Mudança social
Alta dos golpes e queda nos roubos indicam migração dos crimes contra o patrimônio para o ambiente digital
Enquanto registros de assaltos caíram 65,6%, casos de estelionato subiram 485% no Rio Grande do Sul


A análise da criminalidade no Rio Grande do Sul indica uma tendência de queda em crimes como furto e roubo, mas alta nos casos de estelionato. Os dados são da Secretaria de Segurança Pública (SSP) e foram analisados por Zero Hora.
Em 2025, a Polícia Civil gaúcha registrou 82.512 casos enquadrados no artigo 171 do Código Penal, alta de 2,4% em relação a 2024. No entanto, o aumento chega a 485% se comparado a 2002 — quando começa a série história da SSP. No mesmo período, os furtos caíram 49,1% e os roubos tiveram queda de 65,6% no Estado (veja a evolução no gráfico abaixo). Quedas similares também foram registradas em homicídios e latrocínios.
Estelionatos virtuais também aumentaram, mas neste caso não é possível fazer uma análise de tão longo prazo. Isso porque apenas em 2021 o Código Penal passou a prever expressamente o estelionato cometido por meio eletrônico — aquele praticado via redes sociais, e-mail, aplicativos de mensagens, sites falsos e outras plataformas digitais.
No caso do RS, os crimes cometidos por meio digital começaram a ser tabulados de forma específica no segundo semestre de 2023. Em 2024, primeiro ano completo do levantamento, a Polícia Civil contabilizou 16.274 estelionatos virtuais, montante que subiu para 17.555 em 2025, o que representou uma alta de 7,9%, ou 1.281 casos a mais.
O resultado indica que um em cada cinco estelionatos no RS ocorre por meio virtual.
— Políticas de segurança pública que foram bem-sucedidas no enfrentamento a crimes graves desestimulam a prática de roubos e homicídios. Também há uma mudança de comportamento social que, durante a pandemia, levou a população a migrar o consumo e o uso do dinheiro para o digital — comenta o delegado Filipe Bringhenti, diretor da Divisão de Crimes Cibernéticos da Polícia Civil.
Outra explicação para o aumento de casos de estelionato virtual é a participação do crime organizado.
— É difícil falar em números, mas há, sim, uma migração, ou seja, uma dedicação de maior para a prática de golpes digitais do que aquela dirigida a outros delitos. Fatores como a dificuldade de identificação dos autores, penas menores do que as dos crimes violentos e um potencial de lucro mais escalável contribuem para isso — acrescenta o delegado.
Para Bringhenti, as fraudes mais danosas atualmente são o golpe do falso investimento (ou falsa corretora) e o golpe dos nudes:
— No primeiro (do investimento), as vítimas acreditam que estão investindo em uma empresa séria e destinam valores elevados, por vezes economias de uma vida inteira. O golpe dos nudes traz grande prejuízo psicológico: o medo e a vergonha impõem grande sofrimento, que, em alguns casos, pessoas extorquidas acabam atentando contra a própria vida.
Cenário nacional
A situação no Estado é similar à vista nos dados nacionais, segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2025. Conforme o levantamento, em 2024, as polícias civis brasileiras registraram 745.333 roubos no país, taxa 15,2% menor do que a observada em 2023.
Enquanto isso, essas mesmas corporações registraram 2.166.552 estelionatos, crescimento de 7,8% na taxa em relação ao ano anterior — os estelionatos por meios eletrônicos tiveram alta ainda maior, de 17%.
— Presencialmente, um estelionatário consegue ludibriar uma vítima por vez; no mundo online, as quadrilhas automatizam sistemas, fazem disparos em massa para chegar a mais vítimas. Os golpes ficam mais sofisticados. Com o cotidiano cada vez mais no digital, não enxergamos uma perspectiva de diminuição desses golpes — diz Leonardo Silva, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, responsável pelo estudo.
Segundo ele, há uma parcela de subnotificação de casos no país, motivada por vítimas que preferem não levar os casos às autoridades. Outro empecilho no combate ao crime é geográfico, pois os golpes não respeitam fronteiras. Quadrilhas são capazes de fazer vítimas em diversos Estado brasileiros. Outro exemplo é o de um episódio de brasileiros mantidos em cativeiro em Mianmar, na Ásia, para aplicar golpes digitais.
— Isso mostra que é um crime com ramificações globais. Por isso, existe a dificuldade de identificar e responsabilizar quadrilhas. A polícia precisa ser capacitada com as ferramentas adequadas e a população deve tomar as precauções no virtual que já são feitas no mundo real — diz Silva.
Preocupação com futuro
Em meio a esse cenário, o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) nesta década deu ferramentas sofisticadas aos criminosos, segundo Plínio Melgaré, coordenador da especialização em direito digital e proteção de dados da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
— O uso da IA aprimora os golpes. O grupo mais vulnerável é aquele com baixa literacia digital e jurídica. São grupos como adolescentes, idosos e pessoas com menor instrução, que desconhecem questões sobre privacidade e rastreabilidade — afirma.
A falta de conhecimento faz com que táticas de engenharia social sejam as favoritas dos golpistas. A abordagem funciona como uma manipulação usada para convencer pessoas a entregar informações, senhas ou dinheiro.
Desse modo, as quadrilhas não precisam invadir dispositivos, pois, por confiança, medo ou curiosidade, por exemplo, a vítima colabora com os criminosos.
— Imagens e vozes falsas ampliam o espectro de pessoas que podem ser vítimas. Diante de textos altamente persuasivos e sem erros, a sugestão de cuidado é: quanto mais urgente, emocional ou “perfeito” o conteúdo, maior deve ser a desconfiança — acrescenta Melgaré.