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Exemplo de solidariedade13/08/2015 | 07h03

Troca de bolachas em escolas espalha paz entre as crianças de Portão

Desde junho, crianças de Portão estão fazendo e recebendo uma pombinha como símbolo de solidariedade. A corrente do bem já chegou na quarta escola

Troca de bolachas em escolas espalha paz entre as crianças de Portão Ronaldo Bernardi/Agencia RBS
Objetivo é que a iniciativa se propague Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS
Manoela Tomasi

Especial

Diante de um cenário de intensa violência no Brasil, o que você faria se precisasse, com urgência, promover a paz na sua cidade? Em Portão, na Região Metropolitana, uma professora da rede pública de ensino teve uma ideia simples, mas que, em dois meses, já chegou a centenas de famílias: ensinar as crianças a preparar biscoitos em formatos da pomba da paz para serem distribuídos para alunos de outras escolas, como uma corrente do bem.

A sugestão surgiu da diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental Vila Aparecida, Elza Aparecida Pereira, 49 anos, que pegou a receita da bolacha com a avó de uma aluna.

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— Assim que ficamos sabendo de um episódio de violência dentro de uma escola de Portão, em maio, nos mobilizamos para resgatar a paz na nossa cidade. Algumas instituições fizeram cartazes e passeatas, mas eu queria criar algo físico, uma "paz" que as pessoas pudessem tocar — explica.



Confraternização

Os primeiros 800 Biscoitos da Paz foram produzidos pelos 150 alunos, de quatro a dez anos, que fizeram desde a massa da bolacha até a cobertura com ingredientes doados pelos pais.

 
Fotos: Ronaldo Bernardi/Agência RBS

Segundo a diretora, a intenção era envolver todos os alunos nas etapas do processo. A instituição escolheu, então, outra para entregar o agrado. A primeira a receber o presente foi a Escola Municipal Visconde de Mauá.

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— Nosso objetivo é promover uma integração entre as crianças, mas os alunos devem entender o que estão fazendo, perceber a importância do gesto. Dessa maneira, quem dá e quem recebe confraternizam e este momento proporciona uma reflexão em toda a comunidade — conta Elza.

 

"A busca pela paz está complicada, mas precisa ser feita"

A iniciativa, que começou em junho deste ano, chegou à sua quarta escola. Os alunos da Visconde de Mauá fizeram os biscoitinhos para os da Escola Municipal Edmundo Kern.

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De acordo com a diretora Denise Ribas, 36 anos, o presente foi recebido com muito amor, principalmente porque a maioria dos alunos é do assentamento Liberdade, entre Portão e Estância Velha, onde as famílias lutam por melhores condições de moradia.

— De imediato, mobilizamos nossos 185 alunos para a produção dos biscoitos e os pais apoiaram. Hoje, a busca pela paz está complicada, mas precisa ser feita. Começamos a ação pelas crianças, que são as responsáveis pelo nosso futuro e que podem, de verdade, mudar nosso mundo para melhor — acredita Denise.

Segundo a diretora, a escola lida com problemas de agressão verbal:

— Assim que nos envolvemos no projeto, já notei uma grande diferença. Os alunos estão se respeitando, pensando no outro.

Ontem, a instituição entregou biscoitos, poesias e ainda um lírio da paz para as crianças da Escola Municipal Afonso Gomes de Carvalho, com 275 alunos. O encontro foi preparado antecipadamente, com ensaios para as apresentações de música e danças. Emily Gabrieli, nove anos, que recebeu o presente, ficou encantada com o gesto de amizade: 

 

— Tem muita violência no mundo. Tomara que os biscoitos sejam uma maneira de levar a paz para os corações das famílias.

 

De dentro para fora da escola

Por enquanto, a iniciativa está passando pelas escolas, mas os alunos acreditam que a ideia pode ultrapassar as salas de aula. Para Gabriel Dias, nove anos, que fez questão de entregar os biscoitinhos nas mãos dos novos amigos, o projeto pode ir para os campos de futebol:

— Tem muita violência nas ruas, as pessoas se matam por nada. As torcidas e jogadores devem entender que é só um jogo, por exemplo.  Para a violência terminar, é preciso começar uma ação que a contenha.

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Destino interestadual

Desde que começou a iniciativa, a diretora Elza Aparecida Pereira recebe ligações de professores de outras cidades do Estado interessados em fazer os Biscoitos da Paz. Nesta semana, ela se prepara para uma nova fornada que, desta vez, vai viajar para longe. Uma escola particular de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, com 2 mil alunos, quer entrar na corrente do bem.

— A professora da escola Celp disse que há brigas entre os alunos da escola e de outra estadual que fica na mesma rua. Ao invés de apenas dar a receita, achamos que seria mais educativo enviar os Biscoitos da Paz pelo correio, e assim promover até mesmo uma troca de culturas.

A dona da ideia da paz deve se aposentar no ano que vem. Mesmo assim, ela faz questão de que a ação continue e siga por anos.

— Ter iniciado essa caminhada não tem preço. Não tem dinheiro que pague. O resultado é algo muito grande, não tenho como mensurar essa paz que está se espalhando. Até onde a iniciativa vai? Eu não sei. Quero que ela percorra o Brasil e que se amplie cada vez mais, mas, conseguindo plantar a semente da paz aqui na minha escola, já fico muito emocionada — completa.

Aprenda a fazer o Biscoito da Paz

Ingredientes:
6 ovos
4 xícaras de açúcar
2 colheres (sopa) de manteiga
2 colheres (sopa) de banha
1 1/2 colher (sopa) de sal amoníaco
1 1/2 xícara de leite morno
Farinha até dar ponto

Modo de preparo:
Misturar primeiro o sal amoníaco com leite morno. Em seguida, acrescentar os demais ingredientes, formando uma massa uniforme que não grude. Sugestão: raspinhas de limão. Assar em temperatura de 200°C. Esta receita rende, aproximadamente, 200 biscoitos no formato da pombinha da paz.

Para decorar:
Bater bem quatro claras em neve. Aos poucos, ir acrescentando açúcar de confeiteiro, até que fique um glacê bem cremoso (em torno de 500 gramas).

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