Polícia



Duas vidas

Assassinato em estação do trensurb foi encontro trágico entre dois adolescentes com trajetórias opostas

Daniel, estudante e trabalhador, foi morto em assalto. Suspeito tem quase a mesma idade e vida marcada por atos infracionais

11/05/2026 - 11h51min


Humberto Trezzi
Humberto Trezzi
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Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Daniel estudava em Venâncio Aires.

O destino cruzou as vidas de dois adolescentes de trajetórias opostas no último sábado (2), em Canoas. Um deles, Daniel Thiesen Pinheiro, 17 anos, estudava, trabalhava e era estimado pelos colegas. Teve um celular roubado pelo outro rapaz, de 16 anos, com histórico de conflitos familiares e passagens pela polícia por atos infracionais análogos a tráfico de drogas, ameaça, dano e agressão. Acumulava também inimigos. O resultado do encontro de duas vidas tão diferentes é uma tragédia. No assalto, Daniel pegou o aparelho de volta e foi assassinado a golpes de canivete.

O fato aconteceu por volta das 15h30min na estação da Trensurb no bairro canoense Fátima. Daniel, que morava e estudava em Venâncio Aires, no Vale do Rio Pardo, era aguardado na porta do trem em Canoas pela mãe, a psicopedagoga e terapeuta Ana Paula Thiesen. Os dois planejavam ir ao cinema. Ela conta que estavam conversando quando o adolescente arrancou o celular das mãos de Dani (como era chamado pela família e pelos amigos), que instintivamente se agarrou ao menor e puxou o telefone de volta. Foi atingido no pescoço.

Tudo aconteceu muito rapidamente. A mãe de Daniel estranha que não houve ameaça, algo como “Passa o telefone ou vou te esfaquear". Os golpes pegaram uma artéria.

Ana usou uma echarpe para conter o sangue do filho. Daniel desfaleceu aos poucos nos braços da mãe, tentando consolá-la. Sem raiva, nem sequer contra quem o atingiu, descreve ela.

— Foi mal. Mas calma, mãe, calma... peguei o celular de volta — disse o jovem antes de perder a consciência.

É ainda atordoada pelos piores momentos de sua vida que Ana recorda instantes de humanismo: a corrente de solidariedade que se formou para tentar salvar seu filho. Populares carregaram Daniel nos braços, escadaria da estação abaixo, até a pista da BR-116. Alguns interromperam o trânsito, com braços levantados, tentando parar aos gritos os carros. Até que um motorista freou, ligou o pisca-alerta e abriu as portas do veículo. Não perguntou nada, só acelerou. O adolescente desmaiado chegou em menos de cinco minutos ao Hospital Nossa Senhora das Graças, no mesmo bairro onde a mãe mora. Daniel recebeu transfusão de sangue, teve duas paradas cardiorrespiratórias, os médicos tentaram diversas manobras de reanimação, mas não conseguiram salvá-lo. Ele foi sepultado no Cemitério Santo Antônio, em Canoas, perto de onde nasceu e se criou.

O rapaz apontado como autor do assalto foi localizado e apreendido por policiais do 15º Batalhão de Polícia Militar de Canoas quando perambulava pela Rua Guilherme Schell, próximo ao local do fato. Estava com o calção ensanguentado e com ele foi encontrado o canivete.

Estudo, trabalho e amigos

Daniel Thiesen Pinheiro estudava no terceiro ano do Curso Técnico em Informática do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) de Venâncio Aires. Foi para lá que ele, sua irmã e o pai dos dois se mudaram desde Canoas, onde viviam, após a separação dos pais. 

Daniel trabalhava em uma gráfica em Venâncio, onde era elogiado pela permanente disposição ao serviço. Em nota enviada à reportagem, colegas e chefes o descrevem como uma pessoa especial e sempre com sorriso no rosto: "O Dani sempre foi muito responsável, um menino bom, de um coração enorme, de uma paz de espírito ainda maior".

Nas horas vagas, gostava de assistir a partidas do time do coração, o Grêmio, e escutar música. Era eclético: ia de sertanejo a Pink Floyd, passando por Michael Jackson. Aliás, a ideia dele e da mãe era verem a cinebiografia de Michael no dia em que morreu.

Tinha muitos amigos em Canoas e Venâncio Aires. Tanto que o instituto onde estudava decretou luto e colegas viajaram à Região Metropolitana para a despedida.

Passado violento e presente entre abrigo e centro de internação

O adolescente suspeito de matar Daniel tem uma série de atos infracionais registrados. No sábado fatídico, estaria em uma de "praticar maldade". É o que diz, em depoimento, a namorada dele, uma garota de 14 anos que morava no mesmo abrigo de acolhimento institucional que a Fundação de Proteção Especial (FPE) destina a adolescentes que são ameaçados em suas cidades de origem. Ele tinha desafetos em Porto Alegre, onde cumpriu até 29 de abril uma medida socioeducativa, por infração análoga a tráfico de drogas, em um centro de internação para adolescentes infratores. O rapaz tem passado violento e, inclusive, causou lesões a familiares

A namorada dele, que é de outra região, diz que no sábado o namorado e um amigo dele haviam ido a Porto Alegre passear. Ao voltar, o companheiro mostrou a ela um canivete recém-adquirido. Os dois rapazes teriam contado a ela que ele havia praticado um ato infracional semelhante ao roubo naquela mesma manhã. O casal, então, saiu a esmo pelo bairro Fátima, "para fumar", até que o adolescente anunciou que iria agir de novo. A garota assegura que tentou dissuadir o namorado, aconselhando que arrumasse serviço em um mercado em vez de praticar crimes, mas o rapaz permaneceu irredutível. Prometeu fazer uma última ação e, depois, ir atrás de emprego. Levava o canivete no bolso do calção. Ao entrarem na estação Fátima da Trensurb, avistaram uma senhora e um adolescente mexendo num celular. "Percebi a maldade e pedi que meu namorado não fizesse isso, mas já escutei ele anunciando o assalto e puxando o telefone", descreveu ela, em depoimento. O que se segue é a desgraça. Daniel reagiu e foi atingido por dois golpes de canivete no pescoço. A garota diz que viu o ferimento e descreve: "Parecia um filme de terror". Logo depois, ela fugiu de volta para o abrigo.

O adolescente deve responder por infração análoga ao crime de latrocínio, o roubo com morte. Ele foi reencaminhado a um centro para adolescentes infratores. O tempo máximo de internação neste tipo de instituição é de três anos.

A namorada também acabou apreendida na manhã de quinta-feira (7). Conforme o delegado Marco Guns, responsável temporário pela Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Canoas, a jovem foi apreendida porque teria ajudado no ato infracional análogo a roubo. Ela não vai responder pela morte de Daniel, porque não participou da agressão física. A garota também foi encaminhada para a Fase.

Mãe da vítima escreveu ao suspeito

Arquivo pessoal/Arquivo pessoal
Mãe fez edição de foto de Daniel (D) para colocá-lo ao lado de São Carlo Acutis, de quem o filho era devoto.

Daniel nasceu em 25 de julho, Dia Mundial da Paz, chamado também Dia do Perdão. Ana acha que não é coincidência e, até inspirada nisso, está disposta a compreender o assassino do filho, apesar de ser favorável à redução da maioridade penal para 16 anos, para que crimes como esse sejam punidos com rigor. 

— Eu não consigo ver esse menino que assaltou como um monstro, porque tem uma história por trás, sabe? Era drogado, roubava, mas a vida o tratou de forma diferente. Talvez não tenha conhecido o pai ou a mãe. Sei que vivia num abrigo — pondera a pedagoga. 

Ana escreveu isso para o adolescente. Em meio à dor, no mesmo dia em que viu o filho ser morto, a terapeuta redigiu uma carta às pressas, dentro da delegacia, que foi entregue ao menor. Abalada, recorda apenas trechos. Algo como "procura fazer alguma coisa para honrar a vida que tu tiraste. Quando criança, alguém te pegou no colo, alguém te amou. Eu entendo que tu vives do tráfico e que essa situação é resultado de uma droga geral que é o mundo em que vivemos". Policiais que entregaram a carta ao rapaz dizem que ele não esboçou qualquer reação após ler o recado. 

Ana não se espanta. Prefere falar do filho. Acha curioso que Daniel tenha sido sepultado em 3 de maio, mesmo dia em que aniversaria o santo do qual ele era devoto. Trata-se de São Carlo Acutis, um jovem canonizado no ano passado pelo Vaticano. O rapaz, considerado o primeiro beato de jeans e tênis, que pregava o Evangelho pela internet, morreu em 2006, aos 16 anos, de leucemia. Tem fama de milagroso. Após a perda do filho, Ana postou nas redes sociais uma montagem em que Daniel e Acutis aparecem abraçados e sorridentes. Ela tem esperança de que os dois se encontrem.

— Estou convencida de que o Daniel é um ser que veio ao mundo com uma missão, breve e pacífica: ajudar a tornar os humanos melhores — conclui Ana.

O pai de Daniel, Marcelo Pinheiro, questiona a ineficácia de medidas socioeducativas aplicadas ao suspeito anteriormente:

— O mais importante é questionar qual a imputação de responsabilidade de alguém que deu a liberdade a esse jovem.

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