Combate ao feminicídio
Pacto de silêncio? Por que poucos homens denunciam casos de violência contra mulheres
Para especialistas, socialização masculina leva a dinâmicas que podem favorecer agressores. Histórias mostram importância de quem contrariou estatística


João (nome fictício para preservar identidade) conheceu a namorada no trabalho. Depois de um tempo, descobriu que ela era ameaçada pelo ex-marido e tinha pânico de sair na rua. Inconformado com a situação, decidiu apoiá-la para que rompesse com a violência de uma relação que durou quase duas décadas e havia encerrado há cerca de quatro anos.
— Eu vi aquilo, achei o fim. Era controlada praticamente todo o tempo. Não tinha vida, a pessoa vivia com medo. Ela sentia que estava sempre fazendo alguma coisa errada todos os dias da vida, durante vários anos — conta.
O relacionamento com João fez com que o agressor fizesse novas ameaças, mas foi o ponto decisivo para que a vítima tomasse coragem de levar a denúncia adiante.
— Ela teve uma força, porque chegou um momento que ele soube que a gente estava há uns dois meses ficando junto. Ele disse: "Eu te vi, tu tem uma semana para acabar com isso aí”. Foi o momento que ela disse: "Não, eu não vou acabar e vou continuar" — relembra.
João foi com a namorada até a Polícia Civil. Com uma medida protetiva em vigor, as ameaças cessaram e ela foi encaminhada para um serviço de atendimento psicológico, onde também foi acompanhada por João, que seguia dizendo para que ela não desistisse.
A iniciativa dele, no entanto, é um caso isolado. No primeiro semestre deste ano, o Rio Grande do Sul registrou 3.614 denúncias de violência pelo Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher, relatando 20.960 violações e agressões. No mesmo período de 2025, foram 3.027 registros, que comunicaram 12.243 violências. Ainda que não exista um recorte oficial — e há relatos que são anônimos — integrantes de redes de proteção às mulheres são unânimes ao observar que ainda há poucos homens que denunciam outros homens ou que buscam informações para ajudar vítimas.
— Nós observamos que as mulheres denunciam mais, porque os homens entendem que essas questões, brigas dentro de casa, esse conflito entre marido e mulher, entre namorados, são questões privadas, e eles entendem que não têm que se envolver — aponta a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam), que coordena as Delegacias da Mulher no Estado.

Medo de exclusão e efeito de espectador
Segundo estudiosos, o silêncio naturalizado pode ser explicado pela forma como, desde a infância, meninos são ensinados a se comportar buscando pertencimento em grupos que condenam a vulnerabilidade ou uma postura mais afeminada. Estudando a formação da masculinidade, o sociólogo francês Daniel Welzer-Lang desenvolveu a expressão “casa dos homens”, sustentando que a aceitação entre eles exige uma adequação a um código violento, de virilidade.
— Os homens são socializados para desenvolver essa lealdade ao grupo masculino desde pequenos. Denunciar outro homem acaba sendo visto, independentemente do caso, como trair um amigo. Estragar a vida dele, meter a colher onde não foi chamado, ou simplesmente não ser parceiro — analisa o palestrante Thiago Oliveira, criador do perfil no Instagram Homem Sem Tabu, em que publica reflexões sobre o tema.
Oliveira considera que a necessidade de pertencimento a um grupo reforça o receio da exclusão, principalmente entre crianças e adolescentes. A partir do conceito da psicologia social do “efeito de espectador”, ele exemplifica que, quanto mais pessoas presenciam uma violência, menor tende a ser a sensação de responsabilidade individual.
— Esse pacto (entre os homens) de alguma forma existe, não é algo combinado. Ele acaba, na prática, protegendo mais a reputação do agressor do que, de fato, a segurança da vítima. Não confrontar esse amigo abusivo, não chamar a atenção do colega que vai acabar assediando alguém, expulsar um amigo de uma festa que passou dos limites, e ninguém denunciar. Não é um pacto que é organizado, mas ele é reproduzido — enfatiza.
Ouvir e não interferir
O medo de repreender outro homem naturaliza a omissão, deixando a violência ainda mais silenciada, mesmo em casos em que os gritos e agressões são ouvidos em outras casas. Em Alvorada, na Região Metropolitana, um vizinho decidiu tomar uma atitude: arrombou a porta de um apartamento para prestar socorro a mulher que estava sendo agredida.
— Ele falou, de uma maneira muito clara e direta, que interveio porque não poderia deixar que aquele tipo de covardia seguisse acontecendo. Esse homem evitou o pior, evitou que talvez aquela mulher entrasse para a estatística dos feminicídios — ressalta a promotora de Justiça Criminal Luiza Linhares Trindade, do Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra Mulher em Alvorada.
A promotora ainda lembra de outro homem que pulou o muro de uma residência para salvar uma mulher que estava sendo violentada, e de uma situação de cárcere privado em que as denúncias anônimas da vizinhança permitiram uma abordagem discreta da polícia para que a vítima pudesse ser socorrida e o agressor, preso.
— Nesses casos, a violência já estava no extremo, na violência física, quase na tentativa do feminicídio. Foi aí que esses homens conseguiram tomar coragem para intervir. E que bom que fizeram isso, mas a denúncia precoce muitas vezes auxilia a mulher, porque ela se sente mais segura quando a rede de apoio comparece naquela residência para verificar o que está acontecendo — avalia a promotora.
Para orientar síndicos, moradores e funcionários, a Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do Tribunal de Justiça (Cevid/TJRS) desenvolveu um manual que é apresentado em condomínios para que situações de risco sejam denunciadas e para que a vítima possa ser acolhida de forma respeitosa. Chamado de Sentinela, o projeto ainda explica, na prática, os tipos de violência doméstica e sinais de alerta, como gritos, brigas, controle pelo parceiro e mudanças de aparência, por exemplo.
— Ninguém ouviu, ninguém viu, e o pior acontece. Então, isso é uma forma de mobilizar a sociedade, em razão do grande número de pessoas que são contempladas fazendo essa capacitação para serem esses agentes, verdadeiros sentinelas, na defesa e na proteção das mulheres — salienta a juíza Madgéli Frantz Machado, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Porto Alegre.
Pela legislação, condomínios são obrigados a acionar as autoridades diante de indícios de violência, por isso a preparação ainda divulga canais de contato, como Brigada Militar (190 para emergências), Polícia Civil (Delegacia da Mulher) e Ligue 180 (para informações e denúncias).
Confissão decisiva

Foi no confessionário de uma igreja católica que uma mulher encontrou apoio diante de um casamento abusivo. Em um aconselhamento após a confissão — que é sigilosa — o padre Fabiano Schwanck Colares orientou a vítima a buscar o Ministério Público e a acompanhou até o projeto Bem Me Quer, que presta acolhimento humanizado, apoio psicológico, social e jurídico a vítimas de crimes.
— Foi um processo bem delicado, tinham sido três, quatro conversas na igreja, depois nós fomos duas vezes ao Ministério Público e na segunda vez ela teve coragem de relatar à promotora tudo aquilo que estava vivenciando. Só que, pasme, na hora de assinar o depoimento, ela não teve coragem. Deu um passo atrás, porque se perguntava como poderia fazer mal a alguém que amava. É difícil, porque a mulher entra num ciclo de dependência e fica com a visão obstruída — comenta Colares, acrescentando que, mesmo sem fazer a denúncia, a mulher seguiu recebendo ajuda da equipe multidisciplinar.
Ainda que a igreja católica não aprove o divórcio, o sacerdote explica que ninguém deve permanecer em uma união em que uma das pessoas é violentada ou explorada. Nesses casos, segundo ele, o direito canônico possibilita que a vítima tenha consciência tranquila para se afastar de quem a está fazendo mal.
— De maneira alguma a igreja aprova um relacionamento abusivo, um relacionamento em que uma das partes é transformada em objeto, ou reduzida e colocada como se fosse uma escrava. Não fique numa situação como essa. Deus não te criou para que tu fiques o tempo inteiro vivendo num sofrimento — aconselha o padre.
A mediação de um religioso também foi essencial em um atendimento na Sala Elza Soares, espaço da Rede de Assistência Humanizada às Mulheres em Situação de Violência (Re-Humam), instalado no Hospital Cristo Redentor, em Porto Alegre. A iniciativa ajuda pacientes vítimas de violência identificadas pelo sistema do Grupo Hospitalar Conceição (GHC).
Em um dos acompanhamentos, a assistente social Jéssica Silva ouviu o relato de uma mulher que estava em uma festa em um condomínio e foi violentada sexualmente por um colega de trabalho, acreditando que alguma substância tenha sido colocada em sua bebida. Um padre ouviu a situação em confissão e mudou a perspectiva de culpa que a vítima carregava, orientando-a a buscar atendimento.
— Esse padre acolheu e teve um uma postura que muitas vezes a gente não vê, seja em homens ou em figuras religiosas, que é desse acolhimento e de fazer a conscientização dela de que aquilo havia sido uma violência, de que ela não tinha cometido nenhum pecado, não merecia nenhuma forma de punição ou de reparação, mas sim que precisava de cuidado, que aquilo era um crime — descreve a assistente social.
Dificuldade de autoidentificação e autocuidado
Coordenadora técnica do projeto Borboleta, no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ), a psicóloga Aline Vettorazzi Del Fabbro aponta que homens têm barreiras para se reconhecerem como autores ou vítimas de violência e resistem a buscar serviços de saúde mental ou assistência social. Atuando em rodas de conversas destinadas a agressores para que repensem atitudes, ela chama a atenção para a dificuldade de autocuidado dos homens e de abertura para falar de problemas pessoais.
— Isso também é um grande desafio. Esse homem que não se cuida, como é que também vai cuidar do outro? Se ele também não consegue identificar em si questões a melhorar ou fazer o seu próprio acompanhamento de saúde, também fica difícil para ele identificar as necessidades dos outros com quem convive — ressalta a psicóloga.
Fazendo alusão ao processo de transformação e metamorfose da borboleta, a iniciativa busca incentivar uma mudança em homens que, muitas vezes, chegam contrariados em participar. A meta é que, ao final do processo, o participante seja capaz de mostrar a outros homens que condutas, muitas vezes naturalizadas, são violências. Em 15 anos, 965 agressores passaram pelo projeto, em 67 comarcas, com índice de reincidência de aproximadamente 7%.
— A gente tem que trabalhar com os homens, porque, na verdade, quem está praticando as violências contra as mulheres são homens. É com eles que a gente tem que falar — frisa a juíza Madgéli Frantz Machado, idealizadora do projeto Borboleta.

A violência na família
A magistrada e a psicóloga afirmam que ainda são poucos os casos em que homens realizaram denúncias ou intervenções, mas acreditam que a ampliação da discussão é importante para quebrar ciclos familiares que normalizam relações abusivas e para que homens repensem a conduta com todas as mulheres, inclusive as que estão em suas famílias.
— A violência, a partir dessa transgeracionalidade, vai atingir os homens, porque eles poderão reproduzir o padrão masculino, do pai que batia, do avô, do tio, mas também tem um efeito muito negativo em relação às mulheres, às filhas. Se elas vieram de um contexto onde a mãe sofria violência, o que vai parecer normal para elas? O que foi ensinado que é natural? — questiona a juíza.
João, o homem que ajudou a namorada a denunciar o ex-marido, conta que a presença de mulheres em sua educação teve influência em sua atitude, assim como o exemplo do próprio pai.
— Meu pai sempre tinha essa preocupação, sempre me falava de ter respeito em relação à mulher, principalmente por isso, e por ter sido criado por quatro mulheres, minhas três irmãs e mais minha mãe —sustenta João, que também tem três filhas.
Pensar que a violação poderia ser com alguém da família é uma forma de trabalhar a conscientização de homens para a prevenção da violência.
— Imagina que é uma situação em que poderia ser a sua mãe, irmã, sobrinha, filha. O homem precisa se colocar mais dentro de uma situação como essa para saber a real importância da denúncia e da interferência para interromper o ciclo de violência — reforça o músico Thedy Corrêa, coordenador do Comitê Gaúcho Eles por Elas, ligado ao HeforShe, da ONU Mulheres.
Organizada pelo artista junto a homens de diferentes profissões, a iniciativa reúne entidades, ONGs e universidades para desenvolver ações pontuais e campanhas de comunicação sobre combate à violência contra a mulher. As mais recentes ocorreram no litoral gaúcho e em estações do trensurb, com a divulgação de telefones da rede de proteção.
Rompendo o silêncio
A psicóloga e escritora Valeska Zanello, que pesquisou grupos de conversas de homens no WhatsApp, ressalta que atitudes inadequadas precisam ser questionadas dentro da “casa dos homens” pelos próprios integrantes, eliminando o silêncio que reforça a cumplicidade.
— Aquele homem que não passou por um processo de desconstrução, transformação, de reeducação, não vai ser aquele agente que vai auxiliar a mulher a sair dessa situação de violência. Ele vai continuar pertencendo à casa dos homens, por isso a importância de ter esses espaços de conscientização — destaca a juíza Madgéli Frantz Machado, citando a obra da pesquisadora.
Para levar informação que pode salvar vidas, a Polícia Civil começou a visitar escolas, universidades e empresas com o projeto Rompendo o Silêncio, que esclarece sinais de alerta e medidas de proteção. Com palestras e rodas de conversas em Porto Alegre, a iniciativa passou por 20 locais até o momento, com um público de 650 participantes.
— A gente costuma dizer que os homens fazem parte do problema, então eles necessariamente precisam fazer parte da solução. Nós temos levado a conscientização através do projeto, tanto direcionado a homens quanto mulheres, para que eles entendam a responsabilidade deles também — explica a delegada Waleska Alvarenga.

Denúncias, inclusive anônimas, podem ser feitas gratuitamente pela Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180, disponível 24 horas por dia. O serviço nacional direciona os relatos aos órgãos competentes e registra avaliações sobre os atendimentos da rede que foram buscados pela vítima.
A maior parte das ligações recebidas pela linha é para tirar dúvidas. Qualquer pessoa pode receber orientações sobre leis, direitos das mulheres e direcionamento para serviços especializados. Há ainda a opção de acionar o canal pelo Whatsapp (61) 99610-0180 ou pelo e-mail central180@mulheres.gov.br.
— Se as pessoas conseguem entender quais são os tipos de violência, que aquilo que elas presenciam é violência, que tem lei, que tem punição para isso, elas acabam denunciando mais. E aí a gente acaba impedindo que essa violência evolua e chegue a um feminicídio. Quem sabe se alguém tivesse reparado, um vizinho que soubesse da situação, se alguém tivesse atuado em algum momento nós não poderíamos ter salvo essas mulheres — reforça a coordenadora geral do Ligue 180, Ellen dos Santos Costa.