Fraude
Câmera flagra golpe do falso exame em Porto Alegre; veja vídeo
Quadrilhas usam engenharia social para se passar por hospitais e aplicar cobranças indevidas em pacientes
A aposentada e contadora Laurenci Bernardes Muniz, de 71 anos, de Porto Alegre, ainda tenta se recuperar do prejuízo financeiro e emocional.
— Fiquei desesperada — relata.
Exposta no Fantástico, em reportagem produzida pela RBS TV com exemplos de vítimas também em São Paulo e no Rio de Janeiro, a fraude começou com uma ligação que parecia legítima. Do outro lado da linha, alguém se apresentava como funcionário do hospital Ernesto Dornelles, na capital gaúcha, onde ela havia feito exames recentemente, dizendo que a entrega dos resultados poderia ser feita em domicílio, mediante o pagamento de uma taxa de R$ 4,99. Sem suspeitar, ela optou pela entrega domiciliar. E foi o início de um prejuízo de mais de R$ 8 mil.
O momento da falsa entrega foi gravado pela câmera de segurança do condomínio da vítima, localizado no bairro Nonoai, em Porto Alegre. Um motoboy carregava um envelope, onde supostamente estariam os laudos, e três máquinas de cartão. O homem fingiu que a transação não havia sido concluída em nenhum do aparelhos e foi embora, alegando que não podia entregar o falso exame sem o pagamento.
Mas enquanto simulava erro nas tentativas, na verdade ele efetuava cobranças indevidas sem que a vítima percebesse. Horas depois, vieram as notificações do banco: compras de alto valor haviam sido realizadas com o cartão dela.
— Uma despesa totalmente fora da realidade. Eu ganho cerca de R$ 6 mil por mês, e o prejuízo foi maior do que isso — conta.
Segundo a delegada Caroline Machado, o chamado "golpe do falso exame" explora um dos pontos mais sensíveis das vítimas: a saúde.
— Eles trabalham com o psicológico da pessoa, com a ansiedade e o medo de um diagnóstico. A vítima quer saber o resultado e acaba aceitando uma suposta facilidade — explica.
Procurada, a administração do Hospital Ernesto Dornelles informou que "não identificou qualquer envolvimento de colaboradores ou vazamento de dados de seus sistemas em relação ao caso citado" (leia o posicionamento do hospital).
De acordo com Paulo Alex Xavier da Silva, coordenador do Comitê de Segurança Física e Patrimonial do Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre, não há não há confirmação de vazamento interno de dados nos hospitais associados.
— As quadrilhas utilizam técnicas de engenharia social para obter informações. Eles se passam por médicos, ligam para hospitais, conseguem dados de pacientes e, depois, entram em contato direto com as vítimas — afirma.
Segundo o coordenador, os criminosos escolhem alvos específicos:
— Normalmente são pessoas mais idosas, fragilizadas pela condição de saúde e com menor familiaridade com tecnologia.
As instituições de saúde têm adotado medidas preventivas, como treinamento de equipes e orientação aos pacientes. Uma das principais recomendações é simples: hospitais não costumam enviar exames por motoboy.
— Os resultados são entregues presencialmente ou disponibilizados pela internet, com login e senha. Qualquer abordagem diferente disso deve ser considerada suspeita — reforça Paulo.
Vítimas podem ser ressarcidas
Para a diretora regional da Associação Nacional de Procons, Márcia Moro, também há responsabilidade dos bancos e operadoras de cartão.
— Todo consumidor tem um perfil de gastos. Quando há movimentações fora desse padrão, o sistema deveria acionar mecanismos de segurança e bloquear a transação — avalia.
Márcia destaca que, em casos de falha, o consumidor pode buscar ressarcimento.
— É possível recorrer ao banco, ao Procon e, se necessário, ao Judiciário. Já há casos de devolução em dobro dos valores — lembra.
Autoridades e especialistas reforçam algumas orientações básicas
- desconfiar de ligações oferecendo facilidades
- confirmar as informações diretamente com o hospital
- nunca entregar o cartão na mão de terceiros
- conferir sempre o valor na maquininha de pagamento
- registrar boletim de ocorrência em caso de suspeita
Contraponto
Nota de esclarecimento do Hospital Ernesto Dornelles
O Hospital Ernesto Dornelles (HED) esclarece que, após rigorosa averiguação interna, não identificou qualquer envolvimento de colaboradores ou vazamento de dados de seus sistemas em relação ao caso citado. A instituição reitera seu compromisso com a proteção de dados e detalha suas práticas de segurança:
— Estrutura Dedicada: desde 2022, o HED conta com o Escritório de Segurança da Informação (SI), uma área dedicada exclusivamente à proteção de dados e à conformidade com as normas de SI e a LGPD, visando a segurança das informações institucionais e, especialmente, dos dados pessoais e sensíveis dos pacientes.
— Monitoramento e Resposta: existe um protocolo estruturado para a notificação de incidentes e tentativas de golpe, permitindo que as equipes atuem prontamente na comunicação com pacientes e familiares para mitigar riscos assim que uma ameaça é detectada. O canal “Proteja-me” é focado no recebimento de denúncias e orientações tanto para colaboradores quanto para pacientes.
No caso específico, tão logo constatadas as tentativas de golpe, a Assessoria de Comunicação disparou alerta para colaboradores, clientes e pacientes por meio de WhatsApp, e-mail, redes sociais, site e cartazes espalhados pela instituição. O HED registrou boletim de ocorrência e reuniu informações para disponibilizar à autoridade policial para contribuir com a investigação.
Não identificamos outras tentativas desse tipo de golpe. Entretanto, é amplamente reconhecido que a área da saúde é frequentemente alvo de criminosos que buscam aplicar fraudes dessa natureza, o que exige um trabalho contínuo de prevenção e mitigação, envolvendo o aprimoramento permanente de tecnologias, processos e a conscientização das pessoas.
O Hospital Ernesto Dornelles reforça que não oferece serviços de entrega à domicílio de resultados de exames de nenhuma especialidade. O HED segue investindo em tecnologias de defesa e em ações de conscientização de seus usuários para combater fraudes que utilizam indevidamente o nome da instituição.
Nota da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços
A Abecs, associação que representa o setor de meios eletrônicos de pagamento, esclarece que empresas de cartões e bancos não enviam representantes à domicílio para recolher cartões, realizar cobranças presenciais ou solicitar pagamentos por meio de maquininhas.
Em situações de tentativa de golpe envolvendo cobranças presenciais, a orientação é que o consumidor não realize o pagamento, não entregue o cartão a terceiros e mantenha atenção redobrada diante de solicitações inesperadas de cobrança.
Em outras situações de pagamento legítimo com cartão, é importante adotar algumas medidas de segurança. Sempre que possível, o próprio portador deve inserir ou aproximar o cartão da maquininha e manter o dispositivo de pagamento sob sua supervisão durante toda a transação.
Antes de digitar a senha ou aproximar o cartão, é fundamental conferir o valor exibido no visor da máquina. Caso o equipamento apresente visor escuro, quebrado ou qualquer característica atípica, a recomendação é não realizar a transação.
Caso o consumidor identifique uma cobrança indevida ou suspeita de fraude envolvendo o uso do cartão, é necessário entrar em contato imediatamente com a central de atendimento do emissor do cartão, que possui procedimentos internos para avaliar cada caso individualmente e adotar as medidas cabíveis.
Também é recomendável manter ativas as notificações do banco emissor, de forma que o consumidor seja avisado em tempo real sobre qualquer transação realizada com o cartão, podendo agir com rapidez em caso de uso indevido.
A Abecs reforça que as empresas do setor adotam protocolos internacionais de segurança e sistemas de prevenção a fraudes que utilizam inteligência artificial para monitorar o comportamento de uso dos cartões e identificar transações fora do padrão. A indústria também tem trabalhado fortemente no monitoramento e em ações de identificação de fraudes e golpes, com investimentos contínuos em tecnologia e segurança. Dados do Monitor de Fraudes da Abecs mostram que o índice de fraudes por valor transacionado caiu 23,8% nos últimos três anos, evidenciando que, mesmo com o crescimento do uso dos cartões, o setor mantém níveis elevados de confiabilidade e proteção nas transações.