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Dupla perda

"Duas dores que marcaram nossa família": irmão de gaúcha morta em SC conta que pai também foi vítima de latrocínio

Luciani Aparecida Estivalet Freitas, de 47 anos, estava desaparecida desde o início de março. Corpo foi encontrado na semana passada

17/03/2026 - 12h25min


Júlia Ozorio
Júlia Ozorio
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Reprodução/Instagram
Três pessoas já foram presas suspeitas de envolvimento na morte de Luciani Aparecida Estivalet Freitas.

Aos 47 anos, Luciani Aparecida Estivalet Freitas teve o destino atravessado pela mesma violência que marcou a história da família duas décadas antes. A corretora de imóveis foi morta em Santa Catarina em um crime investigado como latrocínio (roubo com morte) — o mesmo delito que tirou a vida do pai dela 22 anos antes, também aos 47 anos.

A semelhança entre as duas perdas deixou marcas profundas nos familiares, que tentam lidar com um capítulo que parece se repetir. O pai, Lúcio, foi morto a tiros depois de ter o carro roubado em Canoas, na Região Metropolitana, em 2004. Na época, Luciani tinha cerca de 26 anos e, segundo os irmãos, nunca deixou de sentir a ausência dele.

— A saudade do pai sempre foi muito forte para ela. Ela chorava muito, sempre lembrava do pai. Às vezes acordava dizendo que estava com muita saudade dele, que tinha sonhado com ele. A gente ainda estava lidando com aquela perda — contou a irmã, Ariane Estivalet.

Luciani tinha cinco irmãos, além da mãe, agora idosa. Apesar do luto, eles se mantiveram próximos, trocando mensagens e ligações diárias. Foi justamente um distanciamento por parte de Luciani que chamou a atenção da família.

Considerada atenciosa e preocupada com familiares, ela passou a demorar para responder mensagens, não atender ligações e deixou de parabenizar a mãe no aniversário — algo que nunca havia acontecido. Mensagens vindas do celular dela também começaram a ter erros gramaticais incompatíveis com o perfil dela.

Matheus Estivalet Freitas/Arquivo Pessoal
Conversas entre o irmão e, supostamente, a mulher desaparecida.

As situações causaram preocupação e levaram o irmão, Matheus Estivalet Freitas, a ir pessoalmente ao apartamento da corretora, na Praia dos Ingleses, em Florianópolis, em 9 de março. A porta estava trancada, e o cachorro de Luciani estava do lado de fora.

Ele entrou pela janela e encontrou a kitnet em desordem, com alimentos em decomposição. No mesmo dia, registrou um boletim de ocorrência e, dias depois, a polícia confirmou que parte de um corpo que havia sido encontrada em um córrego em Major Gercino, no Vale do Rio Tijucas, pertencia à corretora.

Uma mulher de 47 anos foi presa por suspeita de envolvimento no caso. Ela foi detida em uma pousada na qual se apresentava como responsável. No local, haviam duas malas com objetos pessoais de Luciani, produtos comprados em nome dela, além do carro da vítima. Os indícios levaram a Polícia Civil a trabalhar com a hipótese de latrocínio. Além dessa mulher, um casal suspeito de participação no crime foi preso ao fugir para o RS.

A confirmação da morte, similar ao ocorrido há duas décadas, reascendeu o luto coletivo. Nas redes sociais, o irmão da vítima descreveu a situação como uma segunda dor familiar.

"Meu pai, Lúcio, foi vítima de um latrocínio — roubo seguido de morte — há 22 anos. Curiosamente, com a mesma idade que minha irmã Luciani tinha hoje, 47. Duas dores que marcaram nossa família, mas unidas pelo amor que nunca deixou de existir", lamentou.

"Uma pessoa que sonhava"

Natural de Alegrete e criada em Canoas, Luciani foi descrita pela família como estudiosa e solidária. Depois de se formar em Administração, decidiu se dedicar a novos aprendizados, aprendendo uma segunda língua e também uma nova profissão: corretagem. No tempo livre, se dedicava a uma ONG, onde ajudava pessoas com temas como empreendedorismo e administração de empresas.

— A Lu era uma pessoa muito boa, muito solidária. Ela também amava passar conhecimento para os outros. Se alguém precisava de ajuda para administrar um negócio, ela sentava e explicava tudo — lembra a irmã Ariane. 

Com o tempo, ela decidiu criar a própria imobiliária e começou a atuar na região metropolitana de Porto Alegre. Mais tarde, expandiu o trabalho para Santa Catarina, onde sempre quis morar em razão da proximidade com o mar. Há cerca de cinco anos, ela se mudou para Florianópolis, onde passou a trabalhar com aluguel de imóveis e também a auxiliar a administração de uma pousada.

Ela era uma pessoa que sonhava. Ela sempre dizia para nós: traça uma meta e vai atrás até tu conquistar. Ela botava no papel, anotava tudo e sempre conseguia realizar os sonhos dela. Ela sempre disse que iria morar na praia, em Florianópolis, e ela foi. A próxima meta dela era viajar para a Europa, porque o sonho da nossa mãe é conhecer Paris. Ela disse que ia realizar o sonho da minha mãe — relembra a irmã.

Entre amigos e familiares, Luciani também era conhecida pelo gosto pela música. Gostava de cantar e chegou a participar do coral de uma igreja em Canoas.

— Ela era uma pessoa doce, todo mundo gostava dela. A gente está tentando seguir, mas em todo momento a gente chora muito. Agora, a gente quer que paguem pelo que fizeram com a nossa irmã — relata Ariane.

Relembre o caso

Polícia Civil de Santa Catarina/Divulgação
Luciani constava como desaparecida no site da Polícia Civil de Santa Catarina.

A corretora de imóveis Luciani Aparecida Estivalet Freitas estava desaparecida desde o início de março em Florianópolis. O desaparecimento foi registrado após familiares buscarem pela vítima e encontrarem o apartamento dela fechado, com alimentos em decomposição. Até o momento, três suspeitos de envolvimento no crime estão presos.

Na sexta-feira (13), a polícia confirmou que parte de um corpo encontrada em um córrego em Major Gercino, no Vale do Rio Tijucas, pertence à mulher. O reconhecimento foi feito por familiares.

Segundo o delegado Anselmo Cruz, o corpo teria sido levado até uma ponte em uma área rural do município e jogado no rio em cinco pacotes. A ação teria contado com a participação de um casal e um adolescente. As buscas continuam para localizar as demais partes do corpo.

De acordo com o delegado Anselmo Cruz, responsável pelo caso, a morte teria ocorrido entre os dias 4 e 5 de março. O corpo teria permanecido no apartamento da vítima até a madrugada do dia 7, quando foi retirado do local pelos suspeitos. 

Prisões

Na quinta-feira (12), a Polícia Civil prendeu uma mulher de 46 anos suspeita de envolvimento no caso. Com ela, foram encontrados diversos objetos que pertenciam à corretora. Durante audiência de custódia, o juiz apontou indícios de homicídio e determinou a prisão temporária da suspeita por 30 dias.

O Ministério Público de Santa Catarina também solicitou que o caso passe a tramitar no Tribunal do Júri, por considerar que há elementos que indicam crime contra a vida. Em depoimento, a mulher negou participação no desaparecimento.

Um casal apontado como suspeito de participação no crime também foi preso na quinta-feira (12). Eles foram localizados em Gravataí, na região metropolitana de Porto Alegre. O homem de 27 anos estava foragido desde 2022, quando teria cometido um latrocínio no Estado de São Paulo.

De acordo com o delegado Anselmo Cruz, responsável pela investigação, há indícios de que o crime tenha sido planejado. O suspeito de 27 anos e o irmão adolescente moravam no mesmo prédio da vítima. A administradora da pousada tinha chave de todos os apartamentos, o que teria facilitado o acesso ao imóvel de Luciani.

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