Sem consentimento
"Filme de terror, medo, nojo": os relatos de vítimas de fotógrafo preso por divulgar fotos íntimas de mulheres em site de conteúdo adulto
Em grupo de WhatsApp, mais de cem clientes do investigado dizem temer ter imagens expostas na internet


No fim de novembro, em um domingo à noite, uma jovem de 25 anos, de Porto Alegre, jantava em um restaurante quando pegou o telefone e viu que havia uma solicitação de mensagem pelo Instagram.
— Era uma menina que não me seguia, me chamando e dizendo que tinha visto fotos minhas de calcinha no (cita o nome do site) junto de outras meninas. Fiquei apavorada, comecei a ter uma crise de ansiedade. Foi horrível. Fiquei sem comer, dormir — recorda.
Em segundos, a jovem recebeu os prints das fotografias expostas dentro da plataforma com conteúdo adulto. Ela é uma das mulheres que relata ter sido vítima de um fotógrafo, preso no último fim de semana, na Capital. Ele é investigado por suspeita de ter divulgado imagens de vítimas em um site de conteúdo adulto, sem o consentimento delas.
— Fazer fotos de pessoas, divulgar num site pornográfico, majoritariamente composto por homens, me deixou vulnerável, em perigo — diz a jovem.
Somente em Porto Alegre, ao menos 20 mulheres já foram identificadas pela investigação da 1ª Delegacia da Mulher. A polícia não divulgou o nome do suspeito, mas Zero Hora apurou que o preso é Matheus de Lima Gomes, 27 anos, conhecido no meio como MeFiuz.
O suspeito, que é de Porto Alegre, mas atualmente estava residindo em Salvador, na Bahia, foi preso no último sábado (3). Ele foi localizado num shopping da Capital gaúcha. Segundo a delegada Thaís Dequech, a prisão é preventiva, e o investigado já passou por audiência de custódia, sendo mantido preso.
— Ele convencia as vítimas a fazer as fotos por um preço bem baixo. Inicialmente, não era a intenção as fotos serem íntimas, mas na hora ele as convencia de tirar as fotos. Além de cobrar pelos ensaios fotográficos, ele ainda faturava vendendo essas imagens sem autorização nas plataformas adultas — explica a delegada.
A polícia ainda está ouvindo as vítimas do caso. A suspeita é de que o número de mulheres que tiveram imagens expostas possa ser ainda maior. Em um grupo de WhatsApp, que reúne jovens do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Bahia, há ao menos 120 mulheres. Nem todas sabem se tiveram as imagens divulgadas na plataforma, já que a página foi desativada.
"Construiu uma imagem de alguém confiável"
No caso da jovem citada no início desta reportagem, o primeiro contato com o fotógrafo se deu em 2021, por meio do Instagram. Ele passou a convidá-la para realizar ensaios. Matheus cobrava valores bem abaixo do mercado — as jovens ouvidas por Zero Hora pagaram entre R$ 35 e R$ 50.
Os primeiros ensaios não envolviam fotos sensuais, segundo a jovem. Mas, ao longo de outras sessões de fotos, ele teria ganhado sua confiança.
No início, eu disse que não tinha interesse nesse tipo de foto. Não ia divulgar isso nas minhas redes. Ele construiu uma imagem de alguém confiável, de empoderamento feminino. Sempre fotografou vários tipos de mulheres, de perfis, dizendo que queria realçar belezas naturais. Como fui confiar numa pessoa assim? Minha vida se transformou num filme de terror.
VÍTIMA
Após descobrir sobre a divulgação das imagens, a jovem decidiu buscar a Polícia Civil e registrou ocorrência contra o fotógrafo.
— Além de triste, também fiquei com raiva, fiquei apavorada. Fiquei com medo. Fiquei pensando qual a proporção que isso tinha tomado? A internet é um mundo sem lei. Muitas coisas passaram na minha cabeça — relata.
A jovem ainda não sabe quantas imagens suas foram expostas. A polícia apreendeu aparelhos eletrônicos com o investigado — um notebook, um HD externo, um pen drive e um tablet — que passarão por perícia. Somente na página do fotógrafo, agora desativada, dentro da plataforma de conteúdo adulto, suspeita-se de que havia ao menos 2,8 mil fotografias. Os conteúdos eram comercializados por meio de assinatura.
— Eu nem sei quais fotos estavam lá. Eu mesma não tive acesso a essas fotos e estavam lá na plataforma. É uma invasão. Quem tá pagando por isso? A gente não tem como saber. É um crime mesmo — desabafa.
Convites reiterados
Uma jovem, de 20 anos, recebeu uma sequência de convites de Matheus, até aceitar fotografar com ele. Ao conversar com outras meninas, foi incentivada a fazer os ensaios.
— Ele cobrava R$ 50, às vezes nem cobrava. Ele me mandou umas propostas, de como seriam as fotos, e no fim estavam algumas seminuas. Eu nunca aceitei. Falei que não me sentia confortável. No primeiro ensaio, fui com a minha mãe, e vimos que ele parecia ser de confiança — recorda.
Num segundo momento, a jovem aceitou participar de outra sessão de fotos, numa cachoeira.
Ele dizia que tinha que posar de biquíni. E foi uma das fotos da cachoeira que saiu nesse site. Ele nunca me comentou nada sobre postar nesse tipo de site. Ele falava que era como um portfólio pra ele. Nunca na minha vida eu teria feito essas fotos se soubesse disso. O sentimento das meninas é de medo, é frustração, medo de que essas fotos sejam mais divulgadas.
VÍTIMA
"Meu sentimento é de traição"
Outra jovem, de 20 anos, tinha apenas 17 anos quando foi convencida a fazer as fotos. O primeiro contato também se deu por meio do Instagram.
— Ele era bem tímido, falava pouco. Não aparentava nenhum tipo de ameaça. A minha mãe foi comigo, no ensaio — relata.
A jovem conta que não chegou a realizar ensaios sensuais ou com nudez. No entanto, manteve contato com diversas outras meninas que faziam esse tipo de foto com ele.
Tem mais de cem meninas no grupo. Todas fizeram ensaio com ele, a maioria sensuais. Ensaios de biquíni, praia, mas quando pegava intimidade fazia fotos mais sensuais. As meninas estão com muito medo, sente uma culpa muito grande. Meu sentimento é de traição, de nojo.
VÍTIMA
Pedido de desculpas

Segundo uma das jovens ouvidas por Zero Hora, Matheus chegou a responder uma mensagem enviada por uma das mulheres pelas redes sociais. Na resposta, o fotógrafo se desculpa e alega que excluiu as postagens e a conta.
"Todos esses anos buscando não sexualizar meu trabalho e as modelos pra cometer esse erro nos últimos meses. Me perdi em muitos aspectos", escreve.
— A gente só quer justiça, que ele siga preso o máximo de tempo possível — diz uma das vítimas. — Ele estava lucrando com a nossa imagem — acrescenta.
Contraponto
Zero Hora busca contato com a defesa de Matheus de Lima Gomes. Segundo a Polícia Civil, o investigado ainda não apresentou defesa constituída. Ele ainda deve ser ouvido pela investigação.