Indiciada
Babá suspeita de dopar e agredir bebês gêmeos em Gravataí é solta pela Justiça; veja vídeo de câmera de segurança da casa
Pais desconfiaram do comportamento dos filhos na ausência da cuidadora. Ela aguardará andamento do caso monitorada por tornozeleira

A babá Cristine Margareth de Freitas Pereira, 51 anos, presa em abril pela Polícia Civil por suspeita de maltratar e dopar dois bebês gêmeos de oito meses, em Gravataí, na Região Metropolitana, recebeu o direito de deixar a cadeia. A Justiça entendeu que houve excesso de prazo para apresentação da denúncia por parte do Ministério Público, e determinou que ela deixe a prisão e seja monitorada com uso de tornozeleira eletrônica.
Em 6 de abril, os pais dos bebês procuraram a Polícia Civil para relatar que estavam suspeitando da babá. A mãe contou que contratou a mulher, que atuava como auxiliar de enfermagem, após a indicação de uma amiga que trabalhava com Cristine em um hospital de Porto Alegre, quando os filhos tinham apenas um mês e meio. Os pais começaram a desconfiar do comportamento dos gêmeos, que ficavam agitados aos fins de semana.
A mãe chegou a questionar Cristine por mensagens no WhatsApp sobre a medicação que teria sido dada às crianças. A mãe afirma que os bebês estavam com a respiração fraca. Cristine alegou que apenas ela usava os medicamentos. Os pais buscaram as imagens de câmeras de segurança e localizaram vídeos anteriores.
Zero Hora teve acesso a dois vídeos (assista acima). No primeiro deles, com data de 25 de setembro de 2025, a babá está no banheiro com um dos gêmeos no colo. Nesse período, o bebê tinha pouco menos de dois meses. Ela está com um frasco na mão, que usa para pingar gotas na boca dele. Ela guarda o frasco junto ao corpo, antes de sair do local.
O outro vídeo, com data de 6 de abril de 2026, tem duração de 55 segundos. A imagem mostra a mulher no mesmo banheiro com duas mamadeiras sobre a pia. Ela fecha a porta do cômodo, retira algo que parece um comprimido do bolso, parte com a boca e em seguida deposita dentro das mamadeiras. O vídeo não chega a mostrar a mulher administrando o medicamento aos bebês.
Na investigação, há relatos de outras imagens, referentes aos dias 1º e 18 de março de 2026, quando a mulher teria inserido medicação desconhecida na mamadeira dos bebês. Os pais relataram que a babá tinha conhecimento da existência da câmera e que não identificaram lesões nos filhos.
— Os pais estão absolutamente devastados e revoltados com a soltura da Cristine. Nós estamos falando de vítimas de apenas oito meses de idade, os bebezinhos não têm o mínimo de possibilidade de reação. Nós respeitamos o tempo das instituições, mas a indignação da família é imensa. E a gravidade precisa ter o senso de urgência — afirma o advogado Lerry Graville, que representa os pais dos bebês.
Indiciamento e perícias
O caso passou a ser investigado pela Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher de Gravataí após o relato dos pais. Em 16 de abril, Cristine foi indiciada pelos crimes de maus-tratos, com agravante pelo fato de as vítimas serem menores de 14 anos, e por vias de fato, que são agressões que não chegam a causar lesão corporal.
Segundo a conclusão da investigação, as imagens das câmeras de segurança do banheiro do quarto dos bebês evidenciam que a investigada ministrava medicamentos não prescritos e que chegou a agredir fisicamente um dos gêmeos, atingindo-o na cabeça.
Os bebês foram encaminhados para exames toxicológicos. No entanto, a perícia não conseguiu identificar nenhuma das substâncias pesquisadas nas amostras de urina ou sangue dos gêmeos. Um dos laudos, após coleta em 7 de abril, aponta que a detecção da substância depende do tipo utilizado, da dose, do tempo transcorrido e das características corporais do indivíduo.
O perito conclui neste laudo que não é possível excluir a administração de substância não passível de detecção em exames laboratoriais, como, por exemplo, a melatonina, entre outras possibilidades. Ou seja, mesmo que a substância não tenha sido encontrada, isso não é considerado pelo perito como suficiente para descartar a hipótese de administração.
Denúncia e soltura
Ao analisar a investigação apresentada pela Polícia Civil, o Ministério Público entendeu que poderia estar diante de um crime mais grave, como uma possível tentativa de homicídio. Em razão disso, em 11 de junho, a promotora Carolina Barth Loureiro Ingracio solicitou novos esclarecimentos à polícia. Entre eles, se as substâncias com efeito sedativo poderiam gerar risco de morte aos bebês, assim como o uso frequente deste tipo de medicamento.
Em 12 de junho, houve nova decisão judicial sobre o caso. A juíza Solange Moraes decidiu relaxar a prisão preventiva de Cristine, por entender que houve excesso de prazo para apresentação da denúncia, já que o prazo para réu preso é de 15 dias. A magistrada estabeleceu que a mulher deve ser monitorada com uso de tornozeleira eletrônica, que está proibida de se aproximar ou manter contato com os bebês e os pais deles, entre outras determinações.
O Ministério Público informou que pediu novas diligências para apurar os fatos e solicitou ao Judiciário a imposição de medida cautelar proibindo a investigada de sair do país. "O MPRS também aguarda imagens complementares de câmeras de segurança para a realização de análise pericial", afirma a manifestação.
Contraponto
Zero Hora entrou em contato com o advogado Volnei Souza Vieira, que representa Cristine Margareth de Freitas Pereira no processo, e aguarda manifestação. A defesa afirma que não há indícios de crime.
O que diz o Judiciário:
Por meio de nota, o Judiciário afirmou que a decisão se deu por conta do excesso de prazo e que ainda cabe recurso. Confira a nota na íntegra:
"Sobre o pedido de manifestação referente à decisão que colocou em liberdade a investigada no caso ocorrido em Gravataí, informamos que a acusada permaneceu presa por aproximadamente 64 dias sem que houvesse, até o momento, oferecimento de denúncia pelo Ministério Público.
O caso segue em fase de investigação, com a realização de diligências e produção de laudos considerados necessários para a definição da eventual tipificação penal dos fatos apurados.
Diante deste contexto, e considerando a ausência de denúncia formalizada e a indefinição quanto ao enquadramento jurídico dos fatos, foi entendido não estarem presentes os requisitos legais para a manutenção da prisão preventiva.
Importante destacar que a investigada não foi colocada em liberdade sem restrições. Foram impostas diversas medidas cautelares, entre elas monitoramento eletrônico, retenção de passaporte, proibição de afastamento da comarca e de aproximação das vítimas e de seus familiares, além de outras determinações judiciais. E que dessa decisão, cabe recurso ao TJRS e tribunais superiores.
Por fim, ressalta-se que o caso permanece em fase inicial de apuração, sem denúncia formalizada, razão pela qual é importante observar o caráter ainda preliminar das investigações e o respeito às garantias processuais asseguradas pelo ordenamento jurídico."