da criança, Leticia Cruz, descreve Gislaine como mulher batalhadora, forte, trabalhadora e mãe protetora, que lutava pelos sonhos e não desistia do que acreditava. Leticia diz que se lembrará da "comadre" pelas risadas e pelos momentos felizes. Mas que hoje resta dor, saudade e revolta. 

Essa partida tão cruel dói profundamente. O que nos resta agora é pedir a Deus muita força, principalmente porque ela deixou aqui na Terra o seu maior sonho e bem mais precioso: o seu filho. Nós vamos amar, cuidar e proteger ele sempre, assim como ela fez com tanto amor e dedicação — garante.

Uma das irmãs, Ana Paula Rodrigues Cavalcante, relata que a família está sem palavras. Ela descreve a irmã, a Bia, como chamava, como guerreira e querida, uma pessoa que ajudava mesmo quando não tinha como.

Agora, queremos justiça. Tomara que a justiça seja feita — reforça.

O amor pelo filho é lembrado por uma amiga que prefere não se identificar. Ela conta que Gislaine, a Gi, como conhecia, era comunicativa, prestativa, sorridente, parceira e humilde:

— Ela era muito, muito, muito querida onde passava. O pessoal parava para cumprimentar, para dar um abraço e gritava: "Gi, como é que tu tá? Que saudade de ti".

Nas redes sociais, familiares e amigos lamentaram a morte e pediram justiça. Uma homenagem está sendo organizada, para domingo (11), no centro de Guaíba.

O relacionamento

Gislaine Beatriz Rodrigues Duarte/Arquivo Pessoal
Gislaine era bombeira civil e técnica em Segurança do Trabalho.

A amiga que optou por não se identificar diz que Gislaine relatava brigas. Segundo ela, o homem xingava a vítima, chamando-a de "demônio" e a acusando de ter amantes.

— Ela acreditava que Deus tinha um objetivo para tudo isso, que Ele ia mostrar para ela lá na frente, que, por outras situações da vida que ela já tinha passado, toda dificuldade tinha uma lição e que essa também ia ter — ressalta a amiga.

Conforme a irmã Ana Paula, Gislaine a contou que queria terminar o relacionamento, mas que o parceiro não aceitava o término.

Suspeito trouxe outra versão; polícia descartou

Segundo o delegado Fabiano Berdichevski, da 17ª Delegacia de Polícia Regional do Interior, que atendeu o caso no fim de semana, o suspeito simulou a cena de que teria sido esfaqueado pela namorada e de que ela teria tirado a própria vida na sequência. A investigação descartou essa versão após notar contradições.

— Ele apresentou essa versão de que foi agredido por ela e ficou desacordado, caindo ao lado do corpo e de que não recordaria de mais nada, sendo que só ele e a mulher estavam na casa. Havia uma criança (filho de Gislaine) que tinha sido colocada para o lado de fora ou tinha ido para o lado de fora — explica o delegado. 

O homem teria usado o celular da vítima, se passando por ela, após o crime. Conforme o delegado, isso fez com conhecidos da mulher, desconfiados de mensagens recebidas, acionassem a Brigada Militar, que chegou por volta das 19h na residência. 

De acordo com a Polícia Civil, o casal teria uma relação há três ou quatro anos, e a vítima teria comentado com pessoas próximas que o homem usava palavras agressivas e tinha comportamento ciumento. 

— Ele já tinha usado o celular dela para enviar mensagens para homens, colegas de trabalho, se passando por ela, se oferecendo para encontros — afirma o delegado. 

A investigação aponta, até o momento, que o crime teria sido motivado pelo possível fim do relacionamento.

Ainda segundo o delegado, o suspeito não tinha antecedentes criminais nem pedido de medida protetiva feito pela vítima.

A investigação seguirá com a delegacia de Guaíba.

Contraponto

A Zero Hora, a Defensoria Pública, que representará o suspeito, afirmou que irá se manifestar apenas nos autos do processo.

Como pedir ajuda 

Brigada Militar – 190

  • Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.

Polícia Civil

  • Se a violência já aconteceu, a vítima deve ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
  • Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
  • As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.

Delegacia Online

  • É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.

Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180

  • Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.

Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556

  • Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).

Centros de Referência de Atendimento à Mulher

  • Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.

Ministério Público do Rio Grande do Sul

  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
  • Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link

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