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Seu problema é nosso05/09/2018 | 09h49

Pacientes seguem com dificuldade para encontrar Ritalina na rede pública e privada

Medicamento usado no tratamento Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) sumiu das farmácias nos últimos meses

Pacientes seguem com dificuldade para encontrar Ritalina na rede pública e privada Maicon Damasceno / Agência RBS/Agência RBS
O Diário Gaúcho acompanha o problema desde o mês passado Foto: Maicon Damasceno / Agência RBS / Agência RBS

Segue o drama de quem precisa utilizar o medicamento cloridrato de metilfenidato no Rio Grande do Sul. Popularmente conhecida pelo nome comercial Ritalina, a substância passa por uma crise de desabastecimento em farmácias privadas e na rede pública, onde pacientes não conseguem retirar os comprimidos na Farmácia de Medicamentos Especiais do Estado, em Porto Alegre. 

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O Diário Gaúcho mostrou a situação no dia 22 de agosto, quando o laboratório Novartis, fabricante da Ritalina e da Ritalina LA no Brasil, confirmou a interrupção temporária na fabricação do remédio. 

Problemas na importação de materiais — que geraram a pausa temporária na produção —, somados a uma "procura além da esperada" foram os fatores apontados pela Novartis para que a Ritalina tivesse sumido das farmácias.

A substância, um estimulante leve do sistema nervoso central, costuma ser utilizada no tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

Dificuldade 

É o caso da auxiliar administrativa Débora Lopes Garcia, 21 anos, relatado na reportagem publicada no fim de agosto. Com nível elevado de TDAH, ela depende da Ritalina para ter uma melhor qualidade de vida.

Sua mãe, a secretária Juliana Teresinha Lopes Garcia, 55 anos, vem quebrando barreiras nos últimos três meses para conseguir o medicamento. Moradora do bairro Campo Novo, na zona sul da Capital, ela conta que a Ritalina LA de 10mg é a variação mais difícil de encontrar. 

Os dois tipos do remédio — Ritalina e Ritalina LA — existem para diferentes tratamentos. Conforme o psiquiatra Giovani Gheno, do Hospital Fêmina, em Porto Alegre, a LA "é uma medicação de liberação lenta". Ou seja, não terá um efeito imediato, mas agirá no organismo por mais tempo, ao longo de um dia inteiro, por exemplo. Já a Ritalina comum "costuma agir mais rapidamente, porém, com tempo de ação menor sobre o paciente".

Na Justiça 

A troca da Ritalina LA pela comum, como no caso de Débora, não chega a apresentar riscos, segundo Giovani, mas dificulta o tratamento. É necessário fazer uma alteração no número de doses, por exemplo, algo que pode atrapalhar o paciente, na visão do psiquiatra. 

— Protocolei um pedido na Justiça para que possa pegar quantidades maiores da (Ritalina) comum. É uma possibilidade para tentar equiparar com os resultados do uso da LA, a qual minha filha deveria estar tomando — explica Juliana, que ainda precisa esperar mais uma semana pela resposta do pedido feito à Justiça. 

Rede privada também foi afetada

Para quem procura Ritalina nas farmácias da rede privada, também é um desafio encontrar o medicamento. A estudante de Relações Públicas Betina D’Avila, 20 anos, iniciou o tratamento da TDAH há cerca de cinco meses. Porém, ficou quase um mês e meio sem poder tomar o remédio. 

— Eu fui a nove farmácias, e nenhuma tinha Ritalina. Diziam que não estavam conseguindo comprar ou que, quando conseguiam, eram quantidades pequenas, que acabavam muito rápido — recorda a estudante.

Somente no início desta semana, depois de rastrear por conta própria farmácias por diferentes pontos da Capital, ela conseguiu comprar o remédio em uma loja no bairro Azenha. 

— Quando cheguei à farmácia, disseram que eu era a primeira pessoa que ia comprar depois de quatro meses em falta. O novo lote tinha acabado de chegar — conta Betina. 

A reportagem tentou contato com as redes de farmácias Panvel e São João em busca de informações sobre o estoque de Ritalina na rede privada. A assessoria de imprensa da Panvel informou que não poderia responder. O setor responsável da rede São João não retornou os e-mails do jornal. 

Remédio chega na semana que vem, diz Estado

Questionada sobre quais variações da Ritalina tem em estoque e quais estão em falta, a Secretaria Estadual da Saúde (SES-RS) respondeu apenas que "o fabricante do medicamento teve problemas com a liberação dos lotes, o que gerou atraso" na distribuição aos pacientes.

A previsão da SES-RS é de que a Farmácia do Estado receba uma remessa da substância até o dia 15 de setembro. A pasta não especificou qual ou quais tipos de Ritalina foram adquiridos. 

Para os pacientes que estão sem o medicamento, a orientação da secretaria é para que os buscar alternativas junto aos seus médicos.

Laboratório prevê prazo de 60 dias 

A Novartis, fabricante da Ritalina e Ritalina LA, garantiu, por meio de nota, que foi reestabelecido o abastecimento do remédio durante o mês de agosto. Desde 24 de julho, quando as cápsulas voltaram à produção, "lotes estão sendo faturados para o mercado", o que inclui centros de distribuição, farmácias e secretarias de Saúde do país, conforme a Novartis. 

A empresa diz que "notificou a Anvisa de forma preventiva e está tomando todas as providências ao seu alcance para regularizar o fornecimento", entendendo a "importância da continuidade dos tratamentos". 

Porém, segundo a nota, a normalização deve chegar a todos os pacientes dentro de 60 dias, " considerando os prazos necessários para distribuição em todo o país".

TDAH atinge 5% das crianças e adolescentes, apontam estudos

Disgnóstico costuma ocorrer nos primeiros anos escolaresFoto: Lauro Alves / Agência RBS

Números específicos sobre TDAH são difíceis de se encontrar. Em relação a casos no Brasil, os dados são ainda mais restritos. Um estudo realizado pelo Instituto Glia - Consultoria em Neurociências, em 2011, mostrou que 4,4% das crianças e adolescentes brasileiros de 4 a 18 anos sofriam de TDAH. Questionamentos foram realizados com 5.961 jovens de 18 Estados. 

Outra pesquisa, de 2015, feita pela USP em parceria com as universidades federais do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, mostrou que existem aproximadamente 250 mil adolescentes e crianças que não sabem que sofrem os efeitos do TDAH no Brasil.

A porcentagem se assemelha a de outros países e de pesquisas mais recentes, como um estudo feito no início do ano passado, que envolveu médicos e cientistas de 23 centros de pesquisa ao redor do mundo e mostrou que cerca de 5% das crianças e adolescentes sofrem com o transtorno. 

O representante da América Latina no estudo foi o Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino, do Rio de Janeiro. A pesquisa observou atraso no desenvolvimento do cérebro dos pacientes com TDAH. Foram examinadas 3 mil pessoas (indivíduos com o transtorno e outros saudáveis) entre quatro e 63 anos. A média de 5% de existência do transtorno entre a população de crianças e adolescentes também apareceu em documento de 2013 da Associação Americana de Psiquiatria.

Tratamento

E é nestes casos que a Ritalina costuma ser o medicamento mais indicado para tratamento, conforme o psiquiatra do Hospital Fêmina. Para Giovani, a indicação da substância pelo médico só deve ocorrer quando o diagnóstico de TDAH for confirmado. O especialista faz esse alerta porque, "em boa parte dos casos, o transtorno de atenção está sendo desencadeado por outros problemas, como a depressão". Ele explica:

— Ritalina não é indicada para o tratamento da depressão. Por isso, é preciso ter certeza de que a substância está sendo indicada para o tratamento correto. O TDAH é um distúrbio, não pode ser confundido com outras situações e resultar no uso incorreto de um remédio como a Ritalina.

Giovani afirma que os sintomas de TDAH costumam aparecer nos primeiros anos escolares, quando as crianças começam a ter seu foco e atenção mais exigidos:

— O diagnóstico costuma acontecer mais comumente entre os 10 e 12 anos. Alguns sintomas são a dificuldade em se concentrar nas aulas e em atividades que exigem um pouco mais de foco.  

 *Produção: Alberi Neto

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