Polícia



Estelionato

"Me deram golpe quando meu marido estava entre a vida e morte": como se proteger de fraude que usa dados de pessoas internadas

Criminosos se passam por médicos ou representantes de hospitais para pedir pagamentos a famílias de pacientes

19/03/2026 - 13h20min


Vinicius Coimbra
Vinicius Coimbra
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Obter dinheiro de pessoas com familiares internados é o principal objetivo do golpe do hospital. A fraude tem variações: em alguns casos, estelionatários dizem ser médicos ou representantes do plano de saúde do paciente, em outras se identificam como funcionários do hospital ou pessoas ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).

— Sempre tem como pano de fundo a necessidade do pagamento de uma quantia que seria para liberar o procedimento a que a pessoa internada precisa ser submetida — resume o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos da Polícia Civil gaúcha.

A polícia não tem um levantamento do número de golpes do gênero no Estado, mas o aumento de casos investigados e operações indica que a prática tem se tornado frequente. As abordagens às vítimas costumam ocorrer por ligação telefônica ou WhatsApp, com a solicitação de pagamentos via Pix.

— São golpistas com acesso a bancos de dados vazados ou a partir de atuação de hackers. Com isso, têm conhecimento de pessoas hospitalizadas e a relação de familiares desses pacientes — acrescenta o delegado.

Como o golpe acontece

A fraude fez Lilia Luciara Santana Ramos, 52 anos, perder R$ 2,4 mil em julho de 2025. O marido dela foi hospitalizado em Santa Maria, no centro do Estado, após uma cirurgia bariátrica. O homem estava há dois meses no centro de saúde, piorou e precisou ser internado na UTI. Foi quando um golpista entrou em contato pelo WhatsApp.

— Ele se apresentou como médico e disse exatamente o que o médico do meu marido tinha dito dois dias antes. Também mandou foto do prontuário. Disse que meu marido não estava respondendo à medicação e que precisava passar por um exame, que custava R$ 3 mil. Eu disse que tinha (o valor), não ia deixá-lo morrer — conta Lilia.

A vítima fez depósitos que totalizaram R$ 2,4 mil, e não chegou aos R$ 3 mil porque a conta foi bloqueada. Depois, ligou para o médico do paciente, que disse que não tinha conhecimento do fato.

— Não conseguia raciocinar de tão nervosa. Me deram o golpe quando meu marido estava entre a vida e morte em uma UTI — acrescentou a moradora de Alegrete, na Fronteira Oeste.

No início de março, a família de Karina Branco, 32 anos, foi alvo de uma tentativa do mesmo golpe. Pelas redes sociais, os parentes se mobilizaram para uma campanha de doação de sangue ao irmão dela, que está internado em um hospital de Porto Alegre. 

Pelo WhatsApp, um indivíduo que se identificou como médico da instituição conversou com a companheira do paciente.

— Usando termos técnicos, disseram que meu irmão tinha tido uma piora e precisava de um medicamento que não estava disponível no SUS. Por conhecer o sistema, sabíamos que o médico não entra em contato, mas era um momento de desespero, de vulnerabilidade em que podemos acreditar em tudo — pontuou.

Na conversa (veja os prints no começo da matéria), o golpista solicitou a compra de cinco ampolas do medicamento, ao valor de R$ 377,99: "[...] Temos que dar início para não se agravar o quadro clínico do paciente". Ele também passou uma chave Pix com um número de CPF que seria de uma mulher ligada a uma empresa farmacêutica.

— Desconfiamos e ligamos para o hospital, que nos falou que era um golpe. Bloqueamos o contato e registramos um boletim de ocorrência — completa Karina.

Dicas para se proteger

Confirme as informações

Desconfie de números desconhecidos: se receber uma ligação ou mensagem de WhatsApp alegando ser do hospital, não tome nenhuma decisão imediata. Ligue você mesmo para o número da instituição, que consta no site ou nos documentos de internação. Se estiver no hospital, vá até a recepção ou fale diretamente com o médico responsável pelo paciente.

Nunca faça transferências sob pressão

Se o atendimento for pelo SUS, nenhum valor pode ser cobrado. No caso de planos de saúde e hospitais privados, cobranças extras não são solicitadas por telefone com pedido de transferência para contas de pessoas físicas. Golpistas sempre pedem transferências imediatas via Pix. Instituições sérias emitem boletos ou notas fiscais rastreáveis.

Anote tudo e preserve as provas

Tire fotos ou prints da tela de conversas do WhatsApp, com número de telefone e foto do perfil do golpista. Anote o horário da chamada e o nome que a pessoa usou para se identificar. Mesmo que você não tenha caído no golpe, registre o boletim de ocorrência em uma delegacia da Polícia Civil ou na Delegacia Online.

Proteja seus dados e sua privacidade

Em muitos casos, o golpista já tem o nome do paciente e tenta fazer você confirmar o CPF ou outros dados. Não forneça nada. Evite postar em redes sociais detalhes sobre o estado de saúde de familiares ou o hospital onde estão internados. Criminosos monitoram essas informações para dar veracidade ao golpe.

Fonte: Polícia Civil

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