Economia
Azimut triplica fábrica em Itajaí
Estaleiro italiano amplia oeprações na única filial da América

Num galpão de 10 mil m², dentro de um condomínio industrial, embarcações milionárias e cobertas de luxo tomam forma. O estaleiro é da italiana Azimut, que acaba de triplicar as instalações na única filial brasileira da marca, em Itajaí. Ali, entre operários vestidos de branco e com olhos atentos nos detalhes de acabamento, barcos de lazer ganham status de objetos de desejo.
A fábrica, que está em Itajaí há três anos, produz por aqui modelos da linha Azimut Yachts, com 43, 48 e 60 pés. A mudança de local da empresa, que saiu de um galpão menor, na Rua Reinaldo Schmithausen, para uma nova unidade, na região da Murta, coincide com o início da construção de iates de 70 pés - uma novidade da produção da Azimut no Brasil, que já entra no mercado nacional com três unidades vendidas.
A fabricação de barcos cada vez maiores não ocorre por acaso. A empresa saltou de seis embarcações entregues no primeiro ano no Brasil para uma previsão de fechar o ano náutico de 2013 com 28. De 2011 para 2012, aumentou em 75% a quantidade de pés produzidos, com o início da construção de embarcações mais robustas.
A meta da empresa é começar a produzir iates mais próximos de 100 pés já no ano que vem, voltados a uma clientela ainda mais seleta e abonada. Segundo Davide Breviglieri, CEO da marca no Brasil, mercado não falta:
- O brasileiro vai de uma embarcação de 43 pés para uma de 70 em dois a três anos. No restante do mundo, essa mudança leva de cinco a seis para acontecer. Temos um mercado imenso - diz.
Pode haver procura de sobra, mas comprar um Azimut não é para qualquer um. Os barcos saem da fábrica por preços que variam de R$ 2,5 milhões a mais de R$ 10 milhões. É o que se paga para ter embarcações feitas para aliar design confortável a itens de luxo, como o mobiliário italiano e os detalhes talhados à mão.
Se fosse possível comparar com o mercado automobilístico, não seria exagero dizer que um Azimut é produzido com o cuidado e a exclusividade da conterrânea Ferrari.
Importação
Embora já esteja no Brasil há algum tempo, a fábrica ainda não abriu mão de importar da Itália 60% dos itens que coloca nos barcos - com exceção de materiais inox, tapeçaria e equipamentos elétricos. Isso porque, de acordo com Breviglieri, ainda não é possível encontrar os mesmos materiais e a mesma qualidade por aqui. Quem compra um Azimut, diz o CEO, quer encontrar o mesmo padrão entregue ao mercado europeu.
Mas o consumidor brasileiro também exportou seu jeito de apreciar a náutica para o mundo. A Azimut criou churrasqueiras na plataforma de popa nos modelos fabricados por aqui para agradar a freguesia chegada a festas - novidade que hoje faz parte de vários outros iates vendidos pela marca no mundo.
Com tanta importação de matéria-prima, a fábrica brasileira atua mais como montadora do que produtora. Ainda assim, comprar um barco feito por aqui significa pagar um valor 20% menor do que o mesmo barco vindo da Europa. Uma economia que pode equivaler a alguns milhões de reais.
Mais qualificação para crescer
A nova fábrica da Azimut em Itajaí poderia hoje produzir até 40 barcos por ano. Mas a falta de mão de obra qualificada para o trabalho reduz a velocidade de crescimento. Recentemente, a marca iniciou conversas com universidades locais e cursos técnicos para alavancar projetos que capacitem trabalhadores.
- Pouca gente faz o que fazemos aqui. O mercado está mais voltado para a produção naval do que náutica - diz o CEO da Azimut no Brasil, Davide Breviglieri, embora reconheça que a familiaridade dos itajaienses com os processos de produção de um barco ajudaram a atrair a fábrica para Santa Catarina.
Outro impasse parece mais difícil de resolver. A falta de marinas afeta todo o país, e negociações já deixaram de ocorrer em razão disso. Para se ter ideia, há grandes embarcações produzidas na Europa pela Azimut, mas importadas para o Brasil, que só podem ser retiradas da água para manutenção em uma marina, no Rio de Janeiro, ou no Porto de Itajaí.
O executivo vê com bons olhos o projeto de construção de uma estrutura náutico-ambiental em Itajaí.
- A gestão correta do mercado náutico gera impacto econômico e ambiental favorável e produtivo - avalia.
Até 2016, a fábrica de Itajaí pretende fornecer para todo o mercado da América Latina.
Público é selecionado
Para quem compra um Azimut produzido no Brasil, a aquisição pode envolver desde acertar detalhes - quanto maior o barco, mais possibilidades de adaptação - até a chance de acompanhar as etapas de fabricação no estaleiro, em Itajaí.
A empresa não trabalha com vendas diretas, mas tem investido no pós-venda depois de ter enfrentado problemas no início do trabalho com concessionárias. O impasse foi resolvido com um intenso trabalho e escolha cuidadosa dos dealers - empresas encarregadas de fechar os negócios.
Depois de negociada, uma embarcação leva de quatro a seis meses para ficar pronta em Itajaí. Então passa pela fase de qualificação na água, feita na Marina Tedesco, em Balneário Camboriú, em que são testados comportamento, balanceamento e performance.
A maioria dos barcos, depois de entregue, fica no Sul ou Sudeste do país - em especial, clientes de São Paulo que mantêm os iates em Angra dos Reis (RJ). Embora não revele quem são seus clientes - apesar de não haver segredo de que Neymar está entre eles - Breviglieri conta que há, no Brasil, quem mantenha nada menos do que três embarcações de luxo - uma em águas nacionais, uma na Europa e outra nos Estados Unidos.