"Quero mantê-lo no meu colo o tempo todo", diz mãe de bebê que sobreviveu a ataque a escola em Saudades - Polícia

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Santa Catarina11/05/2021 | 07h00Atualizada em 11/05/2021 | 07h00

"Quero mantê-lo no meu colo o tempo todo", diz mãe de bebê que sobreviveu a ataque a escola em Saudades

Henrique Martins Hubler, de um ano e oito meses, teve corte na barriga, embaixo do olho, na boca e no ombro. Um dos golpes perfurou o pulmão. Menino teve alta neste domingo no hospital de Chapecó (SC)

"Quero mantê-lo no meu colo o tempo todo", diz mãe de bebê que sobreviveu a ataque a escola em Saudades Alcebíades Santos / HC/Divulgação/HC/Divulgação
Henrique junto dos pais Diego e Adriana na saída do hospital de Chapecó neste domingo (9) Foto: Alcebíades Santos / HC/Divulgação / HC/Divulgação

Adriana Martins, 35 anos, viveu o Dia das Mães mais feliz de sua vida neste domingo (9). Funcionária de uma fábrica de calçados em Saudades, no oeste catarinense, ela trouxe para casa o caçula Henrique Martins Hubler, de um ano e oito meses. A criança sobreviveu ao ataque com golpes de facas cinco dias antes na Escola Municipal Pró-Infância Aquarela. O menino era um dos quatro bebês que estava na sala do maternal que foi invadida por Fabiano Kipper Mai, 18 anos, com facão na manhã de 4 de maio.

O criminoso atacou as quatro crianças que estavam no local e aguardavam o lanche. As vítimas receberam pelo menos cinco golpes. Três delas morreram – Sarah Luiza Mahle Sehn, um ano e sete meses, Anna Bela Fernandes de Barros, um ano e oito meses, Murilo Massing, um ano e nove meses. 

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Henrique foi resgatado da sala de aula –  enquanto Fabiano ainda estava dentro da creche – pelo mecânico Ezequiel Vargas Pimentel, 35 anos, que entrou na escola ao ouvir gritos de socorro. Já do lado de fora, a criança foi alcançada para a professora Aline Biazibetti, 27 anos, que é vizinha do prédio e não estava trabalhando na escola naquele turno, mas também foi despertada pelos pedidos de ajuda.

Machucado mas consciente, Henrique foi levado por Aline e seu pai ao pronto-socorro da cidade. O bebê não chorava, mas olhava fixo para a professora. Devido ao estado grave dos ferimentos, precisou ser levado de helicóptero até o hospital de Chapecó, a 70 quilômetros de Saudades, onde ficou um dia na unidade de tratamento intensivo (UTI) e teve alta neste domingo.

— É um alívio poder estar em casa com ele nos braços. Só Deus foi capaz de protegê-lo naquele momento. Quero amá-lo sem medidas, abraçar tudo que tiver para abraçar e dizer que o amo muito. Nunca deixarei de falar isso. Quero mantê-lo no meu colo o tempo todo — admite a mãe.

Henrique Martins Hubler, de um ano e oito meses, tem alta no Hospital de Chapecó neste domingo (9). Na foto ao lado da mãe, Adriana Martins. E na outra foto ao lado dos pais Adriana e Diego<!-- NICAID(14779290) -->
Adriana e o filho Henrique neste domingo (9) na saída do hospital de ChapecóFoto: Alcebíades Santos / HC/Divulgação

Assim como os pais, a irmã mais velha de Henrique, Isabely, de cinco anos, também ficou aflita com a situação do caçula. Pedia para vê-lo em chamadas de vídeo e enviava desenhos para o pequeno pintar no hospital:

— Toda noite ela dormia comigo e rezávamos muito pela melhora dele. Tudo isso vai nos fazer sermos ainda mais amorosos com nossos filhos. Às vezes, com a correria deixávamos de brincar para atender outras coisas. Agora, com certeza, vamos dar ainda mais prioridades a eles — conta o pai, Diego Hubler, 31 anos, que é funcionário de uma fábrica de calçados esportivos.

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Os pais e o bebê foram recepcionados com música, balões, cartaz e homenagens dos vizinhos no domingo. A família mora em uma chácara em Linha Santo Afonso, na zona rural de Saudades, onde criam coelhos, bezerros e galinhas. Ao estacionar o carro na propriedade, Hubler conta que sentiu a mesma sensação de quando voltou com o filho após sair da maternidade:

— Para nós é como se ele nascesse de novo. É uma segunda data de nascimento. Foi Deus que o protegeu, não tem outra explicação.

É um alívio poder estar em casa com ele nos braços. Só Deus foi capaz de protegê-lo naquele momento. Quero amá-lo sem medidas, abraçar tudo que tiver para abraçar e dizer que o amo muito. Nunca deixarei de falar isso. Quero mantê-lo no meu colo o tempo todo.

ADRIANA MARTINS

Mãe do Henrique

Henrique teve corte na barriga, embaixo do olho, na boca e no ombro. Um dos golpes perfurou o pulmão, o que provoca um pouco de tosse. O menino está tomando antibiótico e xarope para dor e na quinta-feira (13) voltará ao médico para reconsulta.

Nas primeiras horas em casa, a criança reage como se o susto já fosse algo do passado. Corre pela casa, pula, interage com a irmã, brinca com os animais da propriedade e pede para ver episódios de Galinha Pintadinha. Mesmo com os ferimentos, o bebê mantém seu perfil ativo. Aos sete meses já parava em pé, começou a andar com um ano e estava sempre disposto para ir a creche. 

Começou a frequentar a Escola Aquarela no ano passado, mas as aulas foram interrompidas devido a pandemia e voltaram em março deste ano. Ia sempre no turno da manhã: o pai o deixava 6h55min e buscava até 11h30min. Henrique gostava tanto da rotina que aos sábados pegava a mochila, colocava nas costas e pedia para ir também.

Para nós é como se ele nascesse de novo. É uma segunda data de nascimento. Foi Deus que o protegeu, não tem outra explicação.

DIEGO HUBLER

Pai do Henrique

— Desde o primeiro dia, ele só fez uma hora de adaptação. No segundo dia, ele já ia bem faceiro. Se tu perguntava para ele, quem vai na creche? Ele respondia: o nenê — conta o pai.

Na manhã desta segunda-feira (10), Henrique recebeu a visita da professora Aline.

— Só posso agradecê-la. Não tenho palavras. Foi emocionante encontrar alguém que ajudou a salvar a vida do meu filho — diz o pai.

Na sexta-feira (7),  prefeito de Saudades, Maciel Schneider, determinou a suspensão das atividades na creche Aquarela e de outras duas escolas do município até o dia 14. A paralisação poderá ser prorrogada. Enquanto se recupera, a criança ficará sob os cuidados da família, especialmente da mãe, que ganhou dias de férias. O pai espera que, quando os dois filhos voltarem a rotina escolar, as creches tenham mais segurança, seja por um guarda ou por portas trancadas, restringindo o acesso de estranhos:

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— Alguma coisa que tem que ser feita, com certeza muitas prefeituras vão tomar alguma atitude. Muitos pais e muitas crianças estão traumatizados. O que aconteceu é assustador e algo tem que ser feito. Se não nenhum pai vai mandar seu filho e nenhuma criança vai querer ir.

Fabiano está internado em um hospital da região de Chapecó mas não corre risco de vida. Após o ataque, desferiu golpes contra o próprio corpo. O criminoso deve ser ouvido em depoimento ainda nesta semana. Os pais de Fabiano já foram ouvidos formalmente pela polícia, mas o delegado regional de Chapecó, Nilton Casagrande, preferiu não dar detalhes sobre o conteúdo do testemunho.

A Polícia Civil de Santa Catarina espera encerrar o inquérito até sexta-feira. Os investigadores analisam o computador e o pen drive de Fabiano. Até a data o crime, Fabiano costumava ficar trancado no quarto no computador.  Na semana passada, teve a prisão preventiva decretada. A defesa pedirá a Justiça que Fabiano seja submetido a um exame de sanidade mental.

 
 
 
 
 
 
 
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