Polícia



Violência contra a mulher

Feminicídios no RS têm aumento de 50% no primeiro trimestre na comparação com o mesmo período de 2025

Conforme dados da Polícia Civil, 83% das vítimas não possuíam medida protetiva vigente contra o autor do crime. A maioria delas foi morta dentro de casa por companheiros ou ex-companheiros

02/04/2026 - 11h14min


Gabriela Plentz
Gabriela Plentz
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Bruno Todeschini/Agencia RBS
Ao olhar para as vítimas, 22 tinham filhos.

O Rio Grande do Sul registrou 24 feminicídios entre janeiro e março de 2026. O número representa um aumento de 50% com relação aos três primeiros meses do ano passado, quando 16 mulheres foram mortas em razão do gênero.

Conforme dados da Polícia Civil, as vítimas não possuíam medidas protetivas vigentes contra os autores em 83% dos casos. Entretanto, metade delas já tinha algum registro de ocorrência policial antes da morte. 

— De modo algum podemos culpar essas mulheres que morreram em silêncio sem medida protetiva. Pesquisas indicam que a mulher vítima  leva em média 10 anos para pedir ajuda, registrar uma ocorrência. O nosso maior desafio é chegar antes que este crime aconteça — avalia a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher da Polícia Civil do RS.

O ano de 2026 começou com 12 feminicídios. Outros oito foram registrados em fevereiro. No mês passado, a Polícia Civil contabilizou quatro mulheres assassinadas no contexto de violência doméstica. 

Quando se analisa o perfil dos agressores, o caso da vítima mais recente, Dione Poisl, 74 anos, é o único que se difere do padrão: segundo a apuração da Polícia Civil, o principal suspeito pela morte da idosa é o filho, Eder Fernando Poisl, de 44 anos

Nos outros 23 casos são apontados como autores dos crimes os companheiros ou ex-companheiros das vítimas: 13 eram ex-parceiros e 10 ainda mantinham relacionamento com a vítima, sendo um desses casos o de uma mulher apontada como a assassina da companheira.

Além disso, 75% dos homens apontados como autores dos feminicídios possuíam algum registro policial, sendo que outros 12,5% eram fichados inclusive por violência doméstica. Segundo a Polícia Civil, 58% deles usaram armas brancas para cometer o crime, sendo que outros 20% empregaram armas de fogo. A maior parte delas, em 83% dos casos, foi assassinada dentro de casa. Ao olhar para as vítimas, 22 tinham filhos. 

Casos em março

Morta no último dia 17 em Esteio, Daiane Rosa Zastrow, 39 anos, entrou para os indicadores que mais se repetiram neste ano no Estado: foi assassinada com uso de arma branca, dentro de casa, e por um homem com o qual manteve relacionamento por cerca de 15 anos. 

O casal possuía histórico de violência doméstica, sendo que o homem, Claudio Francisco Davi da Silva, de 60 anos, também tinha antecedentes criminais por violência contra a mulher, estupro, lesão corporal, furto, receptação, posse e tráfico de entorpecentes, ameaça e posse ilegal de arma de fogo de uso restrito. 

Entretanto, um mês antes de ser morta, Daiane chegou a solicitar uma medida protetiva contra Claudio. Conforme a Polícia Civil, a medida não estava em vigor porque o suspeito não foi localizado pelo oficial de Justiça para intimação.

No caso de Angélica Ines Strelow, 28 anos, a medida protetiva estava vigente. A vítima também era acompanhada pela Patrulha Maria da Penha, mas, mesmo assim, foi morta a facadas pelo ex-companheiro em Camaquã.

O homem se entregou à polícia e foi preso. Em 87,5% (21) dos feminícidios deste ano, o autor foi detido, como no caso de Gislaine Reguss, de 34 anos, morta a facadas pelo companheiro em Montenegro.

Em outros 12,5%, três deles, o homem morreu, como no caso da ex-vereadora Roseli Vanda Pires Albuquerque, 47 anos, morta em fevereiro em Nova Prata pelo ex-marido, Ari Albuquerque, 48, que cometeu suicídio após o crime.

— Isso no mínimo nos faz refletir o quanto nós precisamos ampliar a rede de proteção à mulher, o quanto nós precisamos integrar forças e outras instituições. A gente não pode pensar só na aplicação da lei, com o que vai acontecer com o preso ou não, nós temos que também integrar uma questão psicológica dentro dessa rede — avalia a delegada aposentada Silvia Coccaro, dirigente da Associação dos Delegados de Polícia do Rio Grande do Sul.

Ainda segundo a diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher, delegada Waleska Alvarenga, a Polícia Civil gaúcha atua em dois eixos. No repressivo, com operações policiais constantes, qualificação da investigação e prisões. No eixo da prevenção, a busca é pela conscientização através de palestras e campanhas na internet não só para apresentar os sinais as mulheres como também para dialogar com os homens.

Se o homem faz parte do nosso problema, ele precisa necessariamente fazer parte da nossa solução. A gente entende que vamos vencer essa criminalidade com a rede de proteção integrada. Nós precisamos do Poder Judiciário, do Ministério Público, da Defesoria Pública, da OAB, das demais instituições, das ONGs e da sociedade civil.

Conforme a Secretária da Mulher do governo do RS, Fábia Almeida Richter, a pasta está trabalhando para fortalecer o combate à violência contra a mulher nos municípios.

— O objetivo é que em cada município, nós estejamos com equipes capacitadas, ligadas à proteção da mulher para que possamos identificar precocemente o risco de violência doméstica e, uma vez identificado, aplicar instrumentos de avaliação de risco e, conversando com essa mulher, entender como ela está vendo a sua situação.

O balanço parcial ainda não consta oficialmente nos dados da Secretaria da Segurança Pública, que afirma que ainda aguarda conferências para divulgar os indicadores oficialmente.

Como pedir ajuda em caso de violência contra mulher

Brigada Militar – 190

  • Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.

Polícia Civil

  • Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente, à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
  • Em Porto Alegre, há duas Delegacias da Mulher. Uma fica na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
  • A outra fica entre as zonas Leste e Norte, na Rua Tenente Ary Tarrago, 685, no Morro Santana. A repartição conta com uma equipe de sete policiais e funciona de segunda a sexta, das 8h30min ao meio-dia e das 13h30min às 18h.
  • As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.

Delegacia Online

  • É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.

Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180

  • Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.

Ministério Público

  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
  • Neste espaço é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Acesse o site.

Defensoria Pública - Disque 0800-644-5556

  • A vítima pode procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).

Disque 100 - Direitos Humanos

  • Serviço gratuito e confidencial do Governo Federal, disponível 24 horas por dia, para proteção e denúncias de violações de direitos humanos

Escuta Lilás — Disque 0800 541-0803

Canal de escuta às mulheres prestando orientação jurídica, psicológica e social. Segunda à sexta, das 8h30min às 18 horas.

Como solicitar a medida protetiva online

  • A vítima deve acessar o site da Delegacia de Polícia Online da Mulher, registrar a ocorrência pela internet e preencher um formulário de avaliação de risco;
  • A mulher pode solicitar medidas protetivas de urgência previstas na Lei Maria da Penha – como afastamento do agressor da residência, proibição de aproximação, restrição de porte de arma, entre outras;
  • Um filtro de urgência será aplicado ao caso, que será direcionado aos plantões policiais do Estado;
  • A ocorrência e o pedido de medidas protetivas são encaminhados em até 48 horas ao Poder Judiciário, que deve decidir em até outras 48 horas;
  • A vítima receberá confirmação do protocolo, explicação do fluxo e orientação para procurar um local seguro enquanto aguarda a decisão;
  • No caso de concessão da medida, um oficial de Justiça intima o agressor;
  • A Polícia Civil e a Brigada Militar são informadas e passam a fazer monitoramento a distância, aguardando informações do Poder Judiciário ou da própria vítima e familiares em relação ao descumprimento da medida. Também há o monitoramento eletrônico com tornozeleiras – hoje há cerca de 300 agressores monitorados no RS;
  • Se o agressor desobedecer a medida (por exemplo, se aproximar da vítima), pode vir a ser preso em flagrante.

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