Em alerta
Com 11 casos de janeiro a agosto, Porto Alegre registra o maior número de feminicídios para o período desde 2018
Aumento foi tema, inclusive, de reunião da rede de proteção da Capital e do Estado


Havia cerca de uma semana que Josiane Natel Alves, 32 anos, tinha encerrado uma relação conturbada com o ex, quando teve a casa invadida, na noite de 8 de janeiro, no bairro Campo Novo, na zona sul de Porto Alegre, e foi morta a facadas.
Menos de 24 horas depois, Paula Gabriela Torres Pereira, 39, foi assassinada da mesma forma, numa parada de ônibus, na Avenida Juca Batista, no bairro Chapéu do Sol, também na Zona Sul. Nos dois casos, os ex-companheiros foram presos como suspeitos dos crimes.
Os assassinatos de Josiane e Paula Gabriela integram a estatística de feminicídios neste ano na Capital. Entre janeiro e agosto, foram 11 casos registrados. No mesmo período do ano passado, foram quatro. Em todo ano de 2025, tinham sido seis vítimas de feminicídio em Porto Alegre.
No comparativo com anos anteriores, desde 2018 a Capital não registrava tantos casos de feminicídios de janeiro a agosto. Naquele ano, foram 17 casos nos primeiros oito meses.
O aumento gera alerta e foi tema, inclusive, de uma reunião das redes de proteção da Capital e do Estado na última semana, para discutir medidas para reduzir os casos.
Dos 11 feminicídios registrados em Porto Alegre neste ano, em sete deles os autores foram identificados como companheiros ou ex das vítimas. Há ainda um filho e um neto investigados e em dois casos a polícia segue tentando identificar a autoria. Seis suspeitos estão presos e três tiraram a própria vida.
— Estamos com dois casos que ainda não foram identificados os suspeitos, mas, pelas lesões causadas no corpo da vítima, nós registramos como feminicídio. Um ponto que nos acende um alerta é a questão dos idosos. Nós tivemos neste ano três vítimas idosas, com feminicidas também idosos. Tivemos um caso do feminicida com 80 anos, outro 74, 77, apresentando transtorno mental — afirma a delegada Waleska Alvarenga, diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher (Dipam) da Polícia Civil.
A delegada também destaca ainda que três vítimas tinham medidas protetivas e reforça a importância de, em caso de descumprimento da medida, ser realizado novo registro.
— No caso ocorrido na Lomba do Pinheiro, soubemos posteriormente à morte que ele teria descumprido a medida e, inclusive, agredido a vítima. Mas não houve comunicação desse fato. De forma alguma culpamos a vítima, mas é importante ressaltar que a perseguição é um fator de risco para o feminicídio. A gente age de forma mais dura nesses casos — explica.
Orientação sobre registros pode ter impactado dado
Diretor do Departamento de Proteção aos Grupos Vulneráveis, o delegado Juliano Ferreira reconhece que o aumento de casos gera preocupação. O delegado ressalta, no entanto, que houve mudança na forma de registro dos feminicídios no Estado. Toda morte violenta de mulher deve ser inicialmente investigada com a perspectiva de gênero.
— Acredito que essa qualificação nos registros impactou nesse maior número, e também no ano passado tivemos um número mais baixo. Nesse ano, a gente reconhece esse aumento e analisa com preocupação. Por isso, estamos tomando essa série de medidas, não só quanto à repressão, como na prevenção, para diminuir esses números — afirma o delegado.
Entre as iniciativas citadas, está o programa Despertar, com grupos reflexivos para agressores, e o Protocolo X. Neste fim de semana, a Polícia Civil deu início ao protocolo, voltado para agressores de mulheres. Na Capital, foram realizadas 26 visitas a autores de violência doméstica. É prevista uma série de medidas, aplicadas de forma escalonada, chegando à sugestão de instalação de tornozeleira e pedido de prisão.
Os casos
- 18 de janeiro – Josiane Natel Alves, 32 anos, foi morta a facadas, na Zona Sul. Segundo a Polícia Civil, o autor foi identificado como o ex-companheiro da vítima, Fábio Luan Santos da Silva, 29
- 19 de janeiro – Paula Gabriela Torres Pereira, 39 anos, foi morta a facadas na Avenida Juca Batista, no bairro Chapéu do Sol, na Zona Sul. O ex-companheiro dela, Demerson Barbosa, 50, foi preso em flagrante. Os dois mantiveram um relacionamento de 12 anos e estavam separados havia cinco anos
- 18 de abril – Paloma de Oliveira Eusebio, 26 anos, que vivia em situação de rua, foi espancada num terreno baldio na Rua Ernesto Alves, no bairro Floresta. Paloma morreu em 29 de abril, no Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, em decorrência de graves lesões sofridas na cabeça. A perícia encontrou sêmen no corpo da vítima. O autor ainda não foi identificado
- 7 de maio – Dois idosos foram encontrados mortos no bairro Belém Novo, na Zona Sul. Irene Teles Nunes, 77 anos, e Osmar Nunes, 78 anos, eram casados. Ela foi morta com golpes de machado. A suspeita é de que ele tenha matado a esposa e tirado a própria vida
- 9 de maio – Isabella Borges da Rosa Pacheco, 22 anos, foi assassinada a tiros, em Porto Alegre. O companheiro dela, Nicollas Ronald Moraes dos Santos, 23 anos, fugiu com a arma de fogo, mas foi preso em flagrante. A vítima tinha medida protetiva contra o homem, chegou a pedir a revogação, mas a determinação estava em vigor
- 22 de maio – Uma idosa foi encontrada morta dentro de casa na Rua Sete, no bairro Bom Jesus, na zona leste de Porto Alegre. Ela foi identificada como Cecilia Zonta de Castro, 72 anos. O neto da vítima, de 26 anos, procurou o 11º Batalhão da Brigada Militar e confessou o crime. Em seguida, ele levou os policiais até o local onde a idosa foi encontrada morta. Ele foi preso
- 28 de julho – Ana Carolina Perlaky, 17 anos foi morta com um disparo de arma de fogo, no bairro Vila Nova, na zona sul de Porto Alegre. O ex-namorado, Halisson Theylor Bumbel Gerônimo, 22 anos, suspeito do crime, foi preso no mesmo dia. A adolescente tinha medida protetiva contra ele e chegou a pedir revogação, mas a determinação seguia em vigor
- 1º de agosto – Uma idosa de 74 anos foi encontrada morta em casa. O suspeito é o marido, também de 74 anos, que tirou a própria vida. Os nomes não foram divulgados
- 10 de agosto – Priscila Rosa da Silva, 41 anos, foi assassinada dentro de casa no bairro Lomba do Pinheiro, na zona leste de Porto Alegre. O ex-companheiro dela, Eduardo Lopes dos Santos, 43, foi encontrado morto. Segundo a polícia, Santos invadiu a casa da ex-companheira e a matou a tiros. Ela tinha medida protetiva contra o ex
- 17 de agosto – O assassinato de uma mulher é investigado pela Polícia Civil em Porto Alegre. O caso aconteceu no Morro Santana, na Zona Leste. Cleusa Maria Soares, 57 anos, havia saído no início da manhã, para trabalhar. Segundo a polícia, ela foi encontrada morta, com sinais de violência, numa área de mata, perto de uma casa abandonada, na Rua Homero Ferrugem Martins. Não há informação divulgada sobre suspeito do crime
- 18 de agosto – Uma mulher de 80 anos morreu após cair da janela de um apartamento na Rua Almirante Barroso, no bairro Floresta, em Porto Alegre. A Polícia Civil investiga as circunstâncias da queda do segundo andar do prédio, incluindo possível feminicídio. O principal suspeito é o filho dela, de 49 anos, preso em flagrante