Educação
Projeto social de Porto Alegre busca ajuda para arrecadar materiais escolares para crianças e idosos
Na Associação de Moradores Força Maior da Pedreira, no bairro Cristal, os itens arrecadados são mais do que utensílios de estudo; são instrumentos de transformação de vida


Foi revendendo cosméticos que Natália Souza, 58 anos, esbarrou na alfabetização. Moradora da Vila da Pedreira, no bairro Cristal, em Porto Alegre, ela havia recebido, por mensagem de texto, os nomes dos produtos escolhidos por Adriana Pedroso, 60 anos, mas pediu que a cliente enviasse seu pedido por áudio, já que Natália não sabia ler.
Adriana não perdeu tempo e convidou Natália para as aulas de alfabetização de adultos oferecidas gratuitamente na Associação de Moradores Força Maior da Pedreira, na Rua Ursa Maior, 538. Coordenada por Adriana, a organização oferece serviços para moradores da comunidade e arredores, como o auxílio educacional, que engloba a alfabetização de adultos e idosos e o contraturno escolar, que oferece espaço de acolhida e reforço para crianças fora do horário de aula.

Para fazer tudo isso, a Associação conta com a doação de materiais escolares. Por mais que a arrecadação ocorra o ano inteiro, é na volta às aulas que o trabalho ganha força. A procura aumenta e, no momento, o estoque está zerado.
— Para não dizer que temos nada: temos uma caixa de lápis de cor — relata Adriana.
Ela lembra que a arrecadação de materiais começou sem redes sociais. Adriana e outros membros da associação saíam de porta em porta pelo bairro.
— Sempre foi assim. Nós por nós. Nós fazemos campanha. Nós pedimos — lembra Adriana.
Ensinamento central é o cuidado
O empenho deu resultado. A Força Maior da Pedreira consegue oferecer materiais tanto para as atividades escolares das crianças da vizinhança, quanto para o contraturno. Com as doações, Adriana consegue ajudar alunos a renovarem seu material ao longo do período letivo, o que incentiva a permanência na escola.
— O ensinamento central é o cuidado com o material. Material da escola é da escola, daqui é daqui. Tudo organizado — explica ela.

Doações movem um trabalho amplo
As doações, no entanto, não preenchem apenas necessidades materiais das crianças. Elas são parte de um trabalho amplo de mudar vidas por meio da educação promovido pela associação de moradores.
— Minha maior preocupação é o idoso que não sabe pegar ônibus ou assinar seu nome em um documento — diz Adriana, quando lembra do problema do analfabetismo. O maior desafio no dia a dia dessa faixa etária é tirar dessas pessoas a vergonha de “aderir” aos estudos.
A revendedora Natália aderiu e, agora, colhe os resultados. Mesmo já formada na alfabetização, em uma cerimônia que ocorreu em outubro no ano passado, ela continua frequentando as aulas, agora para exercitar e desenvolver a interpretação de texto.
No caso dos jovens, há mais desafios
Uma das responsáveis pelo contraturno, a estudante de pedagogia Alexia Magalhães, 25 anos, se preocupa com o que chama de "aluno copiador" — que reconhece as letras e é capaz de copiar textos, mas não consegue interpretar o que lê.
Para Adriana e Alexia, essa realidade se intensificou após a pandemia, com a progressão parcial, quando o aluno pode reprovar em até quatro matérias e mesmo assim seguir adiante na escola.
— É preocupante uma criança estar no 6° ano e não saber interpretar um texto ou não entender a tabuada. Como essas crianças da periferia vão fazer um concurso ou arrumar um emprego? Se aceitam que uma criança avance sem saber ler, sem saber sobre seu país, sobre seu território. Só sabem quando é dia e quando é noite. O que mais elas sabem? Pela grade escolar, elas não entendem nada — diz Adriana.
Ela lembra que "os pais não são professores" e por isso a associação "esse papel social":
— Onde o poder público falha, nós estamos. Mães estão maravilhadas pelo contraturno. Pois, se estão aqui, as crianças estão longe da rua — complementa Adriana.
Além de Alexia, o trabalho voluntário também encantou Magda François, 64 anos. Professora de Engenharia aposentada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela agora se encanta com a alfabetização e diz que se alegra quando vê as doações de materiais escolares chegando.
Para doar, é possível entrar em contato pelo Instagram da Associação de Moradores Força Maior da Pedreira: @associacaovilapedreira. Mas a coordenadora Adriana encoraja os interessados a realizarem a doação presencialmente, na sede da instituição, para conhecer o trabalho realizado no local.
Como doar?
/// A doação para a instituição pode ser realizada presencialmente, na Rua Ursa Maior, 538, bairro Cristal, Porto Alegre.
/// Aqueles que não conseguem chegar ao local, podem entrar em contato pela nova página de Instagram da associação: @associacaovilapedreira.
*Sob supervisão do jornalista Émerson Santos