Polícia



Tiroteio

"A gente se jogou no chão", descreve amigo que estava ao lado de vítima de bala perdida em Canoas

Brigada Militar trocou tiros com ladrões de carro no sábado, e, durante o confronto, pedestre foi atingido

06/04/2026 - 15h24min


Leticia Mendes
Leticia Mendes
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Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Flávio Lucas dos Santos Grubert, 34 anos, foi alvejado por um único disparo no rosto. Ele foi hospitalizado, mas não resistiu.

No sábado (4) de folga do trabalho, o auxiliar de carga Flávio Lucas dos Santos Grubert, 34 anos, foi de Cachoeirinha, onde residia, até Canoas, na Região Metropolitana, ajudar na borracharia da família. Passou a manhã lavando carros ao lado do pai, o borracheiro Ênio Vieira Grubert, 58. 

Após o almoço, Lucas, como era chamado, deixou o estabelecimento com o amigo Eron Franco Santos, 41, em direção a um mercado, onde pretendia comprar bebidas para um aniversário. A cerca de 500 metros da borracharia, os dois seguiam pela via quando ouviram sirenes. Eram viaturas da Brigada Militar, que perseguiam um Peugeot 208, roubado no bairro Marechal Rondon, por volta de 13h40min.

— Quando a gente sentiu os disparos, porque os tiros passaram dos dois lados, o pai do Lucas, gritou: "Deita no chão, que é tiro". A gente se jogou no chão. Deitou praticamente os três ao mesmo tempo — descreve Eron. 

O pai de Lucas estava alguns metros à frente, com o carro estacionado. O borracheiro relata ter ouvido dezenas de disparos. 

— Aproximadamente 30, 40 tiros deram. Não foi só bandido que atirou, a Brigada atirou demais. Tinha um velório do outro lado da rua. Quase foi atingida uma senhora, que estava descendo de outro carro. Deitei no chão. Quando passou, chamei o Lucas e ele não se mexeu mais. Meu filho já tinha levado um tiro — recorda o pai. 

Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Local da troca de tiros, no bairro Mathias Velho, em Canoas.

Lucas foi alvejado por um único disparo no rosto. Ele chegou a ser hospitalizado, mas não resistiu e morreu no domingo (5). O pai relata que o filho trabalhava havia cerca de 15 anos na mesma empresa, que faz entregas de hortaliças em escolas da Região Metropolitana. 

— Era um trabalhador. Em feriados, era dia dele trabalhar mais um pouco. Cortar grama, fazer qualquer serviço, cortar uma árvore. Ele não parava nunca. Então, infelizmente, foi perdido uma pessoa, uma vida muito especial —  desabafa. 

No velório do marido, nesta manhã, em Canoas, Camila Alves de Oliveira, 36 anos, repetia que Lucas tinha mãos de trabalhador. Não se permitia descansar. Os dois mantinham um relacionamento havia 15 anos e eram casados desde 2020. 

Não tinha vício. Gostava de ir na igreja. Sempre disposto a ajudar. Na enchente, mesmo sem saber nadar, ele entrou num caiaque e salvou oito pessoas aqui no bairro. Salvou cachorros. Nada vai trazer meu marido de volta, mas a gente precisa de respostas.

CAMILA ALVES DE OLIVEIRA

Viúva de Flávio Lucas dos Santos Grubert

Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Lucas era casado com Camila e tinha um enteado adolescente.

A investigação

A investigação da Polícia Civil deve elucidar de onde partiu o disparo que atingiu Lucas. Segundo a delegada Graziela Zinelli, da Delegacia de Homicídios de Canoas, os dois homens que estavam no Peugeot tinham roubado o veículo naquela tarde, no estacionamento de um comércio. A Brigada Militar passou a fazer buscas e localizou o carro.

— Essa senhora foi abordada por um desses indivíduos que portava uma arma de fogo e também se viu numa situação de risco. A partir daí, se desenrolou essa situação, que acabou vitimando uma pessoa que não tinha nenhum envolvimento com o crime — disse.

Conforme a delegada, o inquérito deve elucidar todas as circunstâncias que levaram a esse desfecho, não só do comportamento dos criminosos, mas, também dos policiais militares. As informações repassadas até o momento indicam que os bandidos teriam dado início ao tiroteio. 

— O que nos cabe aqui, na condição de policiais civis, é fazer uma investigação bastante rigorosa, elucidando todas as circunstâncias, coletando e analisando imagens, aguardando as perícias técnicas, que ficam a cargo do Instituto Geral de Perícias e a oitiva das pessoas envolvidas —  afirmou. 

A polícia está coletando imagens de câmeras de segurança de estabelecimentos e do próprio monitoramento eletrônico para detalhar como se deu a perseguição.

— O que nós temos, até então, é que esses criminosos efetuaram disparos na tentativa de atrapalhar o cerco policial,  e que a ideia, ali, era que alguém talvez fosse atingido e que a polícia tivesse que parar para prestar socorro — afirmou a delegada.

Sobre o número de disparos, a policial disse que a investigação também deve elucidar este ponto. 

Durante a troca de tiros, os dois suspeitos do roubo também foram baleados. Segundo a Brigada, a dupla foi socorrida pelo Samu e encaminhada para atendimento hospitalar. Um deles,  de 25 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu. A identidade dele não foi divulgada. O outro seguia hospitalizado até esta segunda-feira, em estado grave. 

Em nota, a Brigada Militar se posicionou sobre o caso: 

"A Brigada Militar lamenta profundamente o ocorrido. Como instituição dedicada à proteção da sociedade, reafirma seu compromisso com a preservação da vida e a defesa dos direitos de todos os cidadãos".

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