Dossiês falsos
Engenheiro é preso por suspeita de extorquir valores milionários de famílias de empresários no RS
Mandado de prisão preventiva foi cumprido nesta quarta-feira em Gravataí


Em janeiro deste ano, uma família que atua no mercado imobiliário no Rio Grande do Sul foi surpreendida com uma série de mensagens anônimas que exigiam o pagamento de cerca de R$ 4 milhões para não divulgar dossiês com informações falsas sobre obras. Os empresários decidiram não ceder às ameaças e buscar auxílio da Polícia Civil.
A investigação levou à descoberta de um esquema articulado e à prisão, nesta quarta-feira (24), de um engenheiro civil — sem antecedentes criminais e cujo nome não foi divulgado — que havia trabalhado para o grupo alvo das extorsões. A reportagem de Zero Hora apurou que se trata de Thiago Reis, 40 anos, e busca contato com a defesa dele. O espaço fica aberto a manifestação.
Nesta manhã, o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos desencadeia a Operação Pizzo (em alusão ao valor cobrado pela máfia italiana aos comerciantes e empresários). Os policiais cumpriram em Gravataí, na Região Metropolitana, um mandado de prisão preventiva e dois de busca contra Reis. Outros seis mandados, para localizar possíveis provas, tinham sido cumpridos numa primeira fase, na semana passada.
Durante a ação, foram apreendidos diversos celulares, o computador do investigado e anotações sobre possíveis vítimas. Um dos aparelhos foi utilizado nas tentativas de extorsão, conforme a Polícia Civil.
Tudo se iniciou quando a família de empresários buscou a polícia, relatando ser vítima de extorsão pela internet. Eles tiveram os números de telefone incluídos num grupo de WhatsApp, por meio do qual receberam as ameaças e foram extorquidos.
"Vocês farão a transferência de 10 Bitcoins para a nossa carteira digital de Bitcoins. Pela cotação atual, cada Bitcoin custa em torno de R$ 486.000,00 portanto, o valor aproximado que o senhor terá que desembolsar para proteger os seus dados e os de sua família e sócios é de R$ 4.860.000,00", avisa uma das mensagens.
Ainda durante a extorsão, Reis alega que o valor pago seria "pequeno e irrisório" diante dos prejuízos que seriam causados com a divulgação dos dossiês. A família que procurou a polícia havia recebido como prazo o dia 25 de janeiro para fazer a transferência dos valores.
— Ele (investigado) fez um levantamento através de sites que vendem informações das pessoas, ele fez esse levantamento dos seus familiares e, a partir dali, começou a enviar mensagens extorquindo e exigindo pagamento através de uma carteira de criptoativos — explicou a delegada Isadora Marina Galian Guarabyra. — De acordo com as investigações, na semana passada, ele teria feito novas extorsões, agora com uma arquiteta e o empresário de um jogador de futebol.
Risco à imagem
A investigação levou à descoberta de que quem estava por trás dessa fraude era um engenheiro que havia trabalhado para a família. Reis atualmente estava atuando em outro grupo empresarial. A polícia diz que esses empresários também foram vítimas de tentativa de extorsão, mas não chegaram a registrar o fato.
Segundo o delegado Eibert Moreira Neto, diretor do departamento, as extorsões seriam realizadas pelo engenheiro com base em informações internas da empresa, para dar veracidade à fraude, mas eram incluídas outras falsas, com intuito de manchar a imagem do grupo.
"A (nome da empresa) está disposta a correr o risco de queimar totalmente sua imagem com esses dois clientes e com todo o mercado?", ameaça o golpista.
A polícia iniciou a investigação sem saber quem comandava o esquema, até chegar ao nome do engenheiro como principal suspeito. Na semana passada, foi apreendido um celular na casa dele, onde foram localizadas as mensagens com as extorsões. Ao ser ouvido pelos policiais, ele admitiu ter sido o responsável.
— Ele habilitava chips, contas de telefone e até contas bancárias em nome de terceiros, de outros empresários. Isso sempre tentando gerar uma camada extra de proteção, uma cortina de fumaça. Sempre o nome de outro empresário aparecia como suspeito — explica o diretor.
Valores milionários
A família decidiu não ceder à pressão e não pagou os valores exigidos. Durante a investigação, no entanto, a polícia identificou outras vítimas, ao menos 10. Entre elas, a empresa onde o engenheiro trabalha, um empresário familiar dele e outra pessoa próxima.
Em todos casos, segundo a polícia, foram usadas informações, como nomes, outros dados e detalhes sobre a rotina das vítimas, com intuito de causar mais receio.
— Eram pessoas com quem ele tinha contato pessoal, sabia informações da vida privada, que davam verossimilhança de que era alguém que estava acompanhando o dia a dia daquela vítima — detalha o delegado Filipe Bringhenti.
O criminoso alegava que, caso o pagamento não fosse feito, os dossiês com dados sigilosos seriam vendidos a terceiros ou tornados públicos na internet.
— Ele juntava, por exemplo, informações que diziam respeito à segurança das obras. Como engenheiro, ele tinha esse conhecimento. E criava essa narrativa, com base em dados técnicos. As vítimas acabavam ficando com receio de que ele divulgasse essas informações falsas e prejudicasse os negócios — afirma Eibert.
Em todos os casos, ele teria exigido um total de R$ 10 milhões às vítimas. No entanto, a polícia ainda não sabe se algumas delas chegou a efetuar o pagamento, já que o rastreio de movimentações de criptomoedas é mais complexo.