Fique atento
Golpe do pedágio digital usa sistema free flow para aplicar fraudes em motoristas; veja como agem os criminosos
Estelionatários exigem pagamento de supostas pendências para evitar multas e pontos na carteira de habilitação


Estelionatários usam a modernização do sistema de pagamentos de pedágios no Brasil como estratégia de aplicação de golpes em motoristas. Os criminosos fazem cobranças indevidas, geralmente por e-mail ou WhatsApp, sob ameaça de cobrança de multa em caso de não pagamento. A situação fez com que concessionárias do Estado emitissem alertas aos condutores (veja dicas no final da reportagem).
O foco é o sistema free flow, que elimina praças físicas, cabines e cancelas. Em vez de parar ou reduzir a velocidade para pagar, os motoristas passam direto sob estruturas metálicas que registram a passagem automaticamente.
Condutores com tags no veículo são descontados no momento da passagem, mas quem não tem o dispositivo deve pagar o valor em até 30 dias para evitar multas.
— A dica universal é não clicar em links ou imagens enviadas por e-mails ou contatos desconhecidos. Se receber e-mail, SMS ou WhatsApp que trate de dívida ou cobrança, em vez de clicar, acesse os sites oficiais dos prestadores de serviços ou vendedores dos produtos e verifique se realmente existe um pagamento em aberto — orienta o delegado Filipe Bringhenti, diretor da Divisão de Crimes Cibernéticos da Polícia Civil gaúcha.
Segundo ele, no golpe, os criminosos constroem e-mails e sites com layout e identidade visual similares aos oficiais, o que dá “credibilidade” ao contato. A busca por lucro é a premissa: seja por meio de pagamento indevido ou de links com programas capazes de roubar dados sensíveis da vítima, com o objetivo final de vendê-los a outros estelionatários.
— Golpes e fraudes são praticados de forma massificada e indistinta. Todo o contato parte de um vazamento de dados. Nossos e-mails e números de telefone não costumam ser escolhidos de forma randômica. Cópias de bases de dados são adquiridas por golpistas e estes se utilizam delas para que os ataques sejam “corretos” — detalha.
Como é o golpe do pedágio
A reportagem teve acesso a um dos sites usados no golpe (veja imagem acima), que imita o oficial pedagiodigital.com, usado para consultar e pagar passagens em rodovias sob a concessão da Motiva e EcoRodovias.
O direcionamento ao endereço fraudulento se dá por um e-mail, que dizia o seguinte no título: “Atenção, motorista: pedágio em aberto no seu cadastro”.
Depois, há um alerta sobre multas. “Identificamos passagens pendentes vinculadas à sua placa. Caso não sejam quitadas, o débito será registrado junto ao DETRAN, gerando multa, pontos na CNH e restrição no veículo.”
O golpe usa o termo genérico "Detran" (Departamento Estadual de Trânsito) para ludibriar o motorista; no caso do Estado, o Detran não é responsável pela fiscalização de evasão de pedágio.
Em uma tentativa de induzir ao pagamento rápido, a página exibe um alerta sobre o risco de punição prevista na legislação brasileiras nesses casos: uma infração grave que custa R$ 195,23 e gera cinco pontos na carteira de habilitação.
Para regularizar a situação, o usuário deve acessar um link e digitar a placa do veículo e consultar os débitos.
A reportagem digitou uma placa inexistente. Mesmo assim, foram exibidas duas multas de R$ 49,13 e R$ 41,63, que, com os respectivos juros e a multa, somavam R$ 127,86.
Um código Pix foi gerado para pagamento em até 15 minutos. A conta informada para receber o valor, porém, é de uma empresa com sede em Goiânia (GO), não relacionado à concessionária responsável pelo Pedágio Digital.
Cuidados para evitar cair no golpe do pedágio
- Evite utilizar buscadores para procurar o site, pois existem sites falsos que pagam anúncios para aparecer no topo das buscas. Digite diretamente na barra de endereço: pedagiodigital.com.
- A única forma segura de conferir pendências é acessando o site oficial ou o aplicativo do Pedágio Digital. Se o sistema indicar que não há débitos, o usuário pode desconsiderar qualquer cobrança externa.
- Antes de realizar qualquer pagamento, acesse o sistema do Pedágio Digital e confira se o valor, a data e o local da passagem condizem com o trajeto efetivamente realizado.
Fonte: EcoRodovias/Motiva
O que dizem as empresas
EcoRodovias/Motiva
"A plataforma não envia e-mails, SMS ou mensagens de WhatsApp com links para cobrança ou boletos, assim como não envia comunicação a respeito de débitos em aberto.
Esta é uma ação que cabe ao motorista: sempre que passar por algum pórtico de cobrança do free flow de rodovias sob concessão da EcoRodovias ou Motiva, o cliente precisa acessar o site pedagiodigital.com ou o app da marca e verificar os débitos em aberto e realizar a quitação em até 30 dias após a passagem pelo sistema free flow.
No caso do encerramento da concessão da Ecovias Sul (EcoSul), o Pedágio Digital esclarece que não há qualquer diligência nesse sentido, uma vez que a rodovia não atuava por meio do sistema free flow, ou seja, a forma de pagamento de pedágio nesta rodovia acontecia por meio das praças físicas com a efetuação do pagamento no momento da passagem ou por tag."
Empresa Gaúcha de Rodovias (EGR)
"A estatal esclarece que não está cadastrada em sistemas de cobrança de pedágio digital e não utiliza o modelo de free flow (pedágio eletrônico) em suas rodovias. Portanto, qualquer mensagem, site ou contato que indique cobranças nesse formato deve ser considerado suspeito.
Outro ponto de atenção é que as cobranças não aparecem diretamente em nome da empresa, mas sim como supostos débitos vinculados a cidades onde há praças de pedágio administradas pela EGR. Essa estratégia busca dar aparência de legitimidade ao golpe e confundir os usuários.
Também foi identificado que buscas pelo termo “pedágio digital” podem direcionar o usuário a páginas fraudulentas, criadas para aplicar golpes. Nesses ambientes, são solicitados dados pessoais e pagamentos indevidos, o que representa risco à segurança.
A EGR reforça ainda que não entra em contato direto com motoristas para realizar cobranças, seja por mensagem, ligação ou redes sociais.
A recomendação é que, ao se deparar com esse tipo de conteúdo, o usuário não informe dados pessoais, não realize pagamentos e procure confirmar as informações em canais oficiais."
Concessionária Caminhos da Serra Gaúcha (CSG)
"O pagamento do pedágio deve ser realizado exclusivamente pelos canais oficiais da concessionária. A CSG recomenda ainda que os motoristas evitem clicar em links enviados por mensagens, redes sociais ou encontrados em mecanismos de busca, caso não tenham certeza da procedência. Em situações de dúvida, o usuário deve contatar imediatamente os canais oficiais da concessionária, que são csg.com.br ou 0800 122 0240.
Formas de pagamento
Tag eletrônica: com o dispositivo instalado no para-brisa, a cobrança é feita automaticamente, sem necessidade de ação do usuário. As tags estão disponíveis em operadoras como Sem Parar, ConectCar, Veloe, Move Mais, Taggy, entre outras. O motorista pode escolher a empresa que melhor se adequa à sua rotina de uso.
Aplicativo CSG FreeFlow: disponível gratuitamente nas lojas virtuais, o app permite que o cliente acompanhe as passagens, consulte extratos e efetue pagamentos via Pix ou cartão de crédito. É possível inserir créditos antecipadamente, garantindo a cobrança automática a cada passagem, ou pagar posteriormente dentro do prazo de 30 dias. O extrato de tarifas é atualizado em até 48 horas após o trânsito pelo pórtico.
Bases de atendimento e totens digitais: a CSG disponibiliza nove bases de atendimento ao longo das rodovias concedidas, localizadas em municípios como Ipê, Flores da Cunha, Farroupilha, Bom Princípio, São Sebastião do Caí, Capela de Santana e Montenegro. Nos totens, é possível pagar em dinheiro, Pix ou cartões de débito e crédito, sem necessidade de cadastro prévio."