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Golpe da restituição do Imposto de Renda: saiba como criminosos agem e como se proteger
Estelionatários aproveitam período de pagamentos para enviar mensagens falsas, clonar páginas e induzir vítimas a entregar dados bancários ou realizar pagamentos indevidos


Com o segundo lote da restituição do Imposto de Renda 2026 previsto para 30 de junho, criminosos voltam a explorar a expectativa dos contribuintes para aplicar golpes.
Eles disparam mensagens falsas em nome da Receita Federal e de bancos, prometem antecipar o dinheiro ou cobram taxas inexistentes, além de roubar dados pessoais e bancários.
O primeiro lote, pago em 29 de maio, contemplou 8,7 milhões de contribuintes e somou R$ 16 bilhões em créditos, o maior já liberado pela Receita Federal.
A expectativa do Fisco é de que, com o pagamento do segundo lote, mais de 80% das restituições do ano já tenham sido quitadas. É justamente esse volume de dinheiro em circulação que atrai os golpistas.
Como ocorre o golpe
A abordagem mais comum se dá por mensagem. O contribuinte recebe um aviso dizendo que os dados bancários cadastrados na declaração estão incorretos e que, sem a correção, o dinheiro não será depositado.
Como o disparo é feito em massa, quem não tem restituição a receber ignora a mensagem. Já quem espera o crédito tende a clicar.
— Eles pedem o número do CPF e, muitas vezes, o código de acesso ao Gov.br, com a falsa promessa de permitir a edição da conta. Mas, na verdade, estão capturando todos os seus dados por phishing (iscas digitais, como e-mails falsos, SMS ou sites clonados) — explica a gerente de Prevenção a Fraudes do Banco Mercantil, Lívia Silva.
Com essas informações em mãos, os criminosos chegam a contratar empréstimos em nome da vítima ou a acessar a conta Gov.br para obter outros dados.
Em outra variação, cobram uma taxa para "corrigir" o cadastro. Quem tem R$ 1 mil a receber, por exemplo, acaba pagando R$ 100 para liberar o valor, sem perceber que o golpe não tem qualquer relação com o Imposto de Renda.
Links patrocinados e anúncios em redes sociais
As mensagens diretas não são o único caminho. Boa parte das fraudes começa em uma busca simples na internet, quando o contribuinte procura informações sobre o próprio dinheiro e confia no primeiro resultado que aparece.
— Muitas pessoas pesquisam "restituição do Imposto de Renda" no Google e acham que o primeiro link que aparece é o confiável. Na verdade, os fraudadores pagam por links patrocinados para ficar algumas horas no topo dos resultados — aponta Lívia.
Ao clicar, a vítima encontra a oferta de antecipação da restituição. A página promete liberar o dinheiro no mesmo dia e pede uma série de informações, que vão direto para os criminosos.
A especialista observa que os golpistas acompanham os canais mais usados pelo público. O que antes se concentrava no SMS hoje aparece também em anúncios no TikTok e no Instagram.
Essas peças costumam ser genéricas e trazem apenas a logo da Receita, sem reproduzir o layout oficial. Os sites de captura de dados, porém, são caprichados.
— Quando você entra no site, ele traz as mesmas cores, a mesma fonte e uma logo muito parecida. É preciso atenção redobrada com o endereço que aparece na barra. O melhor é ir direto ao site da Receita (neste link) ou do banco, em vez de clicar no link recebido — destaca.
Peso do vazamento e da exposição de dados
Parte da eficácia dos golpes vem da quantidade de informação pessoal que circula livremente. Para Lívia, o problema não está apenas nos grandes vazamentos.
— Mais do que os vazamentos de dados oficiais, precisamos prestar atenção em onde colocamos nossas informações. Existe um problema de vazamento no Brasil, mas existe também o problema do nosso próprio compartilhamento de dados, sem saber para que estamos fornecendo — pondera.
Ela cita o hábito de preencher cadastros em sites desconhecidos em troca de descontos e de expor a rotina nas redes sociais.
— Tem gente que coloca a biografia inteira em redes sociais de acesso público. Os golpistas conseguem transformar isso em um banco de dados e aplicar golpes bem direcionados — observa.
Quem são as vítimas
Não há um perfil único. Segundo a gerente, as vítimas se distribuem pela população economicamente ativa, sem recorte claro de idade ou escolaridade. O fator comum é comportamental.
— Normalmente é um perfil que se deixa levar pelo desespero, porque esses golpes sempre trazem uma urgência: se você não fizer hoje, vai perder. A pessoa se envolve na velocidade que o fraudador impõe e acaba caindo — explica.
A especialista afirma ainda que é difícil medir com precisão o crescimento das tentativas no período, porque a maioria das pessoas que não cai no golpe não relata o episódio.
Ainda assim, o movimento é perceptível. Antes mesmo do fim do prazo de entrega da declaração, clientes já encaminhavam ao banco mensagens suspeitas sobre a restituição.
As fraudes e golpes ligados à restituição do Imposto de Renda também passaram a dominar as discussões do setor, ao lado de datas como Natal, Dia das Mães e Dia dos Namorados, tradicionalmente exploradas por criminosos.
Com isso, a especialista faz um alerta: o encerramento da temporada do Imposto de Renda não significa o fim do risco.
— O fraudador ganha por produção. Não é que vai acabar o golpe do Imposto de Renda e pronto. Ele está no Imposto de Renda agora e já está trabalhando no próximo. A velocidade com que os golpes mudam é muito grande — alerta Lívia.
Dicas para não cair no golpe
Diante de tantas variações, a recomendação é inverter o ponto de partida: em vez de tentar reconhecer cada novo formato de fraude, desconfie primeiro e busque a informação na fonte oficial, sem clicar em nada do que foi recebido.
— São duas recomendações fundamentais: não faça nada relacionado ao seu banco fora do site ou do aplicativo oficial, nem fora do aplicativo oficial da Receita. E saiba que não existe hoje nada que exija seus dados pessoais ou senhas com urgência. O fraudador usa essa pressão justamente para reduzir a capacidade de raciocínio da vítima — reforça.
Portanto, se receber um SMS pedindo para corrigir dados do banco, não clique: entre no aplicativo oficial e verifique. Se a mensagem for em nome da Receita, faça o mesmo diretamente no site do órgão.
O que diz a Receita Federal
A Receita Federal é categórica ao afirmar que não envia links e não faz contato por SMS ou WhatsApp para tratar de restituição. O órgão também reforça que não cobra nenhuma taxa para liberar o dinheiro.
Todo o processo é automático: o depósito é feito na conta bancária ou na chave Pix indicada na declaração, sem que o contribuinte precise solicitar nada ou confirmar qualquer informação.
Segundo o Fisco, os golpes seguem roteiros conhecidos, que se repetem a cada temporada.
Em um deles, a mensagem informa que a restituição já está disponível, mas exige o pagamento de uma tarifa, às vezes apresentada como uma suposta taxa do Banco Central, para liberar o valor.
Em outro, o criminoso ameaça bloquear ou cancelar o CPF da vítima por causa de pendências e oferece um link para "regularização". O endereço leva a uma página idêntica à oficial, na qual a pessoa é induzida a digitar dados pessoais, senhas ou informações do cartão.
A orientação do órgão é direta: apagar imediatamente qualquer mensagem com links sobre o Imposto de Renda e não clicar em links recebidos por SMS, e-mail ou aplicativos de mensagem.
Para verificar se há valores a receber ou pendências, o contribuinte deve acessar diretamente os canais oficiais:
Em todos os casos, o acesso deve ser feito com login e senha próprios.
A Receita resume o raciocínio em um único ponto: nenhuma instituição financeira ou órgão público exige pagamento antecipado para liberar repasses em dinheiro.
Caiu no golpe? O que fazer
Quando a vítima percebe que pagou ou entregou seus dados, cada minuto passa a contar. O dinheiro transferido por Pix costuma ser pulverizado rapidamente entre várias contas, e a chance de recuperação diminui com o tempo. Por isso, a primeira providência não é a delegacia, mas o próprio banco.
— Se pagou e caiu no golpe, entre em contato imediatamente com o seu banco para fazer o MED (Mecanismo Especial de Devolução), o relato de infração. Todos os aplicativos bancários já têm essa opção. No momento em que você registra o relato, o que ainda estiver na conta de quem recebeu pode ser bloqueado — recomenda.
Além de acionar o banco, a orientação é trocar as senhas dos aplicativos bancários e da conta Gov.br e registrar boletim de ocorrência, documento importante para a investigação policial.
Se houve compartilhamento de qualquer dado bancário, o cliente deve comunicar a instituição para evitar prejuízos futuros.
Como funciona o MED
O Mecanismo Especial de Devolução (MED) é uma ferramenta do Banco Central criada para casos de golpe, fraude ou invasão de conta. Ele bloqueia e rastreia o dinheiro enviado por Pix, e a contestação é feita pelo próprio aplicativo do banco.
Com a versão atualizada, o MED 2.0 acompanha o caminho completo do valor. Mesmo que o golpista espalhe os recursos por outras contas e instituições, as chamadas "contas laranjas", o mecanismo realiza bloqueios e devoluções em cadeia.
O processo funciona assim:
- Começa no aplicativo do banco de onde saiu a transferência
- O cliente abre os detalhes do Pix enviado ao golpista e procura a opção de contestação, que pode aparecer como "Reportar problema", "Contestar transação" ou "Mecanismo Especial de Devolução"
- Em seguida, são anexadas provas, como prints de conversas, página falsa acessada e comprovante da operação
- O boletim de ocorrência, feito em delegacia física ou virtual, formaliza o crime e reforça o pedido
- Também é possível acionar o MED pelo SAC ou pela ouvidoria do banco, sempre com registro do protocolo
A rapidez define o resultado. A contestação pode ser feita em até 80 dias após o envio do Pix, mas quanto antes o pedido for registrado, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta de destino. Assim que o MED é acionado, o saldo é congelado preventivamente na conta de quem recebeu.
As instituições envolvidas têm até sete dias para análise do caso e, comprovada a fraude, a devolução, integral ou parcial, ocorre em até 11 dias após a contestação.
O mecanismo tem limites. Por ter sido desenhado para crimes financeiros, o MED não se aplica a erros de digitação, quando a própria pessoa envia o dinheiro para a chave errada, nem a desacordos comerciais. Nesses casos, a solução passa por negociação direta ou pelos canais de defesa do consumidor.
Restituição do Imposto de Renda
Cronograma
Neste ano, a restituição será dividida em quatro etapas:
- 1º lote: 29 de maio de 2026 (sexta-feira)
- 2º lote: 30 de junho de 2026 (terça-feira)
- 3º lote: 31 de julho de 2026 (sexta-feira)
- 4º lote: 28 de agosto de 2026 (sexta-feira)
Contribuintes que entregarem a declaração mais cedo, sem erros ou pendências, têm maiores chances de receber nos primeiros lotes. Os depósitos são feitos diretamente na conta bancária informada pelo contribuinte ou via chave Pix vinculada ao CPF.
Como consultar a restituição
A consulta pode ser feita diretamente nos canais oficiais da Receita Federal, por meio do site "Meu Imposto de Renda", pelo portal e-CAC ou pelo aplicativo do órgão para celulares e tablets.
O contribuinte precisa informar CPF, data de nascimento e o exercício da declaração, além de ser registrado na conta Gov.br em alguns casos.
Caso a restituição não seja depositada por problemas na conta bancária, o valor fica disponível para resgate no Banco do Brasil por até um ano.
Veja o passo a passo
- O contribuinte deve acessar o site da Receita Federal com o login do Gov.br e ir para a aba de Imposto de Renda. Em seguida, clicar em "consultar minha restituição"
- No dia do pagamento, a restituição será depositada na conta bancária informada na declaração enviada pelo usuário
- Se o contribuinte não resgatar o valor no prazo de um ano, deverá solicitá-lo pelo Centro de Atendimento Virtual ao Contribuinte (Portal e-CAC)
- No portal, o cidadão deve ir até o menu "Declarações e Demonstrativos" e clicar em "Meu Imposto de Renda". Por fim, acessar "Solicitar restituição não resgatada na rede bancária"