Polícia



Preso preventivamente

"Quer ganhar uns $? Me arrume umas frutas": contador é suspeito de usar laranjas para lavar dinheiro de facções

Investigado teria criado mais de 150 empresas de fachada. Operação do MP, da Polícia Civil e da Receita Estadual cumpre 261 ordens judiciais, incluindo bloqueio de R$ 225 milhões

28/01/2026 - 09h54min


Humberto Trezzi
Humberto Trezzi
Enviar E-mail
Polícia Civil/Divulgação
Polícia cumpre 261 ordens judiciais nesta quarta-feira (28).

Um homem suspeito de atuar como "contador do tráfico" é o principal alvo da Operação Acerto de Contas, desencadeada em conjunto pela Polícia Civil, Ministério Público Estadual e Receita Estadual na manhã desta quarta-feira (28). O investigado teria criado 150 empresas de fachada e trabalharia para mais de uma facção.

Ele teve a prisão preventiva decretada pela 1ª Vara Estadual de Crimes de Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro. Outras 11 pessoas terão de colocar tornozeleira eletrônica. No total, são cumpridas 261 ordens judiciais, que incluem ainda bloqueio financeiro de R$ 225 milhões, volume estimado do prejuízo causado pelas fraudes. Na ação foram apreendidos 70 kg de prata, avaliados em cerca de R$ 2,7 milhões.

Polícia Civil/Divulgação
Operação envolve Receita Estadual, Polícia Civil e Ministério Público Estadual

Interceptações de mensagens entre os investigados, feitas pela Polícia Civil e MP, indicam uso sistemático de intermediários (laranjas) para montar empresas de fachada. A intenção seria praticar sonegação e e até disfarçar lucros das facções. Confira alguns exemplos:

Na Polícia Civil, a investigação é tocada pelo Departamento Estadual de Repressão aos Crimes contra Administração Pública (Dercap). No Ministério Público, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), além da Receita Estadual.

Os alvos da operação não são revelados, mas a reportagem apurou que o preso é Vilaz Augusto Winck, que é investigado por estelionato, falsidade ideológica, falsificação de documento público e fraude processual. Ele está com o registro de contador cassado e, conforme policiais, se utiliza de colegas de profissão para continuar atuando.

Winck é apontado como o homem que ajudaria a maquiar os investimentos ilegais de um dos mais conhecidos traficantes gaúchos, Marizan de Freitas, que cumpre pena de 38 anos de reclusão por homicídios e tráfico. Os mandados e medidas judiciais são cumpridos nos municípios de Porto Alegre, Canoas, Dois Irmãos, Igrejinha, Sapiranga, Araricá, Tramandaí, Capão da Canoa, Campo Bom, Gravataí e Guaporé.

Polícia Civil/Divulgação
Mandados são cumpridos em 11 municípios.

A investigação aponta que o suspeito, formado em Ciências Contábeis, era procurado por empresários interessados em reduzir o pagamento de tributos. Ele se utilizava de artimanhas contábeis e do repasse de pessoas jurídicas com passivo tributário já considerado insolúvel para outras pessoas, com o objetivo de dificultar a responsabilização fiscal e patrimonial.

As principais formas de atuação do investigado, segundo da Polícia Civil:

  1. transferência de empresa endividada para o nome de terceiros como forma de se eximir de obrigações/dívidas trabalhistas, fiscais ou de outra natureza.
  2. constituição de empresa "noteira" para emissão de notas "frias".
  3. utilização de "laranjas" para fins de lavagem de dinheiro.
Polícia Civil/Divulgação
Esquema divulgado pela Polícia Civil com informações sobre os crimes investigados.

A investigação também revela indícios concretos de que o contador atuava com lavagem de dinheiro de mais de uma organização criminosa, simulando operações comerciais e até remessas de valores para paraísos fiscais. Os policiais ainda dizem que ele ostentava bens de alto valor, como carros sofisticados e imóveis na praia, incompatíveis com seu padrão de ganhos.

Marizan de Freitas seria um de seus clientes preferenciais. Esse líder de facção ficou afamado após fugir da prisão domiciliar, concedida pela Justiça em decorrência de cirurgia à qual ele se submeteu. Em vez de se recuperar em casa, ele escapou e só foi localizado meses depois, em São Paulo. O criminoso está condenado por ordenar assassinato de subordinados, via telefone, mesmo recolhido no sistema prisional.

Últimas Notícias