Polícia



Violência doméstica 

Nos últimos 14 anos, RS teve média de um feminicídio a cada quatro dias

Dados de 2012 a 2025 indicam a dificuldade das forças de segurança de conter este tipo de crime, que vitimou, no período, 1.285 mulheres

30/01/2026 - 15h16min


Leticia Mendes
Leticia Mendes
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Mateus Bruxel/Agencia RBS
Laís Malaguez Meyer, 32 anos, foi uma das 10 mulheres assassinadas no feriadão de abril de 2025 no Estado.

No Rio Grande do Sul, entre 2012 e 2025, em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada quatro dias. São 1.285 vidas interrompidas ao longo desses 14 anos. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública (SSP) do Estado. 

É o caso, por exemplo, de Laís Malaguez Meyer, 32 anos, uma das vítimas do feriadão de Páscoa do ano passado, no qual 10 mulheres foram mortas em apenas cinco dias. Laís foi assassinada a tiros pelo marido, em Pelotas, no sul do Estado, após 14 anos de um relacionamento marcado pela violência.

O ano em que o Rio Grande do Sul teve o maior número de casos foi 2018, com 116 vítimas de feminicídio. Naquele período, a média ficou ainda pior e chegou a uma mulher morta a cada três dias. Em 2024, o Estado registrou a média mais baixa, mas, ainda assim, teve um caso a cada cinco dias.

O comparativo desses 14 anos evidencia que, no mesmo período em que o Rio Grande do Sul teve acentuada redução em outros crimes, como homicídios e latrocínios (roubos com morte), isso não se repetiu nos casos de feminicídio.

Em 2017, por exemplo, um dos anos de ápice da criminalidade violenta no Estado, com números crescentes de assassinatos em meio à guerra entre facções criminosas, o total de feminicídios já era semelhante ao registrado no ano passado. Foram 83 mulheres vítimas em 2017, enquanto em 2025 foram 80.

Quando se faz o mesmo comparativo com homicídios, essa redução é bem mais evidente. Foram 2.990 vítimas de homicídio no ano de 2017 no RS e quase um terço disso no ano passado, com 1.037 assassinatos. 

Diretor do Departamento de Grupos Vulneráveis da Polícia Civil, delegado Juliano Ferreira, reconhece que os dados são alarmantes. Somente em janeiro, o RS registrou 11 feminicídios — o número já supera o total de casos de janeiro do ano passado, quando foram nove vítimas.

— O feminicídio, a agressão à mulher não é um problema contemporâneo, pelo contrário, isto está, infelizmente, ainda enraizado em nossa sociedade machista, onde o homem pensa que é dono da mulher. O que me deixa otimista é que nunca se discutiu tanto isso, nunca se debateu tanto, nunca teve tantas instituições públicas e privadas unidas para o combate a esse tipo de crime. Acredito que a sociedade está se alertando e se unindo — ressalva.

Uma tentativa a cada 31 horas

Quando se olha o número de casos de tentativas de feminicídio, essa soma é ainda maior. Ao menos, 3.698 quase morreram vítimas de violência doméstica no Estado desde que estes casos passaram a ser contabilizados, em 2013. 

Em média, houve uma tentativa de assassinar uma mulher em contexto de gênero a cada 31 horas. Um dos principais desafios ainda é alcançar essa mulher para que ela consiga procurar ajuda, antes que a violência escale para um caso ainda mais grave. Para o diretor do DPGV, as medidas precisam ser aplicadas em rede, unindo diferentes áreas. 

— Essa mulher que hoje foi vítima de feminicídio, na sua vida social deixou sinais, em vários lugares: na manicure, na escola dos filhos, num curso, para a vizinha, e nós não detectamos isso. Temos que aumentar essa rede e conscientizar as pessoas da importância de colaborar e levar essa informação para as autoridades públicas para a gente prevenir também os feminicídios. Isso é fundamental. Nós temos que aumentar o braço do Estado para chegar a essas mulheres que ainda não procuraram a polícia — disse.

Desde 2012, medidas foram implementadas no Estado com intuito de reduzir esse tipo de crime. Entre elas, o monitoramento de agressores com uso de tornozeleira eletrônica, a Patrulha Maria da Penha, as Salas das Margaridas, e a possibilidade de registrar ocorrência e pedir medida protetiva online. Ainda assim, os números seguem elevados no Estado. Um dos pontos elencados pelas autoridades é o fato de o crime acontecer em contexto doméstico, e envolver outros aspectos, como dependência psicológica, guarda de filhos e o ciclo de violência.

A partir de segunda-feira (2), a Polícia Civil em Porto Alegre deve passar a contar com uma equipe de pronta resposta para os casos envolvendo violência contra a mulher e outros grupos vulneráveis, e a verificação de denúncias. A ideia é ainda agilizar o atendimento e tentar realizar mais prisões de agressores.

A equipe será formada por policiais do próprio DPGV, organizados em regime de força-tarefa e com atuação ininterrupta.

Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Operação na semana passada prendeu 29 homens.

Na semana passada, foi realizada operação voltada à prisão de agressores e apreensão de armas de fogo. A ofensiva resultou na prisão de ao menos 29 homens, muitos deles envolvidos em descumprimento de medida protetiva.

— Estamos intensificando também, com um trabalho sistemático, operações de repressão. Vamos repetir no início do mês de fevereiro a Operação Mandado Zero. Não ficará uma medida cautelar em aberto. Mandados serão cumpridos, para colocar esses bandidos, esses agressores, na cadeia — disse Ferreira.

Outro projeto que está sendo elaborado pela polícia envolve a identificação de homens com perfil reiterado de casos de violência doméstica e a aplicação de medidas voltadas a esse agressor.

Como pedir ajuda

Brigada Militar – 190

  • Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.

Polícia Civil

  • Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
  • Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
  • As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.

Delegacia Online

  • É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.

Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180

  • Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.

Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556

  • Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).

Centros de Referência de Atendimento à Mulher

  • Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.

Ministério Público do Rio Grande do Sul

  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
  • Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link.

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