Polícia



Estelionato

"Cheguei no banco para sacar meu salário e tinha só R$ 200": veja relatos de vítimas do golpe do falso empréstimo

Conforme a polícia, alguns idosos chegaram a ser dopados para assinarem contratos e autorizações aos criminosos; quadrilha doi desarticulada em operação da Polícia Civil

08/04/2026 - 11h56min


Pâmela Rubin Matge
Pâmela Rubin Matge
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Um panfleto com informações sobre uma suposta agência de empréstimos e um número de WhatsApp pareceu, à primeira vista, a solução para o problema de Inês (nome fictício), 76 anos, que precisava ajudar a filha com urgência. A idosa entrou em contato com o telefone indicado, foi à suposta sede da financeira, na Avenida Osvaldo Aranha, no Bairro Bom Fim, e confiou em quem prometia ajudá-la. Dias depois, o que era já era uma preocupação ganhou proporções ainda maiores.

— Cheguei no banco para sacar meu salário e tinha só R$ 200 — conta a pensionista, uma entre centenas de pessoas vitimadas por uma quadrilha investigada por estelionato e associação criminosa, e desarticulada pela Polícia Civil na Operação Fantoccio, nesta quarta-feira (8).

A falsa agência financeira era apresentada nos panfletos com os nomes Prime Consultoria Financeira ou Central Consultoria Financeira. Os golpistas também agiam por meio de contato ativo via WhatsApp, apresentando-se como correspondentes de instituições financeiras nas quais idosos já possuíam empréstimos. Ofereciam suposta redução ou recálculo de juro, mas, na verdade, utilizavam os dados pessoais e financeiros das vítimas para abrir contas e fazer novas operações, desviando o dinheiro para conta de terceiros. 

Conforme a polícia, algumas vítimas chegaram a ser dopadas para assinarem contratos e autorizações aos golpistas.

— Tudo que tenho é essa pensão, meu salário do mês. Tenho feito o pagamento mínimo do cartão de crédito e cortado todos os gastos possíveis, até a comida. Não consegui ajudar minha filha, não consegui me reerguer, e está virando uma bola de neve — desabafa Inês, cuja identidade é preservada nesta reportagem, assim como a de outra vítima (leia abaixo). 

Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Idosa de 76 anos é uma das vítimas dos criminosos.

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Desde que o marido faleceu, há cerca de 10 anos, a pensionista teve de se reorganizar com as finanças. Ela mantinha uma vida simples, mas conseguia pagar as contas em dia: luz, condomínio e supermercado. Semanalmente, ia a um salão de beleza.

Quando deparou com a conta esvaziada pelos criminosos, os hábitos foram readaptados. O mais difícil, conforme a idosa, foi a sensação de impotência e a insegurança.

A gente vê na mídia esses casos de golpe, mas nunca acha que vai acontecer contigo. Sinto-me envergonhada. Acordo no meio da noite pensando nisso. Minha vida mudou totalmente. Só queria justiça, que essas pessoas fossem presas e parassem de fazer mal por aí.

VÍTIMA, 76 ANOS

Ameaça e agressão

Armindo, 73 anos, teve de mudar de endereço depois de ser perseguido, ameaçado e violentado.

No caso dele, o prejuízo foi de R$ 13 mil, em dois empréstimos: um de R$ 5 mil e outro de R$ 8 mil. Quando percebeu que foi vítima de golpe e confrontou os criminosos, foi abordado e agredido.

Minha vida virou um inferno. Tive de ir para psiquiatra e psicólogos e tomar medicações para depressão e ansiedade. Fico pensando no que aconteceu. Não caiu a ficha ainda. Meu salário reduziu a nada.

VÍTIMA, 73 ANOS

Operação e prisões

A Operação Fantoccio (marionete, em italiano) cumpriu seis mandados de prisão nesta quarta-feira. Até o momento, cinco pessoas foram presas. Eles são investigados por estelionato e associação criminosa. A investigação teve início no final de 2024 pela Delegacia de Proteção ao Idoso.

Conforme a delegada Ana Luiza Caruso, responsável pelo caso, análise técnica dos aparelhos celulares apreendidos apontou que os criminosos utilizavam substâncias para dopar vítimas, reduzindo a capacidade de reação dos idosos, que eram então conduzidos aos procedimentos finais da fraude.

Em diálogos recuperados pela polícia, os integrantes do grupo chegavam a debochar da confusão mental das vítimas após o consumo de café "batizado".

O grupo de WhatsApp que os criminosos mantinham para as negociações fraudulentas tinha, até março, 400 idosos captados. Desses, 19 registraram ocorrência na Delegacia do Idoso. O prejuízo somente entre os que têm boletim policial ultrapassa R$ 1 milhão. As vítimas, todas aposentadas, perderam entre R$ 5 mil e R$ 80 mil.

Procure ajuda

  • Disque 100
  • Polícia Civil: telefone 197 e WhatsApp (51) 98444-0606
  • Delegacia Online da Polícia Civil no RS
  • Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso de Porto Alegre: Palácio da Polícia, Avenida Ipiranga, 1.803, bairro Santana - 51 3288-2303
  • Defensoria Pública do Estado do RS: orientação jurídica e ações civis
  • Ministério Público: (51) 3295-1100
  • CRAS e Creas: apoio social e acompanhamento familiar

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