Doação de órgãos
"A história do meu filho começou quando uma família disse sim", diz pai de criança que passou por transplante de rim
Caso de menino do Amazonas atendido em Porto Alegre ocorre em meio à alta de 8% nos procedimentos no RS


O Rio Grande do Sul registrou aumento de 8% no número de transplantes de órgãos em 2025, totalizando 2.466 procedimentos, segundo o governo do Estado. Um exemplo desse número é Miguel das Graças Nina, sete anos, nascido em Humaitá, no Amazonas. Ele voltou a beber água após receber um rim em Porto Alegre.
Para o pai, o professor e pedagogo Mario Jorge da Rocha Nina, 53 anos, o número representa a mudança concreta na vida do filho e da família.
Miguel tinha cinco anos quando recebeu o diagnóstico de síndrome nefrótica, que evoluiu para insuficiência renal crônica. Com isso, passou a enfrentar restrições, especialmente em relação à ingestão de líquidos: Miguel não podia ultrapassar 500 mililitros por dia.
— Ele chorava pela água. A fala dele era choro. E a gente precisava dizer não. Dizer não para um filho é uma dor que não cabe — lembra Mario.
O menino precisou passar por diálise peritoneal, feita em casa, e por hemodiálise, no hospital. Nesse caso, o sangue era filtrado por uma máquina durante sessões de quatro horas, várias vezes por semana.
Transferência para Porto Alegre
A médica que atendeu a família em Porto Velho recomendou a transferência para Porto Alegre, considerada referência no tratamento de casos como o de Miguel.
Mario e a esposa, Antônia das Graças Nina, 40 anos, chegaram na capital gaúcha em 21 de julho de 2025. Vieram com Miguel, autista de grau 3 e não verbal, e deixaram pra trás a filha Letícia, que ficou com familiares. Eles foram acolhidos na ONG Via Vida, localizada no bairro Petrópolis.
O rim veio de Curitiba. Miguel foi transplantado em novembro de 2025, no Hospital Dom Vicente Scherer, na Santa Casa de Porto Alegre.
— A história do meu filho começou quando essa família disse sim, e eu sou muito grato por isso — afirma.
— Antes, a água era perigosa. Hoje meu filho bebe dois litros de água por dia. Hoje eu durmo — complementa Mario.
A importância da doação de órgãos
Para a presidente da Via Vida, Clarisa Wolff Garcez, histórias como essa explicam por que a doação de órgãos não é um gesto abstrato, mas um ato concreto de continuidade. No Brasil, segundo ela, quase metade das famílias ainda diz não quando é chamada a decidir.
— Só acontece se alguém disser sim. E esse sim precisa ser dito em vida, conversado em família. Depois da morte, quem fala por nós é a família. O silêncio também decide — diz Clarisa.
Ela lembra que o Brasil tem o maior sistema público de transplantes do mundo, com cerca de 95% dos procedimentos realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas que nenhuma estrutura funciona sem autorização para a doação.
Além da autorização para doação de órgãos, a Via Vida depende da solidariedade cotidiana para manter portas abertas. A vice-presidente da entidade, Noêmia Gensas, explica que o SUS não cobre despesas como hospedagem, alimentação e estadia de pacientes e acompanhantes que vêm de outros estados.
— A casa vive de doações. Cada prato de comida, cada cama, cada banho quente existe porque alguém ajudou. Sem isso, muitas famílias simplesmente não conseguiriam esperar — relata.
Seja um doador
A ONG Via Vida acolhe pacientes de todo o Brasil que aguardam transplante e seus acompanhantes em Porto Alegre, oferecendo hospedagem, alimentação, apoio psicológico, assistência social e conscientização sobre doação de órgãos.
- Endereço: Avenida Taquara, 579, bairro Petrópolis, Porto Alegre
- Instagram: @viavidapro
- WhatsApp: (51) 99602-7844
- PIX (CNPJ): 04.043.606/0001-65 VIA Pró-Doações e Transplantes
*Com orientação e supervisão de Caroline Tidra e Leticia Costa