Cachoeirinha
Desaparecimento da família Aguiar completa seis meses: relembre principais fatos e saiba como está o caso
Silvana Germann de Aguiar foi vista pela última vez em 24 de janeiro; no dia seguinte, os pais dela, Dalmira e Isail, também sumiram


O sumiço de três pessoas da mesma família, com alguém que integrou o núcleo familiar apontado como principal suspeito, e o uso de uma ferramenta de inteligência artificial para simular voz e enganar as vítimas são partes da trama do caso da família Aguiar, que completa seis meses nesta sexta-feira (24).
O desaparecimento de Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, e dos pais dela, Isail Vieira de Aguiar, 69, e Dalmira Germann de Aguiar, 70, continua a desafiar investigadores e inquietar a população, já que os três nunca foram localizados.
— É um caso com muita peculiaridade e por isso chamou a atenção de todo o país. Já vimos criminosos usarem inteligência artificial em crimes de estelionato, mas essa tecnologia usada para homicídios não tínhamos conhecimento — informa o delegado Cristiano Fiolic Alvarez, diretor do departamento de Polícia Metropolitana.
Ex-companheiro de Silvana, o policial Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, está preso desde fevereiro. Em maio, ele virou réu, acusado dos assassinatos dos Aguiar e de outros crimes relacionados ao caso, como ocultação de cadáver, fraude processual, falsidade ideológica e associação criminosa. Segundo a polícia, Cristiano usou um programa de inteligência artificial para simular a voz de Silvana em uma ligação para a mãe dela, após a morte da ex-companheira.

Também são réus o irmão e a atual esposa dele, acusados de participação em ações para ocultar provas e dificultar a investigação.
Silvana, Dalmira e Isail sumiram em janeiro, em Cachoeirinha. O caso foi inicialmente tratado como desaparecimento. O inquérito evoluiu para a apuração de feminicídio e duplo homicídio. Segundo a polícia, Silvana teria sido morta na própria residência em 24 de janeiro. No dia seguinte, os pais dela teriam sido atraídos por falsas narrativas e também foram mortos.
A denúncia pelo Ministério Público trouxe um agravante em relação ao inquérito policial: o reconhecimento de duplo feminicídio no caso de mãe e filha, assassinadas em um contexto de violência doméstica.
Localização dos corpos ainda é desconhecida

Ainda que o paradeiro dos três integrantes da mesma família continue sem resposta, a Polícia Civil não descarta novas buscas e afirma ter reunido provas suficientes para concluir que os três foram assassinados. Conforme a denúncia do MP, as mortes teriam sido motivadas por conflitos relacionados à guarda do filho de Silvana.
— A investigação alcançou o objetivo de que todas as provas citadas no indiciamento policial foram suficientes para embasar a denúncia do MP. Já a ocultação dos corpos foi extremamente meticulosa. Diante de qualquer informação, vamos checar e podemos fazer buscas novamente — acrescenta o delegado Alvarez.

Em junho, uma denúncia anônima levou policiais e bombeiros a retomarem as buscas. Com ajuda de um cão farejador, varreduras foram feitas em uma área no município de Canoas. A diligência terminou sem resultado.
Conforme o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ), o processo segue em tramitação e encontra-se na fase de apresentação das respostas à acusação pelas defesas. No momento, ainda não há audiências designadas.
O Ministério Público afirma que segue acompanhando a busca pelos corpos e o andamento da ação penal. "Atualmente, o processo aguarda manifestação da defesa após o encaminhamento, pela autoridade policial, de novos elementos probatórios e a reabertura dos prazos processuais solicitada pelos advogados da acusada", reforça o órgão.
Filho de desaparecida segue sob a guarda da avó paterna

Na esfera cível, uma das discussões passou a ser a guarda do filho de Silvana e Cristiano. O menino tem 10 anos. Em maio, a Justiça decidiu manter a guarda provisória da criança com a avó paterna. A família materna busca a reversão da medida. No dia 3 de julho, a Justiça determinou que Milena Tainá Ruppenthal Domingues, 29 anos, esposa de Cristiano, não se aproxime do menino.
Troca de advogados
Em meio à disputa judicial e investigações, tanto os advogados da família quanto do principal suspeito mudaram. As defesas foram procuradas pela reportagem para comentar o estágio atual do processo.
Representação da família Aguiar
A advogada Sônia Mara Rocha Brasil divulgou a seguinte manifestação:
"Desde o primeiro momento estamos lutando, sempre pelos meios legais, para que a família possa, ao menos, voltar a ter contato com o menino (filho da Silvana). Já ingressamos com o pedido de visitação e também há uma ação de guarda em andamento, que ainda depende de definição do Judiciário. Sabemos que a prioridade absoluta deve ser a proteção do menino, e é justamente por isso que confiamos que todas as decisões serão tomadas levando em consideração o seu melhor interesse. O que buscamos é que a família tenha a oportunidade de ser ouvida e que seus pedidos sejam apreciados com a sensibilidade que um caso como este exige. Por envolver um menor e por se tratar de processos que correm em segredo de justiça, não podemos entrar em outros detalhes. Mas continuaremos fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance, pelos meios legais, para que essa família tenha seu pedido analisado e para que a criança tenha sempre resguardado o seu melhor interesse."
Defesa de Cristiano e Wagner
Nota do advogado Ricardo Breier:
"A defesa de Cristiano e Wagner permanece no aguardo da conclusão dos laudos periciais e das perícias técnicas, elementos indispensáveis para o início de uma avaliação técnica completa e responsável do caso. Enquanto essas provas não forem produzidas e disponibilizadas à defesa, o exercício do direito à ampla defesa e ao contraditório permanece objetivamente limitado, impedindo uma análise plena dos fatos e comprometendo o efetivo exercício das garantias constitucionais asseguradas aos denunciados."
Defesa de Milena
Nota da advogada Suelen Lautenschleger:
"A defesa de Milena informa que, até o presente momento, ainda aguarda o acesso integral aos elementos que embasam a investigação, especialmente aos indícios de materialidade e autoria, imprescindíveis para a adequada análise do caso e apresentação de resposta à acusação. Desde o início da atuação, o escritório vem adotando todas as medidas jurídicas cabíveis para assegurar o pleno exercício da ampla defesa e do contraditório, garantias constitucionais indispensáveis em qualquer persecução penal. Somente após o acesso completo aos autos e aos elementos de prova será possível realizar uma avaliação técnica aprofundada e definir, com segurança, as estratégias defensivas mais adequadas ao caso concreto. Assim, passados quase seis meses desde o desaparecimento das vítimas da família Aguiar, renovamos nossos mais sinceros sentimentos de solidariedade aos familiares, reconhecendo a dor, a angústia e a espera que têm marcado este período."