Em quatro Estados
Golpistas que criaram campanhas falsas em nome de criança com doença rara são alvo da polícia do RS
Lorenzo Silveira, 12 anos, de Capão da Canoa, luta contra a distrofia de Duchenne

Uma investigação da Polícia Civil gaúcha levou à descoberta de um grupo suspeito de estar por trás de campanhas falsas criadas em nome de um menino com uma doença rara. Nesta quinta-feira (28), uma operação é realizada no Paraná, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
A Operação Eclipse, do Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos, tem como alvo criminosos especializados em fraudes eletrônicas e na criação de campanhas beneficentes falsas pela internet. São cumpridos três mandados de prisão preventiva, seis ordens de busca e apreensão e medidas de bloqueio de ativos financeiros.
A investigação se iniciou no final de 2024, após a família de Lorenzo Silveira, atualmente com 12 anos, diagnosticado com distrofia muscular de Duchenne, descobrir que o nome do garoto estava sendo usado em campanhas falsas de arrecadação de valores. A família usa apenas uma página verificada no Instagram para divulgar os pedidos de ajuda.
Na época, os pais identificaram ao menos cinco campanhas falsas em nome do filho.
— Só ficamos sabendo quando uma pessoa nos enviou o comprovante de pagamento e aparecia um CNPJ de empresa como beneficiário. Foi aí que vimos que tinha algo errado — conta Cíntia Claudino, 38 anos, mãe de Lorenzo.

A polícia confirmou que os criminosos criavam páginas falsas de arrecadação e anúncios patrocinados em redes sociais, simulando campanhas solidárias legítimas. Dessa forma, induziam as vítimas, que queriam colaborar com o menino, a realizarem transferências via Pix. Os valores, no entanto, não eram destinados à família.
— Eles identificavam vaquinhas oficiais, clonavam o perfil e criavam uma vaquinha paralela com as mesmas informações da vaquinha original e impulsionavam essa vaquinha falsa através das redes, com tráfego pago e gerando, então, um alto número de acessos e até mesmo de doações. Faziam com que pessoas bem intencionadas fizessem doações equivocadas, querendo doar para uma criança com uma doença rara, e acabavam fazendo transferências de valores para esse grupo criminoso — explica o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do departamento.
Essas publicações fraudulentas reproduziam imagens da criança, informações sobre a sua condição de saúde e elementos visuais semelhantes aos utilizados em plataformas verdadeiras de financiamento coletivo, com intuito de dar uma aparência de legitimidade às campanhas.
Rede estruturada
A investigação identificou uma estrutura digital e financeira articulada. Segundo a Polícia Civil, o grupo usava inclusive domínios fraudulentos em servidores de fora do país e mantinham uma intensa movimentação bancária. A polícia ainda apura quantas pessoas foram ludibriadas pelos golpistas, mas estima que centenas de vítimas tenham realizado as transações.
Durante a apuração, foi identificado que uma das campanhas fraudulentas chegou a exibir arrecadação superior a R$ 248 mil. Contas vinculadas a uma das empresas utilizadas pelos investigados apresentaram movimentações milionárias.
Foram identificados três principais suspeitos de envolvimento no esquema de fraudes. Em Curitiba (PR), um dos alvos é um homem de 30 anos, apontado como responsável pela estrutura financeira utilizada no esquema. Também no Paraná, outro homem de 30 anos, morador de Londrina, foi identificado como envolvido na operacionalização das empresas utilizadas para movimentação dos valores.
— Os dois alvos do Paraná têm relação direta com a empresa intermediadora de pagamento (gateway) beneficiária dos recursos ilícitos decorrentes da falsa campanha, sendo o principal alvo o morador de Curitiba, quem mais se beneficiou da fraude — afirma o delegado Marcos Vinícius de David.
Já em Contagem (MG), a polícia tem como alvo um suspeito de 31 anos, identificado como responsável pela criação e gerenciamento dos perfis em redes sociais e dos sites utilizados na campanha fraudulenta.
Segundo a polícia, as investigações seguirão para identificar mais vítimas e outros envolvidos no esquema, além de apurar a extensão total dos prejuízos causados pelos golpistas.