Polícia



Violência contra mulher

"Enterrei minha filha no Dia das Mães": família relata dor após feminicídio em Porto Alegre

Isabella Borges da Rosa Pacheco, 22 anos, foi assassinada pelo próprio companheiro, segundo a polícia. Jovem tinha um bebê de um ano e quatro meses

12/05/2026 - 10h20min


Pâmela Rubin Matge
Pâmela Rubin Matge
Enviar E-mail
Arquivo pessoal/Imagem cedida
Isabella tinha um bebê de uma no e quatro meses.

Quase na esquina do acesso D com a Rua Mutualidade, no bairro Santa Tereza, em Porto Alegre, a parede da casa amanheceu repleta de balões brancos, frases e cartazes. A manifestação estampava a dor e a revolta de amigos e familiares diante do que aconteceu no local.

Naquele imóvel, por volta das 10h30min de sábado (9), a cuidadora de idosos Isabella Borges da Rosa Pacheco, 22 anos, foi assassinada. Conforme a polícia, o suposto autor do disparo de arma de fogo que matou a jovem é Nicollas Ronald Moraes dos Santos, 23 anos. Ele era companheiro da vítima e foi preso em flagrante horas depois. Isabela figura o 33º feminicídio do Rio Grande do Sul, somente neste ano.

— Não tive coragem de vir aqui no sábado, mas enterrei minha filha no Dia das Mães, e meu neto vai crescer sem ela — desabafa a mãe da jovem, Siomar Borges da Rosa, 49 anos.

Isabella tinha um bebê de um ano e quatro meses, que, segundo parentes, estava na casa da sogra no momento do crime. Foi ela quem teria socorrido a nora após a movimentação da vizinhança ao ouvir o barulho do tiro. A mulher segue com o neto, mas a família materna informou que pedirá a guarda do menino.

A jovem foi baleada na região do rosto, e o projétil atingiu o cérebro. Ela chegou a receber atendimento médico, mas não resistiu. O corpo de Isabella foi sepultado no domingo (10), no Cemitério Santa Casa, em Porto Alegre.

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Familiares e amigos fizeram protesto na casa onde a vítima morava e foi morta.

Medidas protetivas

O relacionamento da vítima com o agressor começou na adolescência. Valéria Borges Pacheco, 21 anos, lembra que o suspeito foi o primeiro namorado da irmã Isabella, ainda na época da escola. A relação sempre foi marcada por brigas, ciúmes, idas e vindas. Há cerca de três anos, a jovem chegou a ir embora para Salvador (BA) com ele, mas voltou um mês antes de ganhar o bebê.

— Que tipo de amor é esse? Ela parecia cega, apaixonada, e ele sempre possessivo. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. A gente sabe que minha irmã foi mais uma que achava que só um tapa não iria acabar no que ele fez com ela — diz Valéria.

Tanto Valéria quanto Siomar estavam afastadas de Isabella, principalmente por não concordarem com o namoro. Isso porque outros episódios de agressão seriam frequentes, segundo os relatos da família.

A jovem tinha medida protetiva de urgência (MPU), mas acabou sendo persuadida pelo companheiro a pedir a retirada da proteção. A delegada Thaís Dias Dequech, titular da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), informou, porém, que a MPU estava em vigor. Isso porque o juiz determinou que, antes da análise do pedido de revogação, Isabella deveria passar por acompanhamento com uma equipe multidisciplinar.

Assim como a Isabella, a mãe tinha medida protetiva contra o genro.

— Um dia ele me agrediu na rua e quebrou meu dedo. Ele também já tinha batido na minha filha, mas manipulava ela. Brigavam o tempo todo e não tinha conselho que adiantasse — conta Siomar.

Zero Hora busca a defesa do suspeito. O espaço segue aberto para manifestação.

Crime foi cometido após briga

Jonathan Heckler/Agencia RBS
Pessoas próximas alegam que brigas, idas e vindas do casal eram frequentes.

A jovem morava com o filho em uma casa doada pelo pai dela, Valdeci Jorge Pacheco, 62 anos. O companheiro vivia com Isabella no imóvel, mas, a cada briga, acabava saindo e voltando tempo depois.

No dia que antecedeu o feminicídio, Isabella recebeu a visita do pai. Ele sentiu uma tontura e pediu para descansar na casa da filha.

Eram muito próximos. Valdeci conta que, nos últimos meses, ganhou muita atenção de Isabella. Diabético, necessitava de cuidados especiais. Todas as manhãs, ela ia até a residência do pai e levava o neto.

Horas antes de sair para passear na sexta-feira (8), Isabella parecia feliz. Ela e o companheiro deixariam o bebê com a avó paterna e iriam até um autódromo, no município de Viamão. Contudo, uma pequena discussão fez com que Valdeci fosse embora mais cedo.

— Meu netinho estava na cama brincando comigo, quando começaram a discutir. Não era nada demais, e fui embora. De manhã, recebi a notícia e não queria acreditar. Ele tinha matado a minha filha — relata o pai da jovem.

🚨Como pedir ajuda

Brigada Militar – 190

  • Se a violência estiver acontecendo, a vítima ou qualquer outra pessoa deve ligar imediatamente para o 190. O atendimento é 24 horas em todo o Estado.

Polícia Civil

  • Se a violência já aconteceu, a vítima deverá ir, preferencialmente à Delegacia da Mulher, onde houver, ou a qualquer Delegacia de Polícia para fazer o boletim de ocorrência e solicitar as medidas protetivas.
  • Em Porto Alegre, a Delegacia da Mulher na Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia, no bairro Azenha. Os telefones são (51) 3288-2173 ou 3288-2327 ou 3288-2172 ou 197 (emergências).
  • As ocorrências também podem ser registradas em outras delegacias. Há DPs especializadas no Estado. Confira a lista neste link.

Delegacia Online

  • É possível registrar o fato pela Delegacia Online, sem ter que ir até a delegacia, o que também facilita a solicitação de medidas protetivas de urgência.

Central de Atendimento à Mulher 24 Horas – Disque 180

  • Recebe denúncias ou relatos de violência contra a mulher, reclamações sobre os serviços de rede, orienta sobre direitos e acerca dos locais onde a vítima pode receber atendimento. A denúncia será investigada e a vítima receberá atendimento necessário, inclusive medidas protetivas, se for o caso. A denúncia pode ser anônima. A Central funciona diariamente, 24 horas, e pode ser acionada de qualquer lugar do Brasil.

Defensoria Pública – Disque 0800-644-5556

  • Para orientação quanto aos seus direitos e deveres, a vítima poderá procurar a Defensoria Pública, na sua cidade ou, se for o caso, consultar advogado(a).

Centros de Referência de Atendimento à Mulher

  • Espaços de acolhimento/atendimento psicológico e social, orientação e encaminhamento jurídico à mulher em situação de violência.

Ministério Público do Rio Grande do Sul

  • O Ministério Público do Rio Grande do Sul atende o cidadão em qualquer uma de suas Promotorias de Justiça pelo Interior, com telefones que podem ser encontrados no site da instituição.
  • Neste espaço, é possível acessar o atendimento virtual, fazer denúncias e outros tantos procedimentos de atendimento à vítima. Para mais informações clique neste link

Últimas Notícias